From Acasos

Atalhos

“Não há atalhos para a verdadeira excelência.”

Angela Duckworth

Há alguma coisa que valha mesmo a pena, que não valha a pena esperar?

Quando escolho ir por um atalho, faço-o sabendo que não aprendo o mesmo?

Qual é mesmo a pressa?

Existe este grande desafio hoje em dia do penso rápido, de acabar depressa com o desconforto, o atingir o sucesso em pouco tempo, ficar rico de um dia para o outro criando mais uma app qualquer, todos temos pressa, cada vez mais pressa, mas cada vez mais infelizes.

Somos inundados pelos anúncios que nos dizem que podemos perder peso em “apenas quatro semanas”, que podemos ficar musculados em “apenas dez minutos por dia”, que podemos aprender uma nova língua em “apenas dois meses”, e acabamos por nos sentirmos mal por falhar, por tentar e ao fim de quatro semanas perdemos pouco ou nenhum peso (ou o ganhamos de volta numa semana), que os tais dez minutos por dia não resultam em corpos musculados, e que ao fim de dois meses sabemos dizer olá e bom dia nessa nova língua que decidimos aprender.

O Tim Ferriss é adepto da aprendizagem acelerada, de aprendermos mais depressa, eu também, podemos entender à primeira vista que me estou a contadizer, que critico os atalhos e as receitas, e depois vou pelo mesmo caminho. Vou então tentar explicar o que penso sobre esta relação, atalhos e aprender mais depressa.

Quando busco uma receita para algo, poderá ser até um bolo, busco informação validada por outros que já experimentaram várias vezes juntar ovos, farinha, leite, fermento, açúcar, perceberam que haviam quantidades relativas entre os ingredientes que funcionavam e resultavam num bolo saboroso e de boa textura, e outra vezes em que ficou vazio, muito doce, pouco doce, seco, queimado… percebes o que quero dizer. Mas mesmo nas situações em que estou a seguir uma receita eu vou ter de aprender, vou ter “perder” tempo a executar o bolo, vou ter de aprender a partir ovos, a pesar a farinha, a bater os ingredientes, e vou ter de ajustar a temperatura do forno.

As pessoas que criaram a receita usaram os ingredientes que tiveram acesso, o forno que tiveram acesso, e aqui podem existir diferenças para a minha réplica de bolo seguindo a receita, o forno pode ser mais potente, os ovos podem ser maiores, a temperatura da cozinha onde o bolo é feito pode ser diferente, ter batedeira ou bater o bolo à mão.

Onde quero chegar?

Quero chegar ao ponto de que podemos acelerar o processo de fazer um bolo, sem dúvida, no fim da nossa primeira tentativa de fazer um bolo, iremos ter algo que se assemelha a um bolo, mas duvido muito que seja o melhor bolo que vais fazer se continuares a tentar fazer bolos.

Quem busca fazer melhor, quem busca a excelência como diz a Angela Duckworth está disponível para aprender com os outros mas também está disponível para o desconforto de experimentar, de correr mal, de aprender o que não é para fazer, a arranjar recursos internos para o que não está no plano.

Dou por mim a tentar arranjar atalhos para fazer isto ou aquilo, como por exemplo estes textos, passar o tempo a ler e a pensar para quando chegar aqui e me sentar ser o mais rápido possível, para não me confrontar com o desconforto das coisas não estarem a sair de forma fluida, de parar sem saber o que escrever a seguir, de criticar o que escrevo, de achar que já li isto em qualquer lado, que me estou a repetir. Enfim, é desconfortável fazer qualquer coisa, ou melhor, tudo tem desconforto associado, não há nada que seja só bom e agradável.

Os atalhos, são versões resumidas daquilo que temos de aprender, como se o resumo de um livro se tratasse, e da minha experiência, o resumo não é tão interessante como todas as nuances que o livro contém.

Vou ser sincero, há livros que o nem valia a pena fazer um resumo de tão maus que são, ou o resumo acaba por ser a salvação das pessoas que não têm de ler o livro.

Mas os livros que valem a pena, os filmes que valem a pena, a tua ideia que vale a pena, não podemos usar atalhos, podemos usar referências, guias, ajuda de outras pessoas, mas chega sempre a um ponto que é só nosso, que somos nós a ter de aprender a lição que está incluída no nosso objectivo.

No momento em que eu aceito que o caminho é aquele, preparo-me para ele, os treinos, as aprendizagens incluem o que não correu como planeado, aprendo com os imprevisíveis em treino, dessa forma, quando me coloco a caminho, tenho na minha mala de ferramentas várias situações em que tive de resolver de improvisar.

Quem escolhe andar apenas por atalhos, pode até chegar lá mais depressa, se tudo (mas mesmo tudo) correr bem e como planeado.

Pergunto eu, quantas situações sabes tu que correram exactamente como planeado?

É esse o maior custo dos atalhos, deixa-nos preparados para o que já foi feito, e deixa-nos no nível que os outros estabeleceram para nós, o nível que eles estabeleceram para eles.

Se usares as receitas como ponto de partida, são fontes de aprendizagem. Se usares as receitas com o intuito de ter algo concreto rapidamente, não te admires se ficares no primeiro obstáculo, ou pior, ficar no fim de uma estrada sem saída, que servia apenas para voltar para trás, pois não era para onde querias ir.

A tentação do atalho é legítima, o nosso cérebro pede que terminemos as coisas, evoluiu assim, no entanto tens a capacidade de estabelecer metas mais pequenas que vais completando, tens a capacidade de dizer a ti mesmo que onde chegaste hoje é mais perto do que de onde saíste ontem, que a dor que sentes agora de ainda não ter terminado passará, e acima de tudo saber que a tua escolha de ir pelo caminho que é o teu te torna mais capaz, mais forte. Dessa forma encontras a paz de saber que foste o dono das tuas escolhas que não te limitaste a seguir receitas, a construir mobiliário seguindo as instruções, criaste pratos únicos, e mobília que os teus netos vão ter orgulho de mostrar aos amigos como uma expressão de amor e arte.

Dúvidas ou sugestões, cá estarei para ouvir, rui@falarcriativo.com

 

Ter tudo

Com certeza já ouviste dizer que não se pode ter tudo, posso-te dizer que é mentira.

Pode-se ter tudo. Só não se pode ter tudo sempre.

Quando tive de escolher no meu 9º ano qual a área que deveria seguir, a escolha vinha com o peso de ser uma escolha para a vida, escolher o que queria ser quando “fosse grande”.

Mesmo quando somos pequenos perguntam-nos o que queremos ser quando formos grandes e só aceitam respostas concretas, do género: médico, advogado, economista, pasteleiro, polícia, bombeiro…mas e se nós quisermos ser electricista/pintor/pastor de cabras/professor/músico/ filósofo?

Ah, não, tens de escolher um!”

Quem disse?

Eu já trabalhei em várias coisas, já pratiquei vários desportos, já tive um sem fim de interesses e hobbies, no entanto vivi muito tempo com o peso, a culpa, o sentimento de que algo estava errado comigo por não querer ser só uma coisa, não ter só um interesse, e não gostar só de um desporto.

Já deves ter ouvido aquelas histórias de pessoas que têm uma vocação, uma paixão, e a perseguem com todas as suas forças e achaste fantástico, e eu também.

Mas não somos todos iguais, e apesar de ver o valor nesses percursos, também vejo hoje em dia as enormes vantagens de me interessar por várias áreas.

Tenho um podcast onde entrevisto pessoas de áreas diferentes, e esse meu percurso variado faz com que consiga mais facilmente ligar-me aos convidados, falar a mesma língua.

Mas há um lado menos bom desse percurso, que eu aprendi há pouco tempo, e aproveito este espaço para te o explicar, e dessa forma, fazer com que possas ter tudo.

Podemos ter tudo, temos é de escolher em determinados momentos só fazer uma coisa, aplicar todas as nossas forças num determinado interesse, numa determinada profissão, desporto ou hobbie.

Imagina que gostas de música e que gostarias de ter uma carreira musical, no entanto a tua situação neste momento não te permite (pode ser uma situação económica, familiar, saúde, etc.). O que aprendi que se deve fazer nestas situações não é esquecer o sonho, revoltarmo-nos contra os que nos rodeiam e o mundo em geral, por ser injusto, mas sim pensar que neste momento devo concentrar as minhas forças em resolver aquilo que me pede mais atenção, mantendo a chama acesa daquilo que realmente me faz feliz.

Eu muitas vezes joguei energia fora a reclamar de como as coisas deveriam ser, em vez de usar a minha energia para trabalhar no que quero, ou a pensar em maneiras de resolver o que me está a impedir.

Nesses momentos, deixei de sonhar, deixei de ser parte da solução, e tornei-me parte do problema.

A pressa de querer ser tudo ao mesmo tempo, ou de achar que aquilo que escolho agora, determina o resto dos meus dias trouxe-me muita revolta e, com isso, ficar a patinar na lama da qual desejava sair.

A vida dá muitas voltas, e aquilo que é verdade hoje pode não o ser amanhã, mas se todos os dias colocares a tua energia na tarefa que está à tua frente, saberás que és capaz disso e de tudo o resto que queiras ter e ser.

Por isso podes ter tudo, uma coisa de cada vez.

Futuro Eu, Presente Eu

Já és quem queres ser?

O que te falta?

A mim faltam-me algumas coisas, mais até do que gostaria de admitir, mas esta semana ao reflectir sobre o que quero ser e fazer, finalmente algo encaixou, parece-me que de vez.

Se quero ser algo de diferente daquilo que sou hoje, terei de ser algo de diferente, hoje.

É fácil dizer que se tivesse isto ou aquilo é que eu poderia fazer isto ou aquilo, e assim seria isto ou aquilo, no entanto está ao contrário, não é Ter, Fazer, SER, é sim SER, Fazer, Ter.

Se eu quero ter uma vida criativa, devo criar coisas, sendo assim criativo.

Na minha reflexão, pensei num conceito que ando aqui a desenvolver na minha cabeça, algo que faz sentido para mim, o sermos Seres Humanos de Alta Competição. Admiramos, reconhecemos o valor dos atletas de alta competição, a sua dedicação, o seu esforço, a sua paixão, entrega, e também as suas conquistas, as suas vitórias, ora, se adoptarmos essa maneira de encarar a vida, não só numa determinada área de performance, iremos aproveitar a vida ao máximo, não deixando nada para dizer ou para fazer quando se fazem as contas finais.

Quando os momentos de dúvida, de falta de motivação surgem, pergunto-me – o tal atleta de alta competição que quero ser, o que faria hoje, aqui, agora, nesta situação?

É esse Ser que temos de Ser todos os dias, em todas as decisões que tomamos, é a partir desse ideal imaginado que devemos tomar as nossas decisões, não podemos estar à espera que só quando me tornar o tal futuro eu tome decisões que implicam com o presente eu. Se for o presente eu a tomar as decisões, iremos ficar encravados numa história que se repete, ficamos no passado eu.

O futuro eu, posso sê-lo hoje, o exercício é mesmo esse é tornar o futuro eu no presente eu, aquele que hoje pode tomar decisões que vão implicar na chegada a esse eu imaginado e ideal.

Passos para lá chegarmos.

Primeiro: Que futuro eu é esse? Sabes quem é? Que valores tem? Que relações tem? Que vida tem?

Usa a tua imaginação, vê-te no futuro a ser o teu melhor, aquele que atinge os tais resultados que te preencheriam, aquele que é alguém de que tens orgulho.

No fundo falo aqui de visão.

Se tiveres dúvidas pensa em alguns exemplos de pessoas que admiras e respeitas, porque razão os admiras, se são todas as suas características, ou algumas em particular. Aponta-as, guarda as que melhor te soam.

Segundo: Cria lembretes, mecanismos, hábitos que te levam a ser a pessoa que dizes que queres ser.

Esta semana criei uma imagem de fundo no computador com seis pessoas que admiro e respeito, para me relembrar quem quero ser, mas sobretudo quem escolhi ser.

Terceiro: Sempre que tiveres de tomar uma decisão, essa decisão deve ser tomada por esse futuro eu que tu tornaste presente eu. Exemplos: “Devia ir ao ginásio, mas não me apetece. O que faria o tal futuro eu que quero que seja o meu presente eu?” São as pequenas decisões do dia a dia que nos tornam naquilo que queremos ser, não podemos ficar à espera que um raio nos atinja na cabeça e nos diga que somos especiais, e que temos autorização para sermos melhores.

Os Seres Humanos de Alta Competição, tal como os atletas de alta competição são rigorosos no seu descanso, na sua diversão, na sua alimentação, nas suas relações.

Imaginas o Rafael Nadal, a comer má comida todos os dias? Achas que trabalha 16 horas por dia e dorme 3 ou 4? Achas que está sempre a discutir com o seu treinador ou com a sua família? Achas que é possível seres a tua melhor versão se a vida for um enorme calvário de obrigações, onde a diversão nunca entra?

Os tais atletas de alta competição, aqueles que atingem os níveis mais altos são aquele que vemos divertirem-se a terem gozo de estarem a fazer o que gostam.

Não adianta trocar aquilo que queres ser por aquilo que queres ter. Não adianta ter um carro de 300cv se afinal tu gostas é de andar calmamente à beira mar a usufruir dos cheiros e da brisa que te entra pelas janelas.

Eu tenho caído na armadilha, e esta semana tive um “wake-up call”, um confronto com algo que não queria ver. Uma das minhas filhas comentou com a mãe:

“O Pai nunca sorri.”

Fiquei de rastos, percebi que não era só uma sensação interna, transparecia, e mais do que tudo, tocava nas pessoas que me são mais próximas.

Foi esse confronto com uma coisa dura e difícil que me obrigou a ser já hoje o tal Ser Humano de Alta Competição que imaginei ser o futuro eu.

Nesse mesmo dia estabeleci que vou sorrir mais, mas não aquele sorriso amarelo, forçado, vou ser aquele que se diverte, aquele que descansa, aquele que dá o seu máximo em  tudo o que faz, porque só neste exercício de carga/descanso é que nos faz crescer.

Terei de ser tão exigente com o que faço, como com o que não devo fazer, criando espaço para a alegria e a diversão.

Conhecemos atletas, vêmo-los nas televisões, que não se entregam, que não têm aquela paixão que vem da diversão, da alegria, criticamos, mas não olhamos para nós, para onde nós falhamos.

Tenho um amigo que considero bem sucedido que sempre me disse – “Work hard, but Play harder”. Esse deve ser o nosso mote, jogar, brincar com todas as nossas forças porque sabemos que demos o nosso máximo, para depois não ficarmos a ruminar, a pensar no que deveríamos ter feito, que ficou aquém daquilo que poderíamos ter feito.

Estabelece o teu plano de Ser Humano de Alta Competição, quais os teu períodos de carga, de esforço, mas planeia com igual rigor os teus períodos de descanso, de diversão.

Não te contentes com menos, é merecedor de mais.

És criativo, por isso cria-te, cria a melhor versão possível de ti.

Dúvidas, sugestões, rui@falarcriativo.com

 

 

Verdade ou consequência

Eu gostava de dizer sempre a verdade, mas falho, nem sempre consigo.

Falho sobretudo comigo.

Não sou honesto nas atitudes que tenho, o que digo, e depois confronto-me com a verdade nua e crua de me olhar no espelho sabendo que menti, que não disse o que deveria ter dito, que não fiz o que deveria ter feito.

Quando escrevo no meu diário, quando penso enquanto estou no trânsito, a passear os cães, faço mil planos que vou agir sempre de forma correcta, dizer o que deve ser dito, que vou ser tolerante, justo, corajoso, mas não, minto, minto-me.

Sou muito reactivo, menos do que era há uns anos, mas ainda há coisas que me conseguem tirar do meu caminho, que me fazem gritar com outros, querer bater, desfazer, destruir, e nesses momentos em que me perco, sei que me perdi porque me menti, porque me contei uma história que não era a verdadeira, uma que naquele momento parecia mais fácil, menos dolorosa.

Os problemas surgem quando tentamos fugir da dor, quando a tentamos esconder, sufocar, quando lhe negamos a atenção que ela merece, sim a dor, aquilo que nos incomóda precisa de atenção, nós vamos ter de olhar para ela, podemos olhá-la com coragem quando ainda é só nossa, ou podemos vê-la nos olhos assustados daqueles que magoamos, nos olhos de raiva de outros que também chocam connosco, com a nossa mentira.

Ouvi outro dia que não há homem mais poderoso que aquele que não tem nada a provar, mais até do que aquele que não tem nada a perder. Aquele que nada tem a provar não tem necessidade de aprovação, nem tem medo que o descubram, é livre, e nada nem ninguém o conseguirá prender. Poderão matá-lo, mandá-lo para a cadeia, mas mesmo assim nunca vai perder o seu poder. O poder normalmente depende que alguém reconheça o poder de outro, o poder está sempre em relação a outro, se eu não recear o que me possam fazer, se eu não precisar de ser o que não sou para ser aceite, ninguém terá poder sobre mim, e dessa forma, quem deseja subjugar-me está necessáriamente a precisar que o reconheçam, e é nesse momento que deita o seu poder fora.

Que tem o poder a ver com a verdade?

Tudo. Mesmo tudo.

A verdade, a minha verdade é o centro da minha força, se eu ajo segundo aquilo que acredito, se sei que sou capaz ou não de fazer determinada coisa, eu só vou agir naquilo que sei ser o que realmente quero, não me contento com o que me é confortável, faço tudo o que está ao meu alcance, não perco tempo com o que não faz sentido para mim, não tenho de mentir para conseguir esconder-me do desconforto da rejeição, ou da dor de lutar por mim.

Consequências há sempre, na verdade e na mentira, mas quais preferes sofrer, as baseadas na mentira, ou as baseadas na verdade?

Quando te olhas no espelho, preferes encarar aquele que sofreu por ser honesto, ou encarar aquele que está limpo por fora e manchado por dentro?

Aqueles que nos magoam, mais tarde ou mais cedo saem da nossa vida, as situações que consideramos dolorosas hoje, amanhã passam e até conseguimos rir de muitas, no entanto, aquelas em que fizeste o mais fácil, que não disseste o que devias ter dito por medo de rejeição, por represálias, essas vão-te perseguir durante muito tempo, se é que alguma vez passam.

Não estou lá ainda, talvez até esteja longe, mas já sei a direcção, a direcção é a da verdade, de conseguir olhar para aquele espelho sabendo que me posso olhar nos olhos, que posso chegar aos momentos finais e estar em paz.

A mentira, além de ter perna curta, é muito grande, fica sempre com uma parte de fora quando a tentamos esconder nalgum armário, mas o mais grave de tudo, é as lesões que nos provoca no corpo, sim, esse está sempre presente nunca foge, encara sempre as balas, mesmo que o discurso interno seja de fuga, de criação de cenários alternativos onde a mentira tem justificação, o corpo guarda essa mágoa de termos mentido.

Conheço várias pessoas que têm mazelas de terem andado de skate, de terem caído de mota, lesões de judo, que lhes provocam dor, mas poucas dessas lhes causam sofrimento, no entanto conheço pessoas que mal saem da cama por não terem conseguido viver a sua verdade, têm menos dores, mas sofrem muito mais.

Nos momentos em que encaramos o desafio de frente, de forma honesta, se caímos, levantamo-nos, ficamos com arranhões, mas continuamos, aquilo faz sentido, aquilo é para nós verdade, mesmo que mais ninguém veja e acredite.

Tem havido momentos em que me revolto com quem não devo, porque não consigo encarar aquele que me olha no espelho, por não ter tido a coragem de sentir a dor, escolhi dessa forma sentir o sofrimento.

A dor é inevitável, o sofrimento é opcional, é uma frase atribuída a pelo menos duas pessoas, Carlos Drummond de Andrade, e a Haruki Murakami, no caso do autor japonês, sei que ele percebe isto muito bem, no seu livro “Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo” ele fala da sua paixão pela corrida, da relação que tem com o seu processo de escrita, e como a dor que enfrentamos quando escolhemos fazer algo é semelhante, entre escolher correr longas distâncias, ou escolher escrever um livro.

Se soubermos todos os dias que a dor é inevitável, não passamos os dias a fugir dela, passamos a dançar com ela, deixamos de andar a cair em buracos, deixamos de andar a desviarmo-nos do nosso caminho para a evitar, e não caímos nos braços do sofrimento.

Já o referi que na maior parte das semanas acho que será sempre a última vez que escrevo um texto, que esgotei os assuntos, que não tenho mais maneiras de contar algo sem me repetir, essa narrativa vem precisamente desse sítio, desse medo de ter de encarar assuntos que me são mais difíceis, histórias que doem mais quando as tenho de contar, mas sobretudo esse medo de ser ignorado.

Se eu não me exponho, não encaro a dor da rejeição, mas tenho todos os dias o sofrimento de ter de me ver ao espelho, verdade ou consequência, dor ou sofrimento, a escolha é minha, é tua.

Escolhe arriscar, escolhe de uma vez por todas ser livre das amarras de julgamentos, a começar pelos teus, por isso sê verdadeiro, olha-te nos olhos e sorri, sabendo que essas cicatrizes, essas rugas, essas dores, não são nada comparadas com as consequências que a mentira traz.

O sofrimento de não saberes quem és, é porque te mentes todos os dias. Ouviste menino Rui?

Dúvidas ou sugestões, rui@falarcriativo.com.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ser ou não ser único

“Não é quem tu pensas que és que não te deixa avançar. É quem tu achas que não és.”

Denis Waitley

Todos queremos ser únicos, especiais, mas também não queremos, assim como se de uma bipolaridade se tratasse.

Falo por mim, quando surge uma oportunidade, uma ideia minha, quero ser o primeiro, o especial que tem aquele “não sei o quê” que lhe permite ser tratado de forma diferente, que o mundo espera ansiosamente que eu abra a boca para falar e que partilhe um sem fim de coisas memoráveis que a humanidade nunca irá esquecer.

Quero ter ideias únicas, cheia de valor, que se vão espalhar como fogo em pasto seco, que todos vão querer adoptar assim que tomarem conhecimento do golpe de génio.

Mas quando surge um problema, quando as coisas correm mal, quero saber que não sou o único, que outros já passaram pelo mesmo, e que é possível superar.

Percebes que pensar assim, não é saudável, que não faz com que cresças, parece mais a atitude de um menino birrento, que quer ser o centro da festa, mas que quando faz asneira, espera que ninguém veja, ou logo surge uma pessoa sábia que te diz “não faz mal, acontece a todos”.

Pois, acontece tudo a todos.

Ninguém pode dizer que só tem dias em que se sente especial e único, nem pode dizer que tudo na vida lhe corre mal, que é a única pessoa no mundo a passar por aquilo que está a passar.

No momento em que me acho especial, deixo de me relacionar de forma igual com as pessoas que encontro, começo a vê-las de cima, a comunicação deixa de ser olhos nos olhos, convenço-me que os outros têm de olhar para cima, para terem o privilégio de falar comigo, mas o que me esqueço, é que o mais provável é ficar a falar sozinho, e dessa forma nada aprendo, sou tão especial, que sou como aqueles produtos tão únicos que não há acessórios para eles, nem peças caso se avariem.

Da mesma forma, quando as coisas correm mal, e acho que sou o único a falhar, que mais ninguém seria tão estúpido e incompetente ao ponto de se deixar cair nessa situação, escondo-me por vergonha de ser o que tem defeito, que os outros nunca seriam tão fracos para cair em tal situação. A vergonha de falhar, de sentir que só por eu ser tão incompetente é que me aconteceu a mim, e que por isso mereço que tudo o que me possa acontecer, empurra-nos para o fundo, não nos deixa ver possíveis soluções.

Esta semana ouvi uma entrevista da Maria Shriver sobrinha do John F. Kennedy, e ex-mulher do  Arnold Schwarzenegger, em que ela falava de ter feito uma apresentação do seu livro, e no fim uma mulher ter ido ter com ela para lhe dizer que a admirava, que ela parecia ter uma vida fantástica, ter tudo equilibrado. Respondeu a essa senhora, dizendo-lhe que não que voltar a casa depois de um evento daqueles para uma casa vazia era difícil, e que aquela senhora quando saísse dali, iria para casa estar com os filhos e um marido que a amam. Serve esta história para exemplificar que não há vidas perfeitas, que os nossos ídolos, aqueles que tentamos imitar também têm dúvidas, também sofrem, talvez não as mesmas dores, mas algumas serão parecidas.

O que me tem parecido importante, e pelo que ouvi durante a entrevista é partilharmos as nossas dores, não só as nossas alegrias, quando partilhamos estamos a dizer aos outros, não és tu que tens defeito, somos todos, ou melhor ainda, ninguém tem, faz parte de estar vivo e fazer coisas.

Somos especiais? Somos, mas se todos formos especiais, ninguém é especial. Especiais são aqueles que fazem apesar de, que partilham, que ajudam, que sabem ficar felizes com as vitórias dos outros sem olhar para a vida deles a achar que são menos por não terem o que os outros têm por não experienciarem o mesmo tipo de coisas.

Talvez a razão para acharmos que não vivemos tantas aventuras e sucessos fantásticos, se prenda com a maneira como os interpretamos, se compararmos a nossa experiência com a percepção que temos da experiência dos outros, não será fácil que coincidam, e pode muitas vezes parecer inferior.

Se estás mal, assume, fala com alguém que com certeza terá passado por situações menos boas, sê honesto com as tuas experiências, não serve de nada esconder, e quando falares também não faças parecer aos outros que se algo lhes correu mal foi porque não fizeram o que deviam ter feito, que não são feitos do tal material especial de que só uma elite é feita. Andamos todos a tentar entender isto tudo.

Rodeia-te das pessoas que te aceitam, aceita os outros, cria uma rede que te ampara quando cais, sim, porque todos caímos, e é sempre mais fácil se tivermos alguém para nos ajudar a levantar.

Há algum tempo criei um grupo de Facebook que pretendia que fosse um espaço onde os ouvintes do Falar Criativo de encontrassem e partilhassem aquilo que lhes vai na alma, seja links para coisas que gostam, dúvidas que têm, mas talvez por falta de dinamização minha, não pegou. Quero reavivar esse grupo, por isso se tiveres interesse em fazer parte, clica aqui.

Esta semana também fui ver o concerto dos Queen com o vocalista Adam Lambert, e fiquei fascinado a ver a coragem deste jovem, que ainda muito no início do espectáculo fez questão de referir as dúvidas que muitos na audiência teriam – ele não é nenhum Freddie Mercury.

Ele assumiu perante todos que não era, não iria tentar ser, e que admirava o Freddie tanto como todos ali, mas, isso não o impediu de dar um enorme espectáculo, pelo contrário, foi essa honestidade que ele teve, sobretudo consigo, o que o fez ser o melhor Adam Lambert que podia ser, e assim foi o melhor vocalista que os Queen poderiam ter, não competindo com o artista enorme, que infelizmente já faleceu, mas colocando-se ao lado dele em termos de performance e entrega.

De referir ainda a inveja que tive do Bryan May e do Roger Taylor, artistas que têm quase setenta anos, que estão mais velhos, mas que não envelheceram, continuam com uma alegria gigante, de brincar ao rock’n roll, uma energia que seria impossível se não fosse aquele o espaço onde brincam e onde partilham aquilo que amam fazer.

Eu busco essa energia, esse ambiente de brincadeira que fará com que chegue à idade deles com o mesmo entusiasmo, e nesse processo tenho de saber que não sou uma versão de outros que fazem ou fizeram algo que eu faço ou quero fazer, terei de ser sim, a melhor versão  daquilo que posso ser.

Dúvidas, sugestões o email rui@falarcriativo.com está sempre disponível.