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Verdade ou consequência

Eu gostava de dizer sempre a verdade, mas falho, nem sempre consigo.

Falho sobretudo comigo.

Não sou honesto nas atitudes que tenho, o que digo, e depois confronto-me com a verdade nua e crua de me olhar no espelho sabendo que menti, que não disse o que deveria ter dito, que não fiz o que deveria ter feito.

Quando escrevo no meu diário, quando penso enquanto estou no trânsito, a passear os cães, faço mil planos que vou agir sempre de forma correcta, dizer o que deve ser dito, que vou ser tolerante, justo, corajoso, mas não, minto, minto-me.

Sou muito reactivo, menos do que era há uns anos, mas ainda há coisas que me conseguem tirar do meu caminho, que me fazem gritar com outros, querer bater, desfazer, destruir, e nesses momentos em que me perco, sei que me perdi porque me menti, porque me contei uma história que não era a verdadeira, uma que naquele momento parecia mais fácil, menos dolorosa.

Os problemas surgem quando tentamos fugir da dor, quando a tentamos esconder, sufocar, quando lhe negamos a atenção que ela merece, sim a dor, aquilo que nos incomóda precisa de atenção, nós vamos ter de olhar para ela, podemos olhá-la com coragem quando ainda é só nossa, ou podemos vê-la nos olhos assustados daqueles que magoamos, nos olhos de raiva de outros que também chocam connosco, com a nossa mentira.

Ouvi outro dia que não há homem mais poderoso que aquele que não tem nada a provar, mais até do que aquele que não tem nada a perder. Aquele que nada tem a provar não tem necessidade de aprovação, nem tem medo que o descubram, é livre, e nada nem ninguém o conseguirá prender. Poderão matá-lo, mandá-lo para a cadeia, mas mesmo assim nunca vai perder o seu poder. O poder normalmente depende que alguém reconheça o poder de outro, o poder está sempre em relação a outro, se eu não recear o que me possam fazer, se eu não precisar de ser o que não sou para ser aceite, ninguém terá poder sobre mim, e dessa forma, quem deseja subjugar-me está necessáriamente a precisar que o reconheçam, e é nesse momento que deita o seu poder fora.

Que tem o poder a ver com a verdade?

Tudo. Mesmo tudo.

A verdade, a minha verdade é o centro da minha força, se eu ajo segundo aquilo que acredito, se sei que sou capaz ou não de fazer determinada coisa, eu só vou agir naquilo que sei ser o que realmente quero, não me contento com o que me é confortável, faço tudo o que está ao meu alcance, não perco tempo com o que não faz sentido para mim, não tenho de mentir para conseguir esconder-me do desconforto da rejeição, ou da dor de lutar por mim.

Consequências há sempre, na verdade e na mentira, mas quais preferes sofrer, as baseadas na mentira, ou as baseadas na verdade?

Quando te olhas no espelho, preferes encarar aquele que sofreu por ser honesto, ou encarar aquele que está limpo por fora e manchado por dentro?

Aqueles que nos magoam, mais tarde ou mais cedo saem da nossa vida, as situações que consideramos dolorosas hoje, amanhã passam e até conseguimos rir de muitas, no entanto, aquelas em que fizeste o mais fácil, que não disseste o que devias ter dito por medo de rejeição, por represálias, essas vão-te perseguir durante muito tempo, se é que alguma vez passam.

Não estou lá ainda, talvez até esteja longe, mas já sei a direcção, a direcção é a da verdade, de conseguir olhar para aquele espelho sabendo que me posso olhar nos olhos, que posso chegar aos momentos finais e estar em paz.

A mentira, além de ter perna curta, é muito grande, fica sempre com uma parte de fora quando a tentamos esconder nalgum armário, mas o mais grave de tudo, é as lesões que nos provoca no corpo, sim, esse está sempre presente nunca foge, encara sempre as balas, mesmo que o discurso interno seja de fuga, de criação de cenários alternativos onde a mentira tem justificação, o corpo guarda essa mágoa de termos mentido.

Conheço várias pessoas que têm mazelas de terem andado de skate, de terem caído de mota, lesões de judo, que lhes provocam dor, mas poucas dessas lhes causam sofrimento, no entanto conheço pessoas que mal saem da cama por não terem conseguido viver a sua verdade, têm menos dores, mas sofrem muito mais.

Nos momentos em que encaramos o desafio de frente, de forma honesta, se caímos, levantamo-nos, ficamos com arranhões, mas continuamos, aquilo faz sentido, aquilo é para nós verdade, mesmo que mais ninguém veja e acredite.

Tem havido momentos em que me revolto com quem não devo, porque não consigo encarar aquele que me olha no espelho, por não ter tido a coragem de sentir a dor, escolhi dessa forma sentir o sofrimento.

A dor é inevitável, o sofrimento é opcional, é uma frase atribuída a pelo menos duas pessoas, Carlos Drummond de Andrade, e a Haruki Murakami, no caso do autor japonês, sei que ele percebe isto muito bem, no seu livro “Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo” ele fala da sua paixão pela corrida, da relação que tem com o seu processo de escrita, e como a dor que enfrentamos quando escolhemos fazer algo é semelhante, entre escolher correr longas distâncias, ou escolher escrever um livro.

Se soubermos todos os dias que a dor é inevitável, não passamos os dias a fugir dela, passamos a dançar com ela, deixamos de andar a cair em buracos, deixamos de andar a desviarmo-nos do nosso caminho para a evitar, e não caímos nos braços do sofrimento.

Já o referi que na maior parte das semanas acho que será sempre a última vez que escrevo um texto, que esgotei os assuntos, que não tenho mais maneiras de contar algo sem me repetir, essa narrativa vem precisamente desse sítio, desse medo de ter de encarar assuntos que me são mais difíceis, histórias que doem mais quando as tenho de contar, mas sobretudo esse medo de ser ignorado.

Se eu não me exponho, não encaro a dor da rejeição, mas tenho todos os dias o sofrimento de ter de me ver ao espelho, verdade ou consequência, dor ou sofrimento, a escolha é minha, é tua.

Escolhe arriscar, escolhe de uma vez por todas ser livre das amarras de julgamentos, a começar pelos teus, por isso sê verdadeiro, olha-te nos olhos e sorri, sabendo que essas cicatrizes, essas rugas, essas dores, não são nada comparadas com as consequências que a mentira traz.

O sofrimento de não saberes quem és, é porque te mentes todos os dias. Ouviste menino Rui?

Dúvidas ou sugestões, rui@falarcriativo.com.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ser ou não ser único

“Não é quem tu pensas que és que não te deixa avançar. É quem tu achas que não és.”

Denis Waitley

Todos queremos ser únicos, especiais, mas também não queremos, assim como se de uma bipolaridade se tratasse.

Falo por mim, quando surge uma oportunidade, uma ideia minha, quero ser o primeiro, o especial que tem aquele “não sei o quê” que lhe permite ser tratado de forma diferente, que o mundo espera ansiosamente que eu abra a boca para falar e que partilhe um sem fim de coisas memoráveis que a humanidade nunca irá esquecer.

Quero ter ideias únicas, cheia de valor, que se vão espalhar como fogo em pasto seco, que todos vão querer adoptar assim que tomarem conhecimento do golpe de génio.

Mas quando surge um problema, quando as coisas correm mal, quero saber que não sou o único, que outros já passaram pelo mesmo, e que é possível superar.

Percebes que pensar assim, não é saudável, que não faz com que cresças, parece mais a atitude de um menino birrento, que quer ser o centro da festa, mas que quando faz asneira, espera que ninguém veja, ou logo surge uma pessoa sábia que te diz “não faz mal, acontece a todos”.

Pois, acontece tudo a todos.

Ninguém pode dizer que só tem dias em que se sente especial e único, nem pode dizer que tudo na vida lhe corre mal, que é a única pessoa no mundo a passar por aquilo que está a passar.

No momento em que me acho especial, deixo de me relacionar de forma igual com as pessoas que encontro, começo a vê-las de cima, a comunicação deixa de ser olhos nos olhos, convenço-me que os outros têm de olhar para cima, para terem o privilégio de falar comigo, mas o que me esqueço, é que o mais provável é ficar a falar sozinho, e dessa forma nada aprendo, sou tão especial, que sou como aqueles produtos tão únicos que não há acessórios para eles, nem peças caso se avariem.

Da mesma forma, quando as coisas correm mal, e acho que sou o único a falhar, que mais ninguém seria tão estúpido e incompetente ao ponto de se deixar cair nessa situação, escondo-me por vergonha de ser o que tem defeito, que os outros nunca seriam tão fracos para cair em tal situação. A vergonha de falhar, de sentir que só por eu ser tão incompetente é que me aconteceu a mim, e que por isso mereço que tudo o que me possa acontecer, empurra-nos para o fundo, não nos deixa ver possíveis soluções.

Esta semana ouvi uma entrevista da Maria Shriver sobrinha do John F. Kennedy, e ex-mulher do  Arnold Schwarzenegger, em que ela falava de ter feito uma apresentação do seu livro, e no fim uma mulher ter ido ter com ela para lhe dizer que a admirava, que ela parecia ter uma vida fantástica, ter tudo equilibrado. Respondeu a essa senhora, dizendo-lhe que não que voltar a casa depois de um evento daqueles para uma casa vazia era difícil, e que aquela senhora quando saísse dali, iria para casa estar com os filhos e um marido que a amam. Serve esta história para exemplificar que não há vidas perfeitas, que os nossos ídolos, aqueles que tentamos imitar também têm dúvidas, também sofrem, talvez não as mesmas dores, mas algumas serão parecidas.

O que me tem parecido importante, e pelo que ouvi durante a entrevista é partilharmos as nossas dores, não só as nossas alegrias, quando partilhamos estamos a dizer aos outros, não és tu que tens defeito, somos todos, ou melhor ainda, ninguém tem, faz parte de estar vivo e fazer coisas.

Somos especiais? Somos, mas se todos formos especiais, ninguém é especial. Especiais são aqueles que fazem apesar de, que partilham, que ajudam, que sabem ficar felizes com as vitórias dos outros sem olhar para a vida deles a achar que são menos por não terem o que os outros têm por não experienciarem o mesmo tipo de coisas.

Talvez a razão para acharmos que não vivemos tantas aventuras e sucessos fantásticos, se prenda com a maneira como os interpretamos, se compararmos a nossa experiência com a percepção que temos da experiência dos outros, não será fácil que coincidam, e pode muitas vezes parecer inferior.

Se estás mal, assume, fala com alguém que com certeza terá passado por situações menos boas, sê honesto com as tuas experiências, não serve de nada esconder, e quando falares também não faças parecer aos outros que se algo lhes correu mal foi porque não fizeram o que deviam ter feito, que não são feitos do tal material especial de que só uma elite é feita. Andamos todos a tentar entender isto tudo.

Rodeia-te das pessoas que te aceitam, aceita os outros, cria uma rede que te ampara quando cais, sim, porque todos caímos, e é sempre mais fácil se tivermos alguém para nos ajudar a levantar.

Há algum tempo criei um grupo de Facebook que pretendia que fosse um espaço onde os ouvintes do Falar Criativo de encontrassem e partilhassem aquilo que lhes vai na alma, seja links para coisas que gostam, dúvidas que têm, mas talvez por falta de dinamização minha, não pegou. Quero reavivar esse grupo, por isso se tiveres interesse em fazer parte, clica aqui.

Esta semana também fui ver o concerto dos Queen com o vocalista Adam Lambert, e fiquei fascinado a ver a coragem deste jovem, que ainda muito no início do espectáculo fez questão de referir as dúvidas que muitos na audiência teriam – ele não é nenhum Freddie Mercury.

Ele assumiu perante todos que não era, não iria tentar ser, e que admirava o Freddie tanto como todos ali, mas, isso não o impediu de dar um enorme espectáculo, pelo contrário, foi essa honestidade que ele teve, sobretudo consigo, o que o fez ser o melhor Adam Lambert que podia ser, e assim foi o melhor vocalista que os Queen poderiam ter, não competindo com o artista enorme, que infelizmente já faleceu, mas colocando-se ao lado dele em termos de performance e entrega.

De referir ainda a inveja que tive do Bryan May e do Roger Taylor, artistas que têm quase setenta anos, que estão mais velhos, mas que não envelheceram, continuam com uma alegria gigante, de brincar ao rock’n roll, uma energia que seria impossível se não fosse aquele o espaço onde brincam e onde partilham aquilo que amam fazer.

Eu busco essa energia, esse ambiente de brincadeira que fará com que chegue à idade deles com o mesmo entusiasmo, e nesse processo tenho de saber que não sou uma versão de outros que fazem ou fizeram algo que eu faço ou quero fazer, terei de ser sim, a melhor versão  daquilo que posso ser.

Dúvidas, sugestões o email rui@falarcriativo.com está sempre disponível.

 

 

 

 

Crescer ou encolher

“Pergunta como é que se pode fazer algo em vez de dizeres que não se consegue fazer.”

Bo Bennet

Nos grandes momentos, cresces ou encolhes-te?

Quando aquilo que queres que aconteça, ou que querias evitar, acontece, escondes-te ou cerras os punhos?

A escolha é sempre entre estas duas opções, crescer, centrar nas forças, ou pelo contrário, encolher e começar a contar todas as nossas falhas e as razões porque vai correr mal e não vamos conseguir superar o desafio.

O meu modo de operar é por defeito o segundo, o de começar a procurar todas as razões pelas quais não vou conseguir, todas as dificuldades que vou ter e que me vão impedir de atingir o meu objectivo. Todos temos um modo de reagir que nos é mais natural, vários factores terão estado na origem de os nossos circuitos neuronais estarem de uma maneira que nos faz crescer ou de uma maneira que nos faz encolher.

Posso dar o exemplo cá de casa, tenho duas filhas, uma reage de uma forma, e outra de outra, uma cresce, a outra encolhe. Mesmo pai, mesma mãe, experiências semelhantes, pessoas diferentes. O meu papel como pai será ajudar ambas, mas de formas distintas, é-me mais fácil identificar com uma, e ficar feliz com a determinação que a outra possui naturalmente.

Será que ficamos limitados por reagir mais rapidamente de uma forma que nos faz encolher?

Sim, e não.

Há aquela frase que nos diz que a melhor altura para plantar uma àrvore era há vinte anos, a segunda melhor, é hoje. O mesmo se passa aqui.

Quando uma situação surge, como por exemplo fazermos uma apresentação pública, ou pedem-nos um trabalho importante, ou somos chamados a dar o nosso melhor, podemos ter a reacção de nos encolher-mos, poder, podemos. A questão aqui é simplesmente quanto tempo é que nos permitimos estar lá, no buraco escuro em posição fetal, à espera que o medo passe, como se tivéssemos a querer viajar no tempo, avançando os dias e as horas que nos separam do fim da tal apresentação importante, da entrega do trabalho que nos vai obrigar a crescer.

Não conseguimos parar o tempo, quer fiquemos encolhidos, quer nos coloquemos em bicos dos pés, o tempo vai passar, e passa rápido, por isso quanto mais tempo estivermos encolhidos a contar as desgraças prováveis que imaginamos, menos tempo vamos passar a juntar todas as nossas forças e capacidades para dar a resposta mais adequada ao nosso real valor.

Ouvi uma entrevista do nadador Conor Dwyer, vencedor de dois ouros olímpicos, onde ele refere que antes da sua primeira final olímpica de estafetas, sendo o mais novo de uma equipa que incluía Michael Phelps e Ryan Lochte, o Phelps se virou para ele e lhe disse – “vê lá se me dás uma boa vantagem para quando for a minha vez” – e ele que já estava nervoso, mais ficou, mas rapidamente mudou o discurso interno, pensou que se o maior nadador de todos os tempos lhe estava pedir para lhe arranjar um avanço é porque acreditava que ele era capaz. Poderia facilmente ficar no registo mental de que o Phelps não se queria esforçar, que lhe estava a passar a responsabilidade do resultado final, mas o Conor escolheu ver o pedido do seu ídolo e colega de equipa como uma oportunidade de crescer, de mostrar que merecia estar ali, ao lado dos maiores.

Em Janeiro, algo me fez querer partilhar contigo as minhas reflexões, no entanto a primeira reacção foi de medo, o que irias pensar, o podcast sempre foi sobre os convidados, o que eles têm para partilhar é que é interessante, e todas estas semanas, este é o décimo nôno texto, cada vez que me sento para escrever o medo volta, mas todas as semanas é menor, todas as semanas cresço, todas as semanas reúno mentalmente as respostas que tenho tido aos textos, o que aprendo ao reflectir sobre este ou aquele assunto que me assusta ou que me entusiasma. É o espaço que uso para crescer.

São os textos obras primas?

Longe disso, são sim tentativas de crescimento, são treinos para cada vez me sentir mais confiante para atingir as metas a que me proponho.

Existe uma teoria da psicologia social, a teoria da auto-eficácia do Albert Bandura – “Auto-eficácia designa em psicologia a convicção de uma pessoa ser capaz de realizar uma tarefa específica” – essa tarefa pode ser qualquer coisa, desde falar para centenas de pessoas, ou conseguir tocar numa cobra. A auto-eficácia, a minha crença de que sou ou não sou capaz, tem quatro fontes de informação que me permitem acreditar ou não na minha capacidade de superar a tarefa, que são as performances passadas de sucesso, as experiências vicariantes, a persuasão verbal e os estados fisiológicos/emocionais.

Um exemplo de performances passadas de sucesso seria se, quando me pedem para criar um logotipo, eu já tiver feito vários com resultado positivo, mais facilmente acreditarei na minha capacidade de dar uma resposta válida ao pedido.

A segunda fonte de informação são as experiências vicariantes, que não são mais do que o ver outros a terem sucesso no desempenho da tarefa que me proponho fazer, neste caso ver pessoas com níveis de experiência semelhantes aos meus a desenvolver logotipos, o que me leva a acreditar que se eles são capazes, eu também devo ser.

A terceira fonte, é a persuasão verbal, que tanto pode ser o nosso líder dizer-nos que somos capazes, como o nosso ídolo a dizer que acredita no nosso potencial. Se estas referências para nós acreditam, também mais força passa a ter a nossa crença de sermos bem sucedidos na criação do tal logotipo. Na persuasão verbal também está incluído o discurso interno, aquilo que nos dizemos, se este discurso for derrotista, não será fácil acreditar que vamos superar o desafio, por essa razão é muito importante conhecer o conteúdo do que se passa na nossa cabeça.

A última fonte, os estados fisiológicos/emocionais, tem a ver como me sinto, se o corpo está todo a tremer, se estou com suores frios, será difícil convencer-me que sou capaz de ter sucesso, pois normalmente associamos este tipo de reacções emocionais e fisológicas com incapacidade, com receio. Um bater de coração mais acelerado pode ser de entusiasmo, ou medo, e aquilo que tem sido estudado informa-nos que o novato interpreta como medo, e os mais experientes como algo natural, que faz parte do processo de tentar coisas grandes.

Se quando os grandes momentos chegam, eu estou encolhido, não me vou lembrar de todas as situações em que superei dificuldades, não vou prestar atenção àqueles que à minha volta e parecidos comigo conseguiram, não vou ligar aos incentivos dos que me rodeiam e que me encorajam, e nem vou conseguir interpretar as minhas reacções emocionais e fisológicas como positivas, como entusiasmo, como desafio a ser superado.

Mesmo os mais experientes tremem quando o desafio sobe de nível, mas tremem porque estão em bicos de pés, de coração cheio, de olhos em tudo o que vão poder aprender numa nova etapa.

A próxima vez que alguém te propuser um desafio que gostasses de experimentar, estuda de que forma aquilo que já tens te vai permitir alcançar aquilo que nem os teus sonhos foram capazes de prever, estica-te, pede ajuda, e se preciso for, sobe para cima de um banco. Mas não te encolhas.

Dúvidas ou sugestões rui@falarcriativo.com

Certezas e o caminho

“Vais sentir muito menos pressão e menos inseguro, se perceberes que toda a gente está simplesmente a improvisar. Aquelas pessoas que querem fazer parecer que não estão a improvisar, e que  finjem fazer tudo parte de um plano brilhante, estão loucas, cheias de sorte, ou então a mentir.”

Ryan Holiday

Ouvi esta frase do Ryan Holiday numa entrevista que ele deu, onde falava do seu percurso, das escolhas que foi fazendo, e a forma como as coisas foram acontecendo para ele chegar onde está agora. Quando o Ryan fala, eu ouço. É uma pessoa que respeito bastante, de tal forma que leio todos os dias algo que ele escreveu.

Há a tendência de nos fazerem crer que se tivermos um plano bem definido, se agirmos com extrema confiança, que tudo correrá como planeado, e o mais grave na minha opinião, é que se as coisas não correram como planeado é porque não fizemos o que devíamos, que a falha foi nossa, que nunca vamos conseguir, ou que é o nosso destino a nossa sorte ou falta dela.

Essa ilusão que controlamos o resultado final das coisas faz-nos mais mal que bem, é uma necessidade de não nos sentirmos à mercê das circunstâncias, que somos agentes sobre o que acontece, mais especificamente o que nos acontece.

Se pensarmos bem nas coisas que nos fizeram chegar até aqui onde estamos, se questionarmos mesmo bem, iremos perceber que o acaso esteve sempre lá. Sempre. Lá.

Os teus maiores amigos de infância, como é que os conheceste?

Foi porque foste para determinada escola, talvez, mas nessa escola havia muitos alunos, porque é que são esses os teus amigos e não outros?

Gostei deles, dizes tu.

Porquê? Porque razão apareceram na tua turma, ou naquele jogo de basket no intervalo e pediram para jogar?

Como é que o teu pai conheceu a tua mãe?

Porque uma amiga os apresentou. Porque é que essa amiga os apresentou, e a juntar isso porque é que gostaram um do outro?

Percebes agora onde quero chegar.

Agarramo-nos às histórias daquelas pessoas que tinham um sonho de pequeninas de serem isto ou aquilo, e após uma grande determinação chegaram a realizar o seu sonho. Fantástico, mesmo, eu também adoro essas histórias, dá-nos vontade, motivação para perseguir os nossos sonhos.

Aqui a única questão que coloca isto em causa, é:

Será que as pessoas que tinham um sonho e não o conseguiram atingir, e fizeram aquilo que estava ao seu alcance, contam a sua história?

Tem menos glamour, falar de fiz tudo o que podia e não foi suficiente não torna ninguém mais feliz, obriga-nos a confrontar com a realidade dos factos de que nem tudo está nas nossas mãos, que não controlamos o desfecho final de tudo.

“Ah e tal, deixa-me lá ir ali cortar os pulsos e acabar com tudo porque a vida é demasiado imprevisível!”, estão alguns de vocês a pensar neste momento.

Não, nada disso.

Como tudo na vida, a relevância e o impacto que as coisa têm na nossa vida, estão intimamente ligados à maneira como escolhemos encarar as coisas.

Se não controlo tudo, sei que não sou uma pessoa com defeito se as coisas não calham exactamente como planeei, há factores externos que estão lá, sempre estiveram, e sempre estarão. Posso dormir descansado sabendo que fiz o que estava ao meu alcance e que “o resto repousa na mãos dos deuses”.

Há um lado aleatório no facto de estar vivo, todos conhecemos histórias de pessoas que estavam a viver a sua vida, e de repente sem ninguém prever lhe acontecem coisas catastróficas, ou coisas fantásticas, coisas que ninguém poderia dizer seguramente, “eu sempre soube que isto ia acontecer”. Até podemos, e devemos dizer, se estamos vivos estamos disponíveis para que tudo aconteça, é garantido que tudo pode acontecer.

Mas afinal que posso eu fazer?

Como perceber o que devo ou não fazer?

Primeira coisa, é a tal consciência do que nos alimenta e o que nos suga energia, reflectir com frequência as interações do dia a dia e perceber do que me devo aproximar e o que me devo afastar. Para isso devo estar centrado em mim, mas em mim em relação com os outros, com os ambientes, não centrado no que acho que os outros acham.

Se estivermos sintonizados connosco desta forma, vamos começar a ver direcções que nos motivam que nos fazem querer aproximar desta área, ou daquela, desta ou daquela pessoa.

Por exemplo, se gostas de arte, passa mais tempo ao pé de artistas, faz-lhes perguntas, tenta perceber o que é mesmo ser artista, que tipos de arte te fazem sentir melhor, quais são as dificuldades que eles enfrentam, se estás disposto a passar por isso, mas uma coisa importante que poderás fazer, é perguntar se os podes ajudar de alguma forma. Dessa forma estás a agir sobre o mundo, estás a questionar se tens lugar naquela comunidade, dessa forma crias ligações, sentes na pele o que eles sentem, mas também começas a experienciar as alegrias que daí podem vir, também são tuas.

Aprendes com aquilo que eles já sabem, saltas etapas no teu perscurso para poderes fazer arte todos os dias, para te emocionares com o acto de criar, apaixonas-te pelo processo, deixas de te focar tanto nos resultados, e deixas que a sorte, o imprevisto tenha o seu espaço para existir, não crias resistência ao fluxo natural dos acontecimentos, fazes parte dele, ages fluindo, tem mais força, tens toda a sorte do mundo do teu lado.

As coisas vão todas correr bem?

Não, mas tu sabes, estás preparado para isso, sabes que o imprevisto é como aqueles amigos de longa data, que discutem connosco, que nos dizem em determinados momentos aquilo que não queremos ouvir, mas são esses amigos que amamos acima de tudo, não são aqueles que só nos elogiam, que nos mentem. Nós sabemos que não somos perfeitos, sabemos que há um lado menos bonito de nós, que só temos a coragem de mostrar àqueles que sabemos aceitar as nossas imperfeições, que nos amam apesar delas.

Para esses amigos tu és aquela pessoa que dás o teu melhor quando precisam de ajuda, mas sabes que no fim do dia a vida é deles, são eles que a vivem, são eles que escolhem o seu caminho. As tuas paixões, o teu caminho para uma vida plena em que o teu trabalho, aquilo que fazes te preenche são também assim, dá-lhe tudo o que puderes, cresce ao longo dos bons e maus momentos, não desesperes nos maus, e não craves as unhas nos bons, todos passam.

Se ao longo do caminho te aperceberes que afinal em vez de artista preferes ser contabilista, não te recrimines, pensa no bem que fizeste, nas pessoas que conheceste, no que aprendeste, no amor e entrega que colocaste nas coisas, dá um abraço ao destino, e continua a viagem na direção que escolheste.

“Se tentares controlar excessivamente o processo, limitas o processo.”  – Brad Bird

No processo criativo, todas as pessoas que já o viveram te podem garantir a componente aleatória, e o espaço que o processo precisa para criar as ligações improváveis que consideramos criativas.

Como diz a frase do Brad Bird, realizador de filmes como Ratatouille ou The Incredibles, é o controlo excessivo que limita, há algum controlo, como por exemplo a direcção que estamos a apontar, se aparecemos para escrever, se estamos a desenvolver as nossas capacidades, se estamos a conhecer pessoas que podemos ajudar e ser ajudados, se estamos a estudar o assunto sobre o qual queremos criar coisas novas, e todas essas coisas que dependem da nossa presença e intenção.

O processo precisa de nós, não se faz sozinho, o resultado já depende de muita coisa.

Mas uma coisa te posso garantir, vais-te sentir muito melhor por saber que fizeste tudo o que estava ao teu alcance e falhaste, do que teres um resultado bom, sabendo que fizeste apenas aquilo que os outros esperavam de ti.

Se tu gostares e estiveres satisfeito com o teu trabalho, uma pessoa feliz está garantida, se fizeres o que achas ser o que os outros querem, pode não haver nenhuma.

Dúvidas, inquietações, sugestões, rui@falarcriativo.com

 

 

Brinca, brinca…

“All play is associated with intense thought activity and rapid intellectual growth. The highest form of research is essentially play. ” Neville V. Scarfe

Na semana passada chamaram-me “puto”, e o que associo a essa palavra é brincadeira, o “puto reguila”, um nome carinhoso que serve para nos levar de volta ao tempo em que nos era permitido brincar.

Já fiz, juntamente com a Anita Silva no Falar mais Criativo, um episódio sobre o “play” o jogar, brincar, mas desta vez vou falar de uma maneira mais pessoal, do meu ponto de vista.

Falar mais Criativo – episódio 14, Play (jogar/brincar)

A capacidade de brincar, de fazer de conta é essencial para que possamos crescer, evoluir, e esta coisa de “levar a vida a sério” impede-nos de atingirmos o nosso melhor.

Porquê?

Porque, como se costuma dizer, a maneira de pensar que nos levou a chegar ao problema que enfrentamos, não nos vai levar a outro lado, logo a capacidade de pensar de outra forma, de imaginar como outra pessoa enfrentaria esse mesmo problema, é essencial, e nada melhor para treinar essa capacidade do que brincar.

O brincar, ao contrário do que muita gente se convenceu, quando lhe disseram que tinham de crescer, que tinham de parar com a brincadeira agora que já eram crescidos, não é o caos, não é um espaço sem regras onde tudo é permitido. O jogo, a brincadeira para ser motivante e para nos prender tem de ter regras, tem de nos desafiar a superar obstáculos, a criar novas maneiras de fazer aquilo que as regras ditam, mas de uma maneira nova, inovadora que nos permite atingir o nosso objectivo de ganhar, e entenda-se aqui o ganhar como a superação, que pode ser simplesmente a auto superação.

Há um ponto na vida de todas as pessoas em que começamos a julgar-nos e aos outros quando brincamos, “vê lá se cresces” costumam dizer. Se neste caso, crescer, significasse mesmo aquilo que deveria, então seríamos melhores brincalhões, não menos brincalhões.

Adoramos rir com as manifestações de brincadeira que os humoristas nos presenteiam, adoramos voltar a rir da palavra “pum”, “cócó”, e todas essas referências escatológicas, adoramos entrar nesse mundo proibido, nesse mundo onde não temos de ser nada e podemos ser tudo.

Esta semana os Gato Fedorento, Ricardo Araújo Pereira, Zé Diogo Quintela, Miguel Góis, e o único que ainda não entrevistei, o Tiago Dores, foram à Prova Oral do Fernando Alvim e é fantástico ver que muito daquilo que os fez ter o sucesso e o impacto que tiveram em Portugal, tem a ver com a imaturidade que conseguiram manter nas relações que mantêm entre si. Desde as bocas, os calduços, as alcunhas, tudo demonstra que entre eles é permitido brincar, podem gozar à vontade sem que ninguém sinta que lhe estão a faltar ao respeito, entre eles, as regras estão claras, e existem, tal como já referi.

Nestes ambientes podemos ser mais patetas, desligar de alguma forma aquelas partes do cérebro que estão sempre a julgar a situação, e acima de tudo a manter-nos conscientes de nós próprios, e este foco demasiado grande em mim, e naquilo que que penso que projecto para os outros, não me permite ver algo de novo, algo de criativo, fico preso nos meus padrões, nas maneiras de pensar que não vão para além daquilo que já existe.

Faço parte de um grupo de Teatro de Pais, no colégio da minha filha mais velha, e todos os anos, uma pessoa do grupo escreve uma peça original, controem-se cenários e adereços, e fazemos apresentações para os alunos do colégio, e uma apresentação aberta à comunidade, qualquer pessoa pode assistir. Faz hoje uma semana, fizemos três apresentações, no mesmo dia, segundo ciclo, pré-escolar, e primeiro ciclo.

Nesse grupo é fantástico ver que estes “crescidos” estes pais responsáveis que os miúdos conhecem, se permitem ser tontos, patetas, gozões, rir, fazer rir, e como acontece a maior parte das vezes, chorar ao vermos a alegria que proporcionamos àquelas crianças. Ali é permitido, as regras são claras, é para fazer bem feito, mas é obrigatório divertirmo-nos, e este ano foi o que tornou a peça especial, tivemos menos tempo para ensaiar, o texto não estava tão bem sabido, mas a brincadeira fez-nos ser criativos no momento em que alguém falhava e se esquecia da fala, houve até uma cena em que duas pessoas se esqueceram de entrar, e ninguém deu por isso, houve atrasos na entrada de personagens que foram superados por invenção de texto no momento.

A vida também nos surpreende, há personagens que saem, há adereços que não temos, mas temos de continuar a peça, “the show must go on”, e se encararmos a vida com um olhar de brincadeira, de fazer de conta, nada nos mete medo, podemos e devemos ser tudo aquilo que quisermos.

É fantástico ver os miúdos espantados, e alegremente surpreendidos por ver adultos a fazer aquelas figuras, é maravilhoso ver nos olhos deles que é possível brincar quando forem mais velhos, e é até engraçado ver os filhos dos actores e actrizes por vezes confrontarem-se com um lado dos pais que talvez nem conhecessem. Permitam-se, os miúdos agradecem.

Se os teus amigos não querem brincar contigo, cria as tuas próprias brincadeiras, busca novos companheiros de brincadeira, mostra o divertido que é brincar, mostra acima de tudo que o brincar é uma forma de investigação, e essa forma de investigação é o que te faz encontrar as coisas que procuras, que mais até do que isso, é não encontrar o que procuras, e fazer ainda melhor com o que encontras.

Aquilo que chamamos de realidade é em si mesmo uma construção, não é real, por essa razão quantos mais versados formos nos mundos imaginários, o tal faz de conta, mais facilmente conseguiremos moldar os acontecimentos para encaixarem numa construção da dita realidade que é mais agradável, divertida, tolerante e com potencial de crescimento e expansão.

“A originalidade só acontece nos limites da realidade.”

Darren Aronofsky

A originalidade é feita de experiência, de desafio, e não há melhor espaço para isso que o jogo e a brincadeira.

Brinca e deixa brincar deveria ser o lema do nosso sistema educativo.

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