altos e baixos

Foi uma semana importante para mim, houve um capítulo que se fechou que estava aberto há tempo demais.

Há tempos referi que havia algo que ainda não podia falar mas que mexia comigo, pois bem, agora é possível falar.

No sítio onde trabalhava as coisas complicaram porque decidi voltar a estudar, e isso não foi bem aceite por um dos responsáveis da empresa, encarou-o como um desafio à sua autoridade, foi-me referido que ao abrirem excepções mais pessoas poderiam querer estudar. Não pedi nada à empresa a não ser a flexibilidade para poder frequentar a pós-graduação em que me inscrevi, trocar folgas para calharem nos dias de aulas, dois sábados por mês, só isso.

Pois bem, terminou, já não faço parte da dita empresa.

Consegui através dos meios legais negociar a minha saída, não me demiti, algo que a dita pessoa pretendia que eu fizesse.

As pessoas à minha volta acompanharam esta novela, e quando tudo terminou disseram:

“Deves estar muito contente!”

Respondi que estava aliviado, mas não estava muito mais feliz que no dia anterior.

Porquê?

Durante a maior parte da minha vida percorri os extremos, o muito feliz, e muito infeliz, andei nesta montanha russa de altos e baixos emocionais, e aquilo que se perde nestas viagens radicais somos nós, o sentido de estar conscientes de onde estamos, quem somos.

“Não subas muito nos momentos altos, não desças muito nos momentos baixos.”

Não tenho a certeza onde ouvi esta frase, mas tenho a sensação que foi o Barack Obama numa entrevista que referiu como sendo a razão para manter a cabeça fresca na altura de tomar decisões.

É fácil quando tudo corre bem ficarmos a achar que somos os maiores e que a vida só pode melhorar, que a tormenta passou e não voltará. No entanto, a vida é feita de momentos altos e momentos baixos, e quando é a vida a determinar a altura que nos projecta ou o fundo que nos atira, somos simplesmente fantoches sem qualquer tipo de poder de agir.

Já referi aqui que as situações são neutras, somos nós que colocamos a carga positiva ou negativa, é a nossa percepção e a nossa interpretação que faz com que zero se torne um ou menos um, por essa razão é importante estar presente da mesma forma para tudo, experienciar todas as emoções humanas sem nos perdermos pelo caminho.

O artista que produz uma obra que é bem aceite, que lhe traz o dito sucesso, pode facilmente embriagar-se com todas as coisas associadas como entrevistas, festas, e rapidamente se afastar daquilo que fez com que chegasse àquele momento, ao reconhecimento do valor daquilo que produziu. Se o tempo que temos é apenas utilizado a colher, não vai demorar muito a ficarmos sem frutos.

Para colher é preciso semear, não há outra hipótese, e o que acontece nos extremos, no momento alto e no momento baixo é que não estamos a semear, estamos perdidos a consumir umas vezes bons alimentos, mas em excesso, ou a consumir maus alimentos, e por vezes também aqui em excesso.

“Só a dose faz o veneno.”

Paracelso

No momento em que terminei a pós-graduação fiquei feliz, mas ainda não saí para celebrar, gostaria de me juntar às pessoas que fizeram esta viagem comigo, que tanto me ajudaram, agradecer-lhes e saborear de forma consciente o esforço que todos fizemos, que deu o fruto marivilhoso de missão cumprida.

Pode parecer que estou a defender que não devemos celebrar, que não devemos ficar felizes pelas vitórias que vamos conseguindo nas nossas vidas, mas não é. O exemplo que me ocorre aqui é o de sairmos para festejar, beber demais, divertirmo-nos durante umas quatro cinco horas, e passar o dia seguinte de ressaca, sem energia, dor de cabeça, sem conseguir comer, referindo “nunca mais bebo”. Torna-se mais fácil assim perceberes que sempre que te perdes nas celebrações, quando as levas alto demais, estás a roubar ao teu trabalho do dia seguinte, gastaste mais energia que deverias hipotecando a tua capacidade de continuar a fazer aquilo que gostas, aquilo porque te apaixonaste, e que dessa forma deu os frutos que levaram à celebração.

Li num artigo que o comediante americano Dave Chappelle, depois de ter feito a sua performance num clube de comédia, no dito horário nobre destes clubes, por volta das nove da noite, e de lhe ter corrido muito bem, saiu para jantar com outros comediantes que também lhes tinha corrido bem, foram rir, divertir-se. Por volta da uma da manhã, o Dave Chappelle disse que ia voltar ao clube para testar umas novas piadas, os outros disseram-lhe para ele ir com eles a uma festa que estava acontecer, que ele já tinha feito o seu set, que tinha corrido bem, que ele deveria celebrar, e que àquela hora só deveriam estar quatro ou cinco bêbados no clube. O Dave Chappelle, que consegue encher salas de dez mil pessoas, sabe que são também os clubes de comédia à uma da manhã com cinco pessoas que lhe permitem ter o treino para enfrentar e cumprir perante os públicos maiores que pagam para o ver.

Ele poderia facilmente ter ido à tal festa, perder-se e não aproveitar mais um momento para aperfeiçoar o seu ofício, aquilo que escolheu para ser a sua carreira. É também esta uma das razões da importância de fazermos aquilo que gostamos, não olhar para o que fazemos como um modo de chegar a algo que isso sim nos fará feliz, é trocar os nossos dias por um emprego que não nos preenche, mas que paga bem para termos aquela viagem de dez dias de felicidade, trocados por duzentos de sofrimento.

Podemos e devemos saborear as coisas boas da vida, mas não devemos viver a nossa vida condiconados por esses momentos, pensa sempre no custo que as coisas têm para ti, tem consciência que é no teu centro que está a tua força e quanto mais para cima sobes ou quanto mais para baixo desces, mais fraco ficas.

Dúvidas, sugestões, rui@falarcriativo.com.