By Rui Branco

episódio 151, Inês Vigário

A Inês Vigário foi minha professora na pós-graduação que fiz em psicologia do desporto, é psicóloga, e desde o primeiro momento houve afinidade, sobretudo pela enorme curiosidade que ambos temos.

Na nossa conversa foi difícil não lhe chamar “professora”, e foi esta professora que muito me ajudou na estruturação do trabalho final, dando dicas, acalmando as minhas inquietações e inseguranças por ser um arquitecto armado em psicólogo.

Acho-a uma pessoa genuína, disponível e com uma perspectiva muito humana da performance, que deve ser baseada num ser, mas um Ser maior alinhado com uma perspectiva dinâmica de crescimento. Por essa e outras razões achei que os ouvintes do podcast teriam muito a ganhar com a oportunidade de conhecer a Inês.

Espero que gostem, e eu espero ter a oportunidade de ter muitas mais conversas com ela, tenho muito a aprender.

Facebook da Inês.

O livro referido foi o “Open” do André Agassi.

Armadilha para macacos

“Aquele que conhece os outros é sábio; aquele que se conhece a si próprio é iluminado.”
― Lao Tzu

Qual a importância de nos conhecermos melhor do que aquilo que os outros nos conhecem?

Yuval Noah Harari, autor do famoso livro Sapiens, recomendado por Bill Gates, Mark Zuckerberg, e Barack Obama, referiu numa entrevista que antes de existirem as ferramentas que hoje temos para o estudo do comportamento dos utilizadores, consumidores, tais como o uso que damos aos telemóveis, ao sites que visitamos, aquilo que clicamos, não era essencial que nos conhecêssemos a fundo, porque os outros não tinham maneira para o fazer.

O que acontece hoje é que com todas estas ferramentas que os outros têm, conhecem-nos tão bem ou melhor que nós, passando desse modo a ter a capacidade de nos influenciar, ao mesmo tempo que nos fazem sentir que temos poder de escolha, que as decisões continuam a ser nossas, que temos o controlo da situação.

No caso do Yuval, ele preferiu não ter telemóvel por saber que o tempo e atenção que lhe consome são mais valiosos colocados na escrita de livros, estudo, ou mesmo tempo livre.

Desengane-se quem acha que poderá ganhar aos “Facebooks”, “Instagrams”, ou qualquer outra rede social, eles têm especialistas em comportamento a ganhar muito dinheiro para tornar estas experiências cada vez mais viciantes.

Consegues estar longe do do telemóvel?

Sentes aquele vício de olhar para o telemóvel quando não tens nada para fazer, ou quando estás à espera de alguém?

Eu sofro desse mal.

No entanto já vou conseguindo identificar essa necessidade, já consigo parar, olhar para esse impulso como automático, e escolho não ceder à tentação irreflectida.

Inquieto muito algumas pessoas que conheço, começo a perguntar o porque é que fazem determinada coisa, e muitas vezes não me conseguem responder rapidamente, não sabem, nunca pensaram nisso. A seguir, algumas começam a dizer que não é errado aquilo que fazem, ao que eu lhes digo que não estou a perguntar se é certo ou errado, só quero que tenham a consciência porque o fazem, e aí sim, tomarem uma decisão consciente de continuar ou parar.

O facto de nos magoarmos a fazer algo, de ter dor associada, física ou emocional, faz com prestemos maior atenção à situação em causa, mas por vezes não é suficiente para mudarmos o comportamento.

Isto faz-me lembrar uma reportagem que vi há uns anos sobre uns caçadores de macacos que usam armadilhas muito simples, porém muito eficazes, devido ao comportamento obsessivo dos mesmos.

Os caçadores colocam sal na fenda de uma árvore oca, os macacos enfiam a mão aberta na fenda, agarram o sal e tentam tirar a mão, mas com a mão fechada não conseguem tirar, ficando presos. Os caçadores vêm e batem-lhes com paus, até os deixarem insconscientes ou matarem.

A única coisa que os macacos têm de fazer é largar o sal.

Eles vêem os caçadores aproximarem-se, levam os primeiros golpes, e nem assim largam o sal.

Qual é o teu sal?

Sim, eu tenho visto no meu caso que algumas coisa que tenho feito são sedutoras, e nem quando levo pauladas no lombo as largo, arriscando a que me possam deixar inconsciente ou me matem.

Ao longo dos tempos têm sido muitos os sábios que nos falam da importância de nos conhecermos, o que acontece é  que assim que a paisagem interna é menos sedutora, nos confrontamos com partes de nós que não vemos como perfeitas, agarramos um sal qualquer, um telemóvel, um site, uma série inteira no Netflix, um copo de vinho, um chocolate.

Não falo como alguém que não sofra deste mal, falo de alguém que a pouco e pouco, através destas reflexões começa estar mais consciente que é essencial saber realmente e profundamente, quem sou e porque faço o que faço.

Na semana passada não houve texto, não tive tempo, poderia ter mantido o punho fechado e levado uma paulada do meu corpo, da minha família por não estar com eles, escolhi abrir a mão, mas não fugi para o telemóvel, fiquei a pensar que estava a falhar, consegui ver que ainda me falta aceitar que não vou conseguir fazer as mil e uma coisas que brilham e me seduzem, que tenho necessidade de aprovação por parte dos outros, que me sinto menos de cada vez que acho que estou a falhar perante alguém, e que dessa forma irão gostar menos de mim.

Mas depois estar nesse sítio escuro, abri a janela, reparei que o mundo continua a girar, e que o facto de ter menos downloads não coloca em causa o valor que aquilo que faço tem, nem aquilo que sou enquanto pessoa.

Hoje há texto, há sol, há vontade de me conhecer melhor, sabendo que não vou gostar de tudo, mas que viver o escuro e o claro, o dia e a noite é bem melhor que viver sempre à luz de uma lanterna que outros seguram, e que dessa forma me podem tornar apenas uma sombra projectada numa parede.

Dúvidas, sugestões, rui@falarcriativo.com.

Rebentar

Gostava de não chegar ao ponto de escrever este texto.

Na semana anterior não houve texto do Falar Criativo, não consegui, o meu corpo não deixou.

Há alguns anos que tenho episódios de dores de cabeça, sempre quando me levo longe demais, sempre que a mente tenta obrigar o corpo, este responde de volta obrigando-o a parar.

Pois, foi o que aconteceu, chegou a altura de escrever o texto e publicar e não foi possível, a dor de cabeça era tão intensa que me fez vomitar, e me atirou para a cama às oito da noite, muito longe das onze, meia noite que costumam ser a norma.

Percebi a mensagem, mas logo veio a sensação de falha, de ser um impostor, ando eu aqui a escrever textos a dar ideias sobre como nos focarmos, sobre como lutarmos por aquilo que queremos, sobre sermos seres humanos de alta competição , e o que acontece? Falho, falho redondamente na minha própria vida.

Como disse no último texto, estou cheio de projectos, coisas a andar que fui semeando e que agoram começam a dar frutos, mas tal como na natureza é necessário manutenção, cuidar das árvores, regar, carregar os frutos. 

Não planeei bem as culturas que fiz, semeei tudo ao mesmo tempo, culturas que germinaram na mesma altura, o que implicou que todo o trabalho associado aconteça ao mesmo tempo.

Quando o terreno está vazio há a tentação de rapidamente o encher, com tudo, há a mentalidade que estamos em falta, que temos de compensar o tempo perdido, que temos de prever o futuro, que temos de fazer o possível e o impossível.

Mas a natureza tem os seus tempos, nós como parte da natureza temos também os nossos tempos, no entanto a natureza é bem mais sábia, respeita-se. Faz-me lembrar a história que a anterior convidada Joana Rita Sousa me contou na entrevista sobre um limoeiro que levou anos a dar dois limões, aqueles que lhe era possível dar, mas que depois se tornou um limoeiro produtivo. Foi quando pôde ser, não quando queriam que fosse.

Temos a propensão a apressar processos, a avançar a partir de um local de pouca clareza associada a uma mentalidade de escassez.

Do outro lado do espectro está a procrastinação, o medo de fazer por medo de não fazer ao nível que achamos que “deveríamos” fazer.

Mas será que está do outro lado do espectro?

Pois, talvez não esteja, em ambos os casos há um desrespeito pelo que somos, por aquilo que podemos fazer em determinado momento.

Chegar ao ponto de sermos obrigados a parar é falta de planeamento, falta de tolerância, mas sobretudo a soberba de acharmos que controlamos tudo, que o sol e a chuva necessários para as nossas culturas são geridos por nós.

Devemos semear mais do que aquilo que conseguimos colher, nem tudo vai pegar, nem tudo vai dar frutos, e se por um acaso, tudo começar a dar ao mesmo tempo, devemos aceitar que vai haver fruta caída no chão, que não vamos apanhar tudo, ou podemos chamar os vizinhos para colher connosco e partilhar o resultado do nosso esforço.

O facto de não ter havido texto na semana passada é o exemplo de fruta caída no chão, havia ouvintes à espera de texto que não apareceu, mas ao contrário do que emocionalmente sentia, a terra não parou, o céu não desabou por eu não ter escrito um texto.

Hoje, sábado, com mais calma pude escrever este texto, depois de dormir, de descansar, de respeitar que por vezes só conseguirei dar dois limões, e quando as condições forem as certas encher-me de limões que poderei partilhar com todos.

Fica a sugestão, planear os tipos de culturas, umas de inverno, outras de verão, e caso o ano se revele melhor que o esperado, deixar fruta caída no chão, irá servir de adubo ao solo que alimenta a árvore de onde caiu, tal como o meu episódio serviu para escrever este texto.

Dúvidas ou sugestões rui@falarcriativo.com

episódio 150, Bárbara Ruano Guimarães

A Bárbara é arquitecta, foi minha colega de curso, e após alguns anos sem estarmos juntos, voltámos a reencontrarmo-nos e temos partilhado ideias, angústias, sucessos, uma verdadeira amizade.

A Bárbara é especialista em BaZi uma arte milenar chinesa que entre outras coisas nos ajuda na clarificação do nosso caminho, quais as nossas forças e onde melhor as aplicar.

Falámos do seu livro sobre BaZi, “O Poder de Saber” , e que grande poder é esse, de saber quem somos, e a partir daí tomar decisões alinhadas como o nosso caminho.

Site: www.barbararuanog.com

Facebook: https://www.facebook.com/barbararuanoguimaraeslive/

Instagram: https://www.instagram.com/barbararuanolive/

Convite ao caos

“Quando aspiras à grandiosidade, o caos garantidamente aparece.”

Gary Keller

Há dois dias fiquei a saber que tinha conseguido entrar no Curso de Psicologia, no ISCTE a Universiade que pretendia. 

Surpresa. Alegria. Ansiedade.

Como vou eu conjugar tudo? Mulher, duas filhas, pais, irmão, amigos, cães, podcasts, trabalho…

Desde o meio de setembro que estou a colaborar num projecto na With Company, dos anteriores convidados Rui Quinta e Tiago Nunes, algo que já queria fazer há algum tempo, gosto deles, da empresa, do que fazem e sobretudo da metodologia de design, centrada no utilizador.

Continuo a fazer as entrevistas do Falar Criativo uma vez por mês, faço os episódios curtos uma vez por semana, faço juntamente com a Rossana Appolloni o podcast Ousar Ser duas vezes por mês, faço o podcast Bitcoin Talks com o António Vilaça Pacheco , o podcast Talking Youth Work com a Anita Silva, sou o realizador dos videos e editor dos podcasts da Nádia Tavares, e ainda faço parte da Associação de Pais do Colégio das minhas filhas. 

E agora, onde entra uma licenciatura?

Onde entra o tempo para o estudo, para as aulas?

O que dizer que não?

Durante muito tempo me achei preguiçoso, por várias situações, por ter deixado fugir determinadas oportunidades, que consigo ver agora, foi por medo e não por preguiça. Talvez nunca tenha sido preguiçoso, talvez tenha sido esse receio do desconhecido, o receio de falhar que me fez não agir.

Olhava à minha volta e via outros a terem vidas cheias de sucessos, oportunidades que aproveitaram e que lhes deu frutos que na altura invejei.

Não tenho a disponibilidade financeira que muitas pessoas da minha idade têm, amigos, conhecidos, e sempre associei isso à minha dita preguiça, à minha dita falta de coragem. Sei também que dei sempre primazia aos amigos, à família, ao tempo escolhido por mim, poucas vezes foram aquelas em que o trabalho que me era exigido em determinados empregos que tive, foi prioridade.

Serei eu mau profissional? Será que não me comprometo?

Por vezes culpei-me, achei que estaria a falhar, mas sei que as vezes que não dei mais, foram aquelas vezes em que não fazia sentido, em que não era justificado fazer mais quatro ou cinco horas por dia só porque um cliente queria o trabalho com urgência, para depois virmos a saber quer tinha ficado semanas em cima da mesa dele sem sequer ter sido visto.

Valorizo o tempo, onde o gasto, também o desperdiço, não sou perfeito, mas fazer algo só porque sim, nunca me fez sentido.

Todas as oportunidades que não aproveitei, conduziram-me aqui, a este momento onde tenho as mãos cheias, onde faço mais, mas faço porque agora faz sentido. Se tivesse eu algum alto cargo numa empresa o mais provável era nunca ter criado o podcast, e todas as situações que descrevi surgiram de anteriores convidados, pessoas que conheci porque o Falar Criativo existe.

Este fim de semana vou organizar a melhor maneira de gerir tudo, não exclúo a hipótese de alguma coisa ter de ser suspensa, abandonada, todos os cenários estão em cima da mesa, mas sou eu que escolho aquilo que me faz estar neste caminho tortuoso, com altos e baixos, com ansiedade, com alegria, mas cada vez mais certo deste caminho.

Quando partilhei a notícia que tinha entrado em Psicologia, vários amigos, alguns de longa data, comentaram qualquer coisa como “é a tua cara” ou “faz todo o sentido”. Ora se estava na minha cara, se faz todo o sentido, porque razão é preciso chegar aos quarenta e dois anos para fazer aquilo que esteve sempre visível para os outros?

Sei que sou míope, mas passa mais por não ter tido a presença e a coragem de seguir aquilo que estava escarrapachado na minha maneira de olhar para o mundo. 

Ou não.

Eu precisei sim de aprender a ver o mundo antes de conseguir ver a minha cara, teria talvez sido um percurso mais pobre, onde tivesse menos para oferecer. Quero acreditar – sim, quero – que a experiência de vida que tenho agora me permitirá ajudar como um psicólogo que consegue ver vários ângulos, que consegue sentir os outros de uma forma mais real e menos académica.

Por exemplo, em 2012 tirei o curso de treinador de basquetebol, modalidade que gosto, que pratiquei enquanto jovem, foi isso que me permitiu ter acesso à pós graduação em Psicologia do Desporto que concluí há dois meses, e foi essa pós graduação o factor de desempate que me fez ter acesso à vaga para o curso de Psicologia que agora embarco.

Ao contrário do que esperamos, desejamos, pensamos, o caminho não é a direito, pode ser, mas poucas vezes o é, são as excepções que confirmam a regra como por exemplo o anterior convidado Filipe Andrade que aos onze anos decide que quer desenhar para a Marvel, e vinte anos depois conseguiu. No meu caso, a minha inclinação para o comportamento humano, para o potencial humano demorou mais até chegar a este momento em início uma nova etapa, mas desta vez mais focada e segura.

Na conversa com a anterior convidada Cristina Nobre Soares sobre a minha entrada para este curso disse-me:

“grande caminho que tens feito, desde que te conheci, deves estar orgulhoso de ti”

Hoje estou.

Dúvidas, sugestões para rui@falarcriativo.com