A maldição da Perfeição

“A perfeição é inimiga da acção”

Qual o custo de perseguir a perfeição?

Quais os benefícios?

Alguma vez a atingiremos?

Uma situação próxima, com uma amiga, levou-me a questionar a perfeição, não tanto a perfeição em si, como conceito, mas sim os custos de nos convencermos que não podemos fazer menos do que o perfeito.

No caso em concreto, a busca de ser perfeita em todos os aspectos da sua vida levou a minha amiga a uma doença grave, segundo ela, os sinais estavam lá, dizia a si mesma que aquele caminho ia levar a algo de errado, mas também se dizia, que assim que puder abrando.

A vida, tratou de a abrandar, colocando-a numa cama de hospital, cara a cara com as dúvidas se vai conseguir ou não assistir ao crescimento dos filhos.

É necessário chegarmos a isto para perceber que não nos é possível ser perfeitos, sobretudo em tudo?

De onde veio essa ideia peregrina de que se não formos perfeitos, se o que fazemos não é perfeito, nos tornamos seres com defeito?

Já alguma vez viste, soubeste de, ou conheceste alguém perfeito, que faz tudo bem?

Se não, porque razão fazes as coisas a achar que tens de fazer tudo bem, que não podes falhar em nenhuma frente?

Na minha adolescência, confrontei-me com dentes tortos, um sorriso “imperfeito”, longe daqueles dos anúncios de pastas de dentes, de todos os modelos nas revistas e televisão, passei a esconder os meus dentes, comecei a sorrir menos, e acho que bloqueei em parte a alegria dentro de mim.

Ninguém tem o poder de nos tirar a alegria, só se nós deixarmos, e eu deixei que a publicidade o fizesse.

Ainda sofro com questões de imagem, não me vês muito nas fotografias, não faço vídeos onde apareça, digo-me que é por questões de privacidade, mas ao escrever isto, apercebo-me que não.

O ser crítico comigo, tem-me feito ser crítico com os outros, e se julgo, automaticamente me sinto julgado, não há volta a dar.

Esta ideia de perfecionismo não nos faz avançar, pelo contrário, faz-nos parar com medo de não conseguirmos atingir esse ideal irrealista de perfeição.

Estes pensamentos extremistas de perfeito versus imperfeito, bom versus mau, a meu favor versus contra mim, são aquilo que nos separam da realidade. A realidade é perfeita e imperfeita, as coisas boas têm em si algo de mau tal como as coisas más têm em si algo de bom, aqueles que nos criticam por vezes fazem-nos avançar, melhorando, aqueles que só nos elogiam bloqueiam o nosso progresso estagnando a nossa vontade de evoluir.

Como podes ver, a realidade é tudo, nós somos tudo, mas queremos deitar fora só o que nos incomoda, mas como faz tudo parte do mesmo pacote, quando deitamos fora o que não gostamos, deitamos também aquilo que nos orgulhamos de partilhar com o mundo.

Há uma ditadura da perfeição, as rugas e as estrias são apagadas com photoshop, as barrigas são todas lisas e musculadas, e no momento em que olhamos para o espelho e reparamos que não estamos nesse nível, dizemos que isso é para os outros, ou começamos a contar que ao fim de duas semanas e os tais sumos detox, temos uma pele maravilhosa e um corpo de sonho. A primeira semana termina, não estamos perto, e se aguentarmos até à segunda, reparamos que não conseguimos, que continuamos com rugas e gordura abdominal, mesmo que nos sintamos melhor, o nosso cérebro vai cruzar as imagens da perfeição e aquilo que temos à nossa frente, e vai dizer que não é igual, que falhámos.

Seria muito mais saudável cultivar o pragmatismo, o que é que conseguimos fazer com o que temos, sabendo que isso nos faz avançar, imaginando algo melhor, apontando aí, mas estando focados na tarefa que temos à nossa frente.

Ouvimos algumas personalidades referir que o seu defeito é o perfecionismo, mas dizem-no com um certo orgulho, que o seu pior defeito é buscar a perfeição, e temos tendência a ficar fascinados com aquela pessoa que até o seu pior defeito é uma qualidade. Não é.

Perfecionismo é uma patologia, causa grandes danos, e já é altura de pararmos com este ataque à nossa condição de seres humanos imperfeitos, e por isso reais.

O ataque começa dentro das nossas cabeças que foram cheias de falsos idealismos de perfeição, mas rapidamente rebenta e ataca aqueles à nossa volta que querem fazer coisas, mas que como qualquer pessoa normal, começam falhando, estando longe de um ideal irreal.

Destruímos sonhos, nossos e dos outros por causa de uma ilusão. Valerá a pena?

Progresso, avançar, é um ideal que vale a pena perseguir, consegue-se hora-a-hora, dia-a-dia, conversa-a-conversa, desenho-a-desenho, texto-a-texto, o que decidimos, que escolhemos buscar para nós.

O primeiro episódio do podcast que tem uns quinze minutos, levou três horas a ser gravado, gravava, apagava, criticava-me, irritava-me, e não conseguia soar como todos aqueles locutores maravilhosos que admiro, não conseguia ser perfeito nas minhas tentativas de falar para um microfone. Talvez tivesse começado a fazer o podcast mais cedo se não tivesse tantas inseguranças, se não me considerasse inferior por não me considerar perfeito.

O último episódio que publiquei do podcast, a entrevista do Richard Câmara também me fez pensar na minha relação com o desenho, que não desenhando como todos os mestres que admiro, páro, e não chego a desenhar, privo-me do prazer de comunicar através do desenho, privo-me do gozo de sujar papel, de afiar lápis, de largar tinta sobre o papel.

Tenho uma ideia de um curso, uma formação nestas áreas da criatividade, desenvolvimento pessoal, performance, mas quando penso no assunto, vejo que não sou “a” pessoa ideal, que não sou “perfeito” para o fazer, vou-me bloqueando, em vez de todos os dias, passo a passo construir aquilo que considero ser possível, mas com uma componente de arrojo, de me sentir a esticar no processo.

Tenho de tomar o remédio que vim aqui defender, buscar progresso e não perfeição.

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