By Rui Branco

Herói, vítima ou aprendiz?

Queres ser sempre o herói, ou gostas de te fazer de vítima?

Tenho andado a pensar nisto, da facilidade com que vamos para um extremo ou para o outro, por um lado fazemos filmes nas nossas cabeças de como iremos ser uns heróis, que iremos salvar o dia, que somos donos da razão, e por outro lado fazemo-nos de vítimas, culpamos os outros pelas coisas que correm mal na nossa vida, que iremos falhar redondamente, que nunca conseguiremos e que precisamos que nos dêem um ombro para chorar.

Mesmo estes textos escrevo-os, das duas perspectivas, agora que penso nisso tenho escrito textos em que o mundo é complicado, mas eu sou dono de uma qualquer verdade que me permite saber mais que o comum dos mortais, ora sou vítima ora sou herói.

E se não fôr nem uma coisa nem outra?

E se estiver sempre numa posição de alguém que está a aprender?

Quem está a aprender não será nem uma coisa nem outra, é somente alguém curioso que tenta perceber o que acontece e resolver da melhor forma.

É fácil acharmos que se descobrirmos uma resposta a um problema que nos surgiu, nos torna superiores aos outros, o herói, quando na verdade somos apenas alguém que tentou algo que correu bem, que reflectimos sobre isto ou aquilo e a nossa reflexão foi bem sucedida.

Mas o reverso da medalha também é verdade, se errarmos na resposta às dificuldades da vida, não faz de nós vítimas das circunstâncias, impotentes e incapazes de tentar outra vez, e outra, e outra, até conseguirmos.

Não sei de vítimas que tenham chegado longe, nem sei de heróis que nunca tenham falhado, logo heróis e vítimas não são, ou não deverão ser o nosso alvo, mas sim ser o eterno estudante que aconteça o que acontecer vai retirar aprendizagem e com isso avançar.

Na nossa cabeça, pelo menos na minha, a conversa da vítima consegue ser bem sedutora, ajuda-nos a esconder, não temos de ser corajosos, para todos os efeitos precisamos é que tratem de nós, é um caminho aparentemente fácil para sermos protegidos e amados devido à nossa fragilidade. O lado negativo é que nos deixa prisioneiros das circunstâncias, dependentes de outros que a qualquer momento podem ter assuntos bem mais interessantes do que tomar conta de alguém que escolhe dar ouvidos a uma conversa que não faz ninguém avançar e nos destrói pelo lado de dentro. Não temos qualquer hipótese de alterar a situação, afinal de contas nós somos a vítima!

Do lado do herói há mais pessoas que conseguem chegar mais longe, a confiança é importante para que o nosso objectivo se torna realidade, temos de acreditar que somos capazes, temos de nos ver vitoriosos. Porém, esta visão de sucesso heróico coloca me muitos de nós muita pressão, cria ansiedade uma vez que não se espera outra coisa dos heróis que não seja a vitória. No entanto os heróis facilmente se tornam arrogantes, pretenciosos, acham que tudo gira à sua volta, desvalorizam aquilo que os outros podem trazer para a equação acabando por criar uma série de armadilhas que mais tarde ou mais cedo eles próprios caem.

Se em todas a situações eu acreditar na minha capacidade de aprender, na minha capacidade de pedir ajuda, não como vítima mas como alguém que quer partilhar a viagem, é impossível haver fracasso.

Sim, leste bem, I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L!

Como assim?

Pensa bem, se eu partir para as coisas com a atitude de aprendiz, nada do que acontecer se pode chamar de fracasso, aconteça o que acontecer eu aprendo, corra bem ou terrívelmente mal, eu fico a saber mais do que sabia antes de ter passado por aquela situação.

Estes textos são isso para mim, formas de confrontar o que acho que sei, com aquilo que depois vejo escrito, que ouço, com o retorno dos ouvintes, das pessoas que lêem, seria mais fácil para mim fazer-me de vítima, dizer que ninguém liga ao que penso e escrevo, que o mundo não me compreende e dessa forma arranjar uma desculpa para parar. Do outro lado está a questão do herói, se eu achasse que era o maior, escrevia qualquer coisa, a primeira coisa que me viesse à cabeça sem um mínimo de preocupação com a qualidade do que escrevo e completamente imune às críticas que vou recebendo, não tendo dessa forma maneira de evoluir, se eu já sei tudo nada mais posso aprender.

Resumindo, não te escondas atrás de um diálogo interno de vítima que pode parecer confortável mas não te deixa sair do mesmo sítio, nem te coloques num pedestal que te afasta dos outros e sobretudo da melhor versão de ti.

Escolhe a conversa interna que promove o teu crescimento, com pessoas ao teu lado, seguro que nunca falharás, pois armado da vontade de aprender nada te pode parar, não crias expectativas irrealistas que te criam ansiedade nem te tratas como um ser indefeso incapaz de se erguer pelos seus próprios meios.

Seja o que for que enfrentes, confia, repete a ti mesmo que tens a capacidade de aprender e superar.

Qualquer dúvida ou sugestão, rui@falarcriativo.com.


episódio 149, Nebula Studios, DFTA

Os convidados desta vez são três, um deles, é um regresso, o José Alves da Silva, os outros dois são o Guilherme Afonso e o Miguel Madaíl Freitas, da Nebula Studios.

E porque é que eu fui falar com eles?

O José, ou Zé, desenhou um personagem, um coelho lobotomizado, o Lobo, e ofereceu o desenho aos seus amigos da Nebula, que adoraram o personagem e decidiram fazer uma curta metragem de animação.

Essa curta chama-se “Don’t feed these animals” ou DFTA.

Eu ao ver um trailer/teaser da curta, perguntei ao Zé se me punha em contacto com a malta envolvida no filme, e assim foi, combinou-se o dia e lá fui eu falar com eles para perceber o como e o porquê de uma curta de animação.

Qualquer dúvida ou sugestão, rui@falarcriativo.com.

Morrer todos os dias

“Tens o que mereces. Em vez de seres uma boa pessoa hoje, escolhes em vez disso tornares-te uma amanhã.”

Marcus Aurelius, Meditations, 8.22

“É p’ra amanhã
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar”

Estas sábias palavras da música do António Variações andaram esta semana a percorrer os corredores do meu cérebro, corredores cheios de sonhos, lixo de projectos falhados, e o eterno medo que temos de o nosso tempo acabar e tudo estar por fazer.

A pressa que nos dá quando sabemos que podemos não ter tempo para terminar algo, ou mesmo para nos despedirmos de alguém que amamos, é uma coisa extraordinária.

Há uns anos, pouco tempo antes da minha filha mais velha nascer, ao fazer um electrocardiograma descobriram algo no meu coração, o relatório era alarmista, e eu comecei logo a imaginar o pior dos cenários, que não iria ver a minha filha crescer.

Se pensar bem, mesmo sabendo agora que não é nada de grave – não tenho qualquer limitação – nada me garante que vá ver as minha filhas crescerem, mas vou-me iludindo, achando que tenho tempo, tempo para tudo, e que o melhor é aquilo que vai acontecer quando X e Y se tornarem realidade.

As condições perfeitas para embarcarmos numa jornada nunca existirão, mas o nosso medo, aquilo a que o autor Steven Pressfield chama  de Resistência, ilude-nos, leva-nos a acreditar que a altura certa irá existir e que como ele descreve no seu livro The War of Art, “Nós não nos dizemos, ‘Eu nunca irei escrever a minha sinfonia.’ Em vez disso dizemos, ‘Eu vou escrever a minha sinfonia; Só que vou começar amanhã.’”

E se todos os dias tivéssemos de saldar as contas? 

Se todos os dias tivéssemos de deixar tudo tratado, sem saber se o dia seguinte iria contar com a nossa presença ou não?

Não falo da versão irresponsável de viver como se quiséssemos morrer, falo na versão de todos os dias estar consciente da possibilidade de poder não ter uma outra oportunidade, falo da versão de todos os dias deixar tudo no ponto de continuar onde deixámos na noite anterior.

Projectamos demasiado no futuro, num futuro ideal, idílico, mas pouco fazemos para o tornar uma realidade. Esse futuro que queremos, é construído por um conjunto de dias em que deixamos as contas saldadas, que dissemos o que deveríamos ter dito, que fizemos o que deveríamos ter feito, que amámos como deveríamos ter amado, que criámos como deveríamos ter criado, as sementes de um dia seguinte melhor que hoje.

Como diz o Marco Aurélio na frase, nós temos o que merecemos, em vez de sermos bons, melhores, hoje, adiamos para amanhã, porque achamos que vamos ter essa oportunidade.

Ao acharmos que temos tempo, pregamos uma partida a nós próprios de duas formas, adiamos – pois vamos ter tempo para fazer – e como colocamos muito para a frente a concretização não temos a motivação para dar o passo que precisamos hoje.

Se eu achar que construir uma catedral leva cem anos, dificilmente começo, nunca terei tempo de a acabar, mas se eu fizer os planos de todos os dias deixar uma parte dessa catedral construída, o meu objectivo começa a parecer-me real, mais me motiva, e mais acredito que um dia a totalidade da catedral vai existir .

Se o meu plano for ter a minha própria empresa, ou escrever um livro, deverei perguntar-me: “Para daqui a cinco anos esse objectivo ser realidade, onde tenho de estar ou que é que tenho de ter feito no próximo ano? E para estar onde tenho de estar daqui a um ano, o que tenho eu de fazer no próximo mês? E para estar onde tenho de estar daqui a um mês o que tenho eu de fazer esta semana?”

Desta forma todos os dias estaremos alinhados com o que queremos e devemos fazer, todos os dias vamos acabar com as contas saldadas, pois todos os dias serão marcos no caminho, e no dia seguinte já vamos começar mais à frente do que começámos hoje, mas se todos os dias acabarmos o dia a dizer que amanhã é que é, que temos tempo, que se não fizer hoje faço amanhã, amanhã pode ser tarde demais, podemos não ter esse tempo.

De manhã pergunta-te:

Posso eu hoje acabar melhor do que fui ontem?

Todos os dias morremos quando o dia termina, morre mais uma chance de avançar, de nos aproximarmos daquilo que dizemos querer, de viver mais dias os nossos sonhos que teimosamente adiamos para um futuro que poderemos nunca ter.

Ondas Grandes

De volta de férias, olhei muito para o mar, pensei no medo que ele me provoca, na força das ondas, e pensei que muitas vezes a vida fora do mar se parece muito com este, ondas que batem, que nos derrubam, que nos assustam.

Mas por outro lado há quem aproveite a força das ondas para surfar, para se divertir, para se desafiar.

Será que são as ondas o problema? Ou somos nós que estamos no sítio errado?

Na zona de rebentação é onde está o impacto, e nós não nos queremos aventurar a ir mais longe, passando-a, nem queremos ficar fora de água e damos por nós a comer areia.

Não sei se me estou a conseguir explicar, mas irei tentar.

Eu estou neste momento a passar por uma fase de ondas grandes, muita coisa a acontecer, muitas ondas seguidas, saí da praia – o local onde estava a trabalhar – comecei a remar para onde quero ir, mas ainda estou a na zona de rebentação, estou a sofrer vários derrubes, recuos, e dou por mim quase de volta à costa nalgumas alturas. Há sequências de ondas muito seguidas que me assustam, que me levam a pensar se me deveria ter metido mar adentro, se não estaria melhor na segurança da praia.

Mas não, voltar para a praia está fora de questão, quero cavalgar as ondas, quero viver todas essas experiências que me fazem vibrar, quero olhar para a praia do lado do mar, ver toda a beleza que se contempla olhando de dentro para fora.

Quando começamos algo novo há a esperança que as águas sejam sempre calmas, que corra tudo como planeado, como sempre desejámos e não tínhamos, mas na realidade poucas serão as vezes em que os imprevistos não aconteçam, que não venha uma onda maior e nos tente derrubar.

Temos a tendência a tentar passar por cima das ondas que vêm na nossa direcção, achamos que tal qual um Titanic, que será o iceberg a desviar-se, ou a onda a rebaixar-se perante nós. Quem já esteve no mar com ondulações complicadas sabe que a melhor solução é mergulhar, esperar que aquela energia passe e depois voltar à tona de água, para de seguida – muito provavelmente – voltar a fazer o mesmo.

Neste momento sei que estou numa zona em que existe uma forte probabilidade de ser derrubado por uma onda, mas sei também que posso a qualquer momento encher o peito de ar e sair da frente das ondas submergindo. Sei que se nadar um pouco para o lado talvez encontre um canal que torna a passagem para fora da zona de rebentação algo mais fácil, mas também sei que se entrei dentro do mar foi para surfar, este desvio das linhas de ondas será sempre temporário, quero gozar as ondas, não quero daqui a uns meses, anos, olhar para trás e ver que não saí da praia, que nunca soube a emoção de descer uma onda a grande velocidade, porque sei que estou a fazer aquilo que quero fazer.

Os verdadeiros surfistas adoram mares difíceis, é sobre aqueles dias complicados que falam quando se juntam, e também eu ao longo da minha vida têm sido as situações que me pareciam ondas grandes aquelas que me fizeram crescer mais, mas acima de tudo as que melhores memórias me deixaram foram aquelas em que aceitei as ondas que vinham na minha direcção e decidi que as iria aproveitar para me desafiar, surfando melhor ou pior, mas tentando ser aquilo que acho ser o mais correcto.

Se caí? Caí muitas vezes, mas nunca me arrependi de uma queda que dei por tentar, dói-me mais encolher-me e não tentar, essa é sempre a escolha que temos de fazer. 

Não estou a dizer para ires a correr para dentro de água sem estudar o mar, a ondulção, os tais surfistas que referi, os bons, chegam à praia e observam a direcção das ondas, o melhor sítio para entrar, fazem um aquecimento, e só depois entram na água disponíveis para cair, para perder ondas, mas acima tudo disponíveis para as coisas boas, a adrenalina de descer a toda a velocidade ou fazer aquela manobra que desafia as suas capacidades.

Quem não está disponível para as coisas difíceis, nunca estará preparado para gozar as fáceis, as boas, aquelas que valem a pena.  O não saber se vai correr bem, o risco, o esforço de nos superarmos, é o preço a pagar pela paz de deitar a cabeça na almofada ao fim do dia sabendo que crescemos, que hoje valeu a pena, que hoje sou – nem que seja um  por cento – melhor.

E como referi num texto anterior, tudo passa, menos a lembrança de quem fui nesta ou naquela situação.

O mar acalma, e será nesses momentos que podemos recuperar o fôlego, reparar a prancha, reflectir sobre todas as grandes ondas que fomos capazes de surfar sabendo que a nossa capacidade de lidar com elas aumentou, o que nos permite aproveitar cada vez mais a energia que elas trazem.

A maldição da Perfeição

“A perfeição é inimiga da acção”

Qual o custo de perseguir a perfeição?

Quais os benefícios?

Alguma vez a atingiremos?

Uma situação próxima, com uma amiga, levou-me a questionar a perfeição, não tanto a perfeição em si, como conceito, mas sim os custos de nos convencermos que não podemos fazer menos do que o perfeito.

No caso em concreto, a busca de ser perfeita em todos os aspectos da sua vida levou a minha amiga a uma doença grave, segundo ela, os sinais estavam lá, dizia a si mesma que aquele caminho ia levar a algo de errado, mas também se dizia, que assim que puder abrando.

A vida, tratou de a abrandar, colocando-a numa cama de hospital, cara a cara com as dúvidas se vai conseguir ou não assistir ao crescimento dos filhos.

É necessário chegarmos a isto para perceber que não nos é possível ser perfeitos, sobretudo em tudo?

De onde veio essa ideia peregrina de que se não formos perfeitos, se o que fazemos não é perfeito, nos tornamos seres com defeito?

Já alguma vez viste, soubeste de, ou conheceste alguém perfeito, que faz tudo bem?

Se não, porque razão fazes as coisas a achar que tens de fazer tudo bem, que não podes falhar em nenhuma frente?

Na minha adolescência, confrontei-me com dentes tortos, um sorriso “imperfeito”, longe daqueles dos anúncios de pastas de dentes, de todos os modelos nas revistas e televisão, passei a esconder os meus dentes, comecei a sorrir menos, e acho que bloqueei em parte a alegria dentro de mim.

Ninguém tem o poder de nos tirar a alegria, só se nós deixarmos, e eu deixei que a publicidade o fizesse.

Ainda sofro com questões de imagem, não me vês muito nas fotografias, não faço vídeos onde apareça, digo-me que é por questões de privacidade, mas ao escrever isto, apercebo-me que não.

O ser crítico comigo, tem-me feito ser crítico com os outros, e se julgo, automaticamente me sinto julgado, não há volta a dar.

Esta ideia de perfecionismo não nos faz avançar, pelo contrário, faz-nos parar com medo de não conseguirmos atingir esse ideal irrealista de perfeição.

Estes pensamentos extremistas de perfeito versus imperfeito, bom versus mau, a meu favor versus contra mim, são aquilo que nos separam da realidade. A realidade é perfeita e imperfeita, as coisas boas têm em si algo de mau tal como as coisas más têm em si algo de bom, aqueles que nos criticam por vezes fazem-nos avançar, melhorando, aqueles que só nos elogiam bloqueiam o nosso progresso estagnando a nossa vontade de evoluir.

Como podes ver, a realidade é tudo, nós somos tudo, mas queremos deitar fora só o que nos incomoda, mas como faz tudo parte do mesmo pacote, quando deitamos fora o que não gostamos, deitamos também aquilo que nos orgulhamos de partilhar com o mundo.

Há uma ditadura da perfeição, as rugas e as estrias são apagadas com photoshop, as barrigas são todas lisas e musculadas, e no momento em que olhamos para o espelho e reparamos que não estamos nesse nível, dizemos que isso é para os outros, ou começamos a contar que ao fim de duas semanas e os tais sumos detox, temos uma pele maravilhosa e um corpo de sonho. A primeira semana termina, não estamos perto, e se aguentarmos até à segunda, reparamos que não conseguimos, que continuamos com rugas e gordura abdominal, mesmo que nos sintamos melhor, o nosso cérebro vai cruzar as imagens da perfeição e aquilo que temos à nossa frente, e vai dizer que não é igual, que falhámos.

Seria muito mais saudável cultivar o pragmatismo, o que é que conseguimos fazer com o que temos, sabendo que isso nos faz avançar, imaginando algo melhor, apontando aí, mas estando focados na tarefa que temos à nossa frente.

Ouvimos algumas personalidades referir que o seu defeito é o perfecionismo, mas dizem-no com um certo orgulho, que o seu pior defeito é buscar a perfeição, e temos tendência a ficar fascinados com aquela pessoa que até o seu pior defeito é uma qualidade. Não é.

Perfecionismo é uma patologia, causa grandes danos, e já é altura de pararmos com este ataque à nossa condição de seres humanos imperfeitos, e por isso reais.

O ataque começa dentro das nossas cabeças que foram cheias de falsos idealismos de perfeição, mas rapidamente rebenta e ataca aqueles à nossa volta que querem fazer coisas, mas que como qualquer pessoa normal, começam falhando, estando longe de um ideal irreal.

Destruímos sonhos, nossos e dos outros por causa de uma ilusão. Valerá a pena?

Progresso, avançar, é um ideal que vale a pena perseguir, consegue-se hora-a-hora, dia-a-dia, conversa-a-conversa, desenho-a-desenho, texto-a-texto, o que decidimos, que escolhemos buscar para nós.

O primeiro episódio do podcast que tem uns quinze minutos, levou três horas a ser gravado, gravava, apagava, criticava-me, irritava-me, e não conseguia soar como todos aqueles locutores maravilhosos que admiro, não conseguia ser perfeito nas minhas tentativas de falar para um microfone. Talvez tivesse começado a fazer o podcast mais cedo se não tivesse tantas inseguranças, se não me considerasse inferior por não me considerar perfeito.

O último episódio que publiquei do podcast, a entrevista do Richard Câmara também me fez pensar na minha relação com o desenho, que não desenhando como todos os mestres que admiro, páro, e não chego a desenhar, privo-me do prazer de comunicar através do desenho, privo-me do gozo de sujar papel, de afiar lápis, de largar tinta sobre o papel.

Tenho uma ideia de um curso, uma formação nestas áreas da criatividade, desenvolvimento pessoal, performance, mas quando penso no assunto, vejo que não sou “a” pessoa ideal, que não sou “perfeito” para o fazer, vou-me bloqueando, em vez de todos os dias, passo a passo construir aquilo que considero ser possível, mas com uma componente de arrojo, de me sentir a esticar no processo.

Tenho de tomar o remédio que vim aqui defender, buscar progresso e não perfeição.

rui@falarcriativo.com está sempre disponível para receber, dúvidas, feedback, partilhas.