By Rui Branco

episódio 152, Ana Santos

Desta vez a minha convidada é a Ana Santos, socióloga e antropóloga, que fiquei a conhecer quando fui ao Colóquio Internacional Desporto, Ética e Transcendência 2018, colóquio esse que já referi no episódio momento seguinte.

Ouvi a a Ana falar sobre o futuro da mobilidade, sobre como sociológicamente o futuro nos vai trazer grandes mudanças na relação entre desporto, trabalho e lazer, tal como os entendemos hoje. Por essa razão enviei-lhe um convite, que ela gentilmente aceitou, para falarmos sobre temas que não terão directamente que ver com a criatividade, mas que mexem e muito com o ser humano, principal agente do acto criativo, logo são coisas que dizem respeito à temática do Falar Criativo.

O projecto “Dar a Volta”, que a Ana é uma das fundadoras, foca-se nas várias interligações que os usos alternativos ao carro podem trazer para o país, para a maneira como nos relacionamos com o território e como podemos gerar valor movendo-nos de outras formas.

Livros referidos no episódio:

Dúvidas, desabafos ou sugestões rui@falarcriativo.com

Cinco anos depois

” Quanto mais elogiares e celebrares a tua vida, mais haverá na vida para celebrares.” Oprah Winfrey

Q

Neste episódio reflecti sobre o que tem sido a aventura do Falar Criativo, todas fases e desafios, todas as aprendizagens, amigos que surgiram, momentos altos, momentos baixos, mas todos com valor.

Qualquer dúvida ou sugestão, rui@falarcriativo.com.

Momento seguinte

Poderemos nós deixar que um momento defina a nossa vida?

Na passada segunda-feira fui ao Colóquio Desporto, Ética e Transcendência na Universidade Católica Portuguesa, um evento gratuito que reuniu pessoas ligadas ao desporto, atletas, treinadores, comentadores, e pessoas de outras áreas como filósofos, sociólogos, teólogos, uma combinação muito interessante de pontos de vistas.

Houve um momento que me marcou particularmente, que foi o testemunho do ex-recordista Mundial dos dez mil metros, o Fernando Mamede, quando ele contou o episódio da sua desistência da final da dita distância nos Jogos Olímpicos de Los Angeles em 1984. Comoveu-se, e percebeu-se a dificuldade em falar do assunto, que aquele momento definiu a sua vida daí para a frente. A sensação com que fiquei foi a de que ele nunca ultrapassou psicológicamente o sucedido, e que o fantasma do seu “falhanço” o assombra ainda hoje, trinta e quatro anos depois.

Referiu que há até jornalistas que fazem por vezes o comentário relativamente a atletas que se vão abaixo nos momentos de pressão, como sendo isso o “síndrome Fernando Mamede”. 

Mas numa história cheia de glórias, de superação noutros momentos, porque razão alguém escolhe cristalizar um momento para definir o resto da sua vida?

Nas suas palavras, ao falar sobre o sucedido diz “devo ter algum problema”.

Será que ele tem um problema?

Não o teremos todos?

Quem é que nunca falhou no momento em que as expectativas são altas?

Falo por mim, mas sei que falo por muita gente quando digo que todos passamos por momentos desses, talvez em menor grau de importância colectiva, mas o mesmo grau de importância para a pessoa que fica desesperada, que desiste, que não consegue dar nem mais um passo, que fica com a garganta seca, que não consegue dizer nada, que chora, que foge do local…

O momento em que começamos a olhar para algo como muito importante, quando começamos a deixar que as expectativas que os outros têm relativamente ao nosso desempenho, mas também aquelas que são as nossas, é o momento em que começamos a desenhar um caminho para a desistência, para a auto-sabotagem.

A pressão que sentimos é interna, por muito que os outros nos pressionem, aquilo que sentimos é resultado de permitirmos que essa pressão entre no nosso sistema, ninguém tem a capacidade de nos fazer sentir algo se nós não o deixarmos, mas mais importante ainda é quando pegamos nas expectativas dos outros, multiplicamos pelas nossas e ainda somamos a vergonha  que temos se algo correr mal. 

Não sou imune a pressões, sou até o principal criador das minhas, mas começo a reconhecer a importância de algo que já falei aqui, que é o discurso interno, o que me digo sobre as consequências, e o que me digo sobre a pessoa que serei se algo falhar, e é no momento que reconheço o discurso interno que posso fazer alguma coisa, posso até perguntar “Queres que um só momento defina a tua vida?”, e qualquer pessoa sabe que a vida é feita de um sem fim de ligações, de situações, de pessoas, locais, que contribuem para a riqueza mas também para a complexidade de todo e qualquer momento, por essa razão nunca um momento pode cristalizar a pessoa que sou, que fui e posso vir a ser.

É fácil perceber que a pressão que um pilar de uma casa sofre se for o único, e também é fácil perceber que posso aumentar as cargas, e a pressão se em vez de um, eu tiver quatro ou cinco pilares, então porque razão tendemos a isolarmo-nos quando sentimos a pressão a aumentar sobre nós?

Não será bem mais produtivo reconhecer que não estamos sós? Há sempre alguém disponível para nos ouvir, para colocar em causa muitos dos pensamentos parasitas que só nos fazem ver o lado mais negro, e também ajuda reconhecer que fazemos parte de algo maior que nós, que a humanidade que temos é partilhada por tantos outros, que no momento em que nos reconhecemos nos outros, e os outros se reconhecem na nossa situação, tudo fica mais leve.

Aquilo que não ajuda nada é acharmos que por sentirmos pressão, por falharmos, por desistirmos, temos um problema, se o tivermos, o único problema é tentar fazer algo que  ainda ninguém fez ao nível que queremos fazer.

Sempre, sempre uma questão de escolha, esta luta entre escolher ser uma coisa boa porque está do nosso lado, e ser uma coisa má porque está do nosso lado, e não podemos culpar nada nem ninguém, por isso a decisão mais acertada será escolher o que faz mais sentido para nós, partilhar as nossas inseguranças e em conjunto chegar mais longe.

Cair, todos caímos, e nunca ninguém disse que nos tínhamos de levantar sozinhos.

O momento seguinte é sempre aquele que eu escolho, o seguinte a um mau resultado, o seguinte a um mau pensamento, o seguinte após a minha queda, esse será sempre mais importante que o primeiro, há que escolher bem.

Qualquer coisa, rui@falarcriativo.com.

Na luta

Não é o crítico quem conta; não o homem que aponta como o homem forte tropeça, ou onde o fazedor de ações poderia ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está realmente na arena, cujo rosto é marcado por poeira, suor e sangue; que se esforça valentemente; quem erra, que fica aquém de novo e de novo, porque não há esforço sem erro e falta; mas quem realmente se esforça para fazer os atos; quem conhece grandes entusiasmos, as grandes devoções; quem se dedica a uma causa digna; quem sabe, no final, o triunfo da grande realização, e quem, no pior, se falha, pelo menos falha ao ousar muito, para que o seu lugar nunca seja com aquelas almas frias e tímidas que nem conhecem a vitória nem a derrota .

Theodore Roosevelt 

A vida traz-nos aquilo que precisamos, é o que se costuma dizer.

Mas será sempre verdade?

Se sim, porque razão nos queixamos e resistimos?

Esta semana, mais precisamente ontem ouvi dois podcasts que embora diferentes, me fizeram ligar pontos na minha vida.

Um deles foi com o Seth Godin no podcast do Tim Ferriss  , onde ele falava que o segredo e aquilo que carateriza um profissional é o aparecer, o estar presente, o “show up”.

“80 percent of success is just showing up” —Woody Allen

O Woody Allen também lhe dá razão, e como o Seth refere nós não queremos um cirurgião que está para nos operar se vire para nós e nos diga que no dia que foi marcado para a nossa cirurgia não está inspirado e que teremos de voltar noutro dia em que a musa lhe toque.

No entanto, como artistas, criativos, temos a tendência para esperar, mas sobretudo desculparmo-nos com a falta de inspiração, que não temos nada para dizer, tal como eu fiz durantes algumas semanas em que estava mais cansado e não publiquei nenhum episódio.

É verdade que estava cansado, que muita coisa estava e está a acontecer na minha vida, mas percebo agora com a distância que o que aconteceu foi eu não ter a energia para escrever o texto que eu achava que tinha de escrever. Foi o medo de estar a falhar segundo um padrão que me auto impus, de expectativas do que outros iriam achar de um texto mais curto, mais fraco, mais longe do que acho ser um excelente texto.

Vejo que foi mais a pressão de ter de escrever setecentas, mil, ou mil e quinhentas palavras que me fez tornar o cansaço numa barreira. O cansaço, real que seja, e que fosse, não é justificação para não estar na arena, para não fazer o melhor que consigo segundo aquelas condições. Textos perfeitos quase nunca serão, mas se evito as situações em que tenho oportunidade de crescer, de aprender a fazer um texto pequeno, de aprender a aceitar que a pressão é minha e só minha, que ninguém o pode fazer por mim, menos repetições terei no meu treino, e como sabemos para evoluir há que treinar.

E tu, também andas a adiar alguma coisa, a fazer só quando apetece?

O mais certo é que aqueles que imaginamos como potenciais críticos do que queremos fazer, são aqueles que nunca puseram o pé na arena, aqueles que vivem na bancada dar instruções, mas poucas vezes chutaram uma bola.

Queres viver a tua vida à espera da aprovação daquelas pessoas que nunca tentaram nem vão tentar?

Ou queres partilhar as tuas histórias de vitória e derrota com aqueles que como tu têm a coragem de falhar?

No meu percurso uma coisa tenho a certeza, aqueles que também tentam, arriscam, aqueles que querem crescer, são os mais compreensivos e tolerantes com quem falha. Sabem bem o que é empurrar os limites para cima, cada vez mais alto, criando novos parâmetros para quem vai atrás deles. 

Os que segues como exemplo, querem que tenhas sucesso, aqueles que vão a abrir caminho fazem-no porque querem que outros cheguem mais longe, por isso foca-te neles e não naqueles que te irão criticar se caíres quando tentas chegar mais longe.

A sociedade cria a ideia de sucesso, sobretudo rápido e fácil, e os que realmente trilham os caminhos de sucesso, não conheço nenhum que diga que não teve dificuldades, que não falhou.

Assim sendo, porque razão continuamos a acreditar nessas versões cor de rosa, mas mais perigoso ainda, porque razão baixamos os braços quando ao primeiro embate tomamos consciência que não vai ser nem rápido nem fácil?

Sei que todos nós temos muito para dar, e aqueles que dão mesmo são aqueles que preferem passar tempo com os que arriscaram do que ficar parado a ouvir as teorias porque vamos falhar daqueles que nunca tiveram a coragem de enfrentar a batalha de estar cem por cento vivo.

Escolhe, sim és tu que tens de ter a coragem de escolher, não culpes nada nem ninguém.

A outra coisa que ouvi ontem, foi o podcast Finding Mastery do Michael Gervais onde ele entrevistou a Brené Brown , e ela referia que se farta de fazer estudos para perceber como as pessoas lidam com a vergonha, a coragem, e todas as boas práticas daqueles que o melhor fazem, no entanto dá por ela a ter a tentação de não tomar o seu próprio remédio.

A Brené Brown nas suas viagens, encontra montes de palestrantes que falam de equilíbrio, performance, bem estar, que andam esgotados, desiquilibrados e uns verdadeiros cacos.

Mas afinal de que serve estas pessoas estudarem estes assuntos, partilharem com outros, se depois não o aplicam?

Ora aí está outra carapuça que me serviu, e desde o momento que ouvi comecei a refletir como é que eu que defendo certas coisas aqui, e na minha vida por vezes me deixo tentar pelo lado mais confortável, mas sobretudo menos coerente e tolerante.

Hoje, quando percebi que tinha coisas para dizer, que até tinha algum tempo, tive a tentação de vir logo para o computador, relegando aquilo que me faz estar melhor para depois. Mas ao lembrar-me de praticar aquilo que defendo, primeiro fiz o meu exercício físico, os meus alongamentos, a minha meditação, a minha leitura, levei os cães à rua, e só depois me sentei a escrever.

As bases devem ser sólidas, caso contrário seremos sempre aquele atleta que escolhe não fazer trabalho de reforço no ginásio porque não tem tempo, mas acaba por gastar mais tempo consumido por lesões.

Deixo-te um desafio, escolhe uma das muitas poerguntas que fui fazendo ao longo do texto e envia a tua resposta para rui@falarcriativo.com.