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Não ser o Maior, não faz de mim mais Pequeno

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”

Madre Teresa de Calcutá

Uma série de acontecimentos foram catalizadores para chegar à conclusão  que serve de título a este post.

O primeiro foi mais uma provocação da minha amiga e anterior convidada Sónia Fernandes, para de uma vez por todas fazer aquilo que digo que quero fazer, ou então parar de dizer que quero fazer #shecalledonmybullshit, ou em portugês, chega de tretas.

Outro foi ouvir o Atul Gawande falar sobre a qualidade de vida de pessoas que estão perto da morte, e a pergunta que é importante saber responder é: O faz que de um dia, um bom dia?  Pode ser muita coisa, mas por vezes é bem mais básico do que eu pensava antes de me fazer essa pergunta. Qual seria o mínimo para um dia ser bom, pois com doentes terminais, há pequenos prazeres que se tornam uma fonte de felicidade e significado.

A juntar a isto um ouvinte do podcast fez-me uma sugestão de tema, que encaixa naquilo que me traz aqui hoje, não é bem directo, mas espero que responda. As questões foram:

– Fazes o teu melhor, és elogiado e sentes que não é suficiente. Que queres mais, para te satisfazer, para atingires mais patarames nas marcas que trabalhas.

– Estares neste registo e com a sensação que estar a dar mais do que os teus pares, teus colegas de equipa e de que este empenho não te leva a nada.

Para terminar a receita, adicionar uma entrevista que ouvi da Sheryl Sandberg, directora de operações do Facebook sobre a resiliência que teve de encontrar, de desenvolver para lidar com a perda repentina do marido.

Já deves estar a pensar – receita bonita, mas tenho fome e ainda não me deste nada para mastigar.

Certo, agora vou atacar o assunto.

As provocações certissímas da Sónia, confrontaram-me com uma série de mentiras que me tenho contado, e que acabo por passar para fora, de como quero ser um grande comunicador, organizar um evento do Falar Criativo ao vivo, ser uma referência em termos de podcasts em Portugal, como diziam os Ena Pá 2000 “andar nos copos com os artistas(….)quero subir à primeira divisão, da vida social”, ser o Maior, ser tão grande como aqueles que entrevisto, maior ainda, ser tão famoso que as pessoas pedem para tirar selfies comigo. O problema é que, na verdade isso tudo não sou eu, não que não me possa tornar, mas a que custo, e será isso mesmo que quero?

O fazer o Falar Criativo ao vivo é algo que gostava, mas apenas para conhecer as pessoas que me ouvem, saber quem são, e sentir que aquilo que faço liga outras pessoas, que dessas partilhas, algo poderia surgir que melhorasse a vida de outros, tudo o resto na verdade não é algo que busque.

A minha resposta ao ” O faz que de um dia, um bom dia?”, é bastante simples, passear na natureza, praia no inverno, e campo na primavera, ou fim do dia no verão, ler, e passar tempo com aqueles que me são próximos, logo, porque razão acho que preciso de tudo o resto que enunciei como objectivos?

Por achar que se tiver tudo o resto vou ter tempo para fazer aquilo que me deixa realmente feliz, e no processo para atingir esses objectivos tornar os meus dias uma luta constante para ser algo que não sou, acabar os dias cansado e não me ver mais próximo do sucesso que hipoteticamente trará tudo o resto.

Para ajudar à festa, ao ver outros a atingir os tais objectivos que digo querer, mas que no fundo não quero, fico amargo, invejoso, pergunto como é que “aquela besta consegue e eu não”, “como é que ando nisto há mais de quatro anos e não passo da cepa torta”, e todo um sem fim de fel dirigido aos outros, mas que acima de tudo me mata a mim.

Já referi que objectivo é sermos todos a melhor versão de nós próprio, mas a questão crucial é saber que versão é essa, pois por vezes acabamos a embarcar num barco que vai para um sítio muito interessante, mas que a nós não nos interessa nada. Há pessoas que nasceram para andar na ribalta, ganham vida nas festas a que vão, adoram sair à noite, conhecer pessoas novas todos os dias, mas eu não sou assim, nem quero ser, doloroso é só ter chegado a essa conclusão agora. Sou de voltar ao meu casulo, de sair, conhecer pessoas, mas sobretudo aprofundar relações com aquelas pessoas que já conheço, ler, ler é o meu paraíso, o meu refúgio, talvez por temer não saber, de achar que nos livros encontrarei as respostas que preciso, que encontrarei a vida que quero ter.

Mas sem acção, nada, nadinha, acontece ou muda.

Vejo agora mais claramente que se os tais objectivos não são os meus, na hora de agir páro, encolho-me, e isso sim me torna mais pequeno, a tal falta de acção que me queixo, me culpo, está enraizada  na sabedoria que o meu corpo tem de reconhecer as acções necessárias para concretizar os projectos que não são para mim, que no fundo, no fundo não são aquilo que me vai fazer chegar ao fim dos meus dias tranquilo, gozando a praia, as leituras, e os momentos com aqueles que amo.

A sociedade quer-nos fazer sentir que só sonhando em grande, em gigante, é que seremos aceites, e por isso, felizes, que todos podemos ser os maiores, mas poder não significa querer.

A possibilidade que todos temos de ser “os maiores”, tornou-se numa obrigação, deixou de ser só uma possibilidade.

Não estou a dizer que nos devemos resignar, borrifarmo-nos no nosso crescimento, mas não devemos fazer nada por sentirmos a obrigação de TER de ser o que não queremos ser. Queres ser famoso, força nisso, queres ser rico, força nisso, mas tenta perceber porque razão queres, e poderás chegar à conclusão que talvez não seja preciso muito, que não tens de levar a vida cansado e amargo para então, um dia, quem sabe ser feliz.

Quando não achamos que estamos a ser reconhecidos pelo nosso trabalho, é porque o estamos a fazer à espera de aprovação, não simplesmente por gostar do que fazemos, e mesmo quando achamos que os outros não se esforçam tanto como nós, é porque não temos a certeza se nos deveríamos esforçar tanto. O Michael Jordan, o Salvador Dali, o Frank Loyd Wright, nunca fizeram mais ou menos por acharem que os outros esperavam isso deles, fizeram-no pelo amor que tinham ao que faziam, e pelo amor de se superarem, de evoluirem. Se a motivação fosse externa, cedo tinham parado, desistido, esse motor “emprestado” que é “o que os outros esperam de nós”, a qualquer momento nos pode ser retirado, não é nosso.

O Pierre Weil, educador e psicólogo francês, tinham um conceito muito interessante, o dos mutantes, pessoas que pensam globalmente e agem localmente, eu ao querer ser o maior para poder atingir os objectivos que não eram meus, tornei-me a antítese, pensava localmente – o meu umbigo, o usar o podcast como forma de me sustentar – e agia globalmente – difundindo os exemplos de outros para o mundo através desse megafone que se tornou a internet. Se penso localmente, torno-me limitado na precepção que tenho do mundo, e dificilmente acrescento valor à vida de alguém. Se ajo globalmente, olho para as pequenas acções que estão à minha frente e considero-as pouco dignas do meu tempo, do meu esforço. Não poderia estar mais errado. Agir será sempre mais eficaz sobre o que controlamos, aquilo que está mesmo ali à minha frente, não sobre a possível opinião que este ou aquele ouvinte possa ter sobre a minha performance.

Acima de tudo, encontrei paz ao aceitar que não tenho de ser o maior, mas que isso em nada me torna mais pequeno.

Dúvidas ou sugestões, para rui@falarcriativo.com

 

Sonhar e desistir

“Be a practical dreamer, backed by action.”

Bruce Lee

Sei que quero falar, reflectir sobre isto, não sei bem onde isto vai dar, mas sei que para chegar a algum lado, tenho de permanecer a caminho.

Lembrei-me disto por estar a ler um livro sobre “os cinco impedimentos para a iluminação”, sou fã de budismo, não me considero um budista, mas vejo-o como uma boa maneira de pensar, vejo-o como uma estrutura baseada em ensinamentos de alguém que reflectiu muito, e que tem tido pessoas a continuar esse caminho de investigação da condição humana. Lendo os textos base percebemos que os seres humanos não mudaram quase nada desde os tempos em que Sidarta Gautama viveu há 2500 anos.

A iluminação pode ser substituída por realização, por expressão da nossa criatividade, algo que revela aquilo que temos de melhor,.

Um dos cinco impedimentos é a letargia, e no livro referem algumas causas, a falta de motivação ou falta de propósito por não termos alegria naquilo que decidimos fazer. Se não estamos a ter resultados com os nossos esforços, temos tendência para a insatisfação e para o aborrecimento.

“Até aqui, nada de soluções, grande seca ó Rui!”

Não é o meu objectivo dar receitas nem soluções, mas sim reflectir e questionar o que tenho feito, e nesse processo talvez conseguir que também tu, que lês isto questiones as tuas maneiras de pensar.

Esta letargia normalmente não aparece logo quando começamos, nem quando a primeira ideia surge, pois a visão gera entusiasmo, o que é bom, é bom sonhar, imaginar o que pode ser, para onde apontar as nossas energias, ter um rumo, porém no meu caso costuma acontecer o tal aborrecimento quando essa energia de começar se dilui, e nada parece estar a avançar, já coloquei a coisa a andar, vou-me esforçando, o tempo vai avançando, e pouco ou nada parece ter produzido frutos, não sinto que esteja muito longe de onde comecei, mas no entanto estou cansado.

“Quando acendes um fósforo na escuridão parece iluminar muito. Quando o acendes em plena luz do dia, quase nem se nota.”

Foi isto que li, e pensei – é mesmo isto. Quando começamos aquele projecto, ou surge aquela primeira ideia faz-se luz onde havia escuridão, mas quantos mais ideias temos, mais vamos fazendo, mais luzes vamos acendendo, daí a nossa percepção de nada parecer avançar, os nossos olhos habituam-se à luz e já tudo parece iluminado, vemos mais claramente à nossa volta, no entanto ainda não saímos do mesmo sítio, ou até podemos ter saído, mas como vemos mais longe a realidade parece muito semelhante hoje e ontem. É frustrante acabar o dia cansado, sentir que fizemos muito e nada mudar, e aí não vemos outra saída se não desistir. Se estou cansado e nada muda, devo estar a empurrar uma parede, ou a caçar gambuzinos, e aquilo que nos dizemos é que é parvo tanto a primeira como a segunda opção.

“Então e agora?”

Boa pergunta, e à medida que vou escrevendo, começam a surgir algumas hipóteses, teorias, e a que parece mais plausível neste momento é algo que muitos convidados têm falado, e sobre o qual tenho lido, é arranjar algo que se assemelhe a um processo, mais pequeno que um grande sonho, algo que eu consigo fazer todos os dias, mas sobretudo ter uma atitude de curiosidade, de experimentação.

Li noutro sítio que as pessoas que dizem para si mesmas que vão deixar de comer isto ou aquilo para sempre, ou que vão ser o maior sucesso que o país já viu, normalmente são as primeiras a desistir. Aquelas pessoas que dizem que vão tentar não comer algo durante um mês e depois logo se vê, ou as pessoas que dizem  que vão escrever uma música todas as semanas durante seis meses e depois logo decidem se é ou não para continuar, são estas pessoas que se mantêm durante mais tempo na tarefa, porque o foco está  mais na tarefa do que no resultado.

A tarefa acontece de forma independente do resultado, se assim o quisermos, mas o resultado não pode acontecer sem haver a tarefa, e aquilo que controlamos é a tarefa, o resultado já depende de muitos outros factores. Usando os exemplos que dei, a pessoa que decide deixar de comer algo, pode aperceber-se que afinal o tal alimento que decidiu evitar não é a causa do seu mal estar, e a pessoa que escreve música não controla se as pessoas gostarão ou não da sua música, mas uma coisa é garantida, a pessoa que decidiu evitar o alimento já sabe mais do que sabia antes de começar a sua experiência, e uma pessoa que escreve uma música por semana durante seis meses tem vinte e quatro músicas, saberá muito mais do assunto, e com alguma probabilidade uma até é capaz de ser boa o suficiente para alguém reparar no que essa pessoa anda a fazer, e acabar por vir a ser o maior sucesso do país!

O que faço hoje influencia o que consigo fazer amanhã, aquilo que não fiz hoje influencia negativamente a minha percepção do que sou ou não capaz. Mesmo este texto, não será material para prémio Nobel, mas se o não fizesse, amanhã seria uma pessoa muito menos confiante de alcançar o que quero alcançar.

“The only way to do good work is to first do bad work.”

David Kadavy

Envia-me os teus processos, as tuas práticas diárias para rui@falarcriativo.com, gostava de saber o que sonhas e o que vais fazer para não desistir.

A voz dentro da minha cabeça

“The most important voice in your life is one that no one ever ears, it´s the voice inside your head.”

Jim Loehr

A voz que tenho dentro da minha cabeça.

A voz que tenho dentro da minha cabeça fala muita vez comigo, o dia todo, constantemente, nem sempre da melhor forma.

E tu? Que voz fala contigo? Mais concretamente, como é que fala contigo?

Num podcast que ouvi outro dia do Tim Ferriss, ele dizia que:

“Se queres ter sucesso de forma holística, se queres amar plenamente as pessoas de quem gostas, e fazê-las sentir isso, não o conseguirás fazer se simplesmente te tolerares.”

E isto pôs-me a pensar na forma como falo comigo, como falo com os outros, como amo e como me tolero.

É um clichê dizer que temos de gostar de nós – se eu não gostar de mim quem gostará – sempre achei conversa da treta, new age stuff, da malta do paz e amor, até ao dia que comecei realmente a ouvir essa voz que fala comigo, essa voz interna que interpreta tudo o que me acontece.

Tenho 41 anos, e acho que só me apercebi bem desse discurso interno há 2, 3 anos, por isso acredito que muita gente ande por aí sem se aperceber do tom.

Acho que só me apercebi porque medito há oito anos, e escrevo regularmente num diário há quatro, e é nesses momento de paragem, de abstracção que a voz se torna mais clara, e foi precisamente numa dessas sessões de escrita que consegui “ouvir” o tom agressivo com que me dirigia a mim. Neste momento já várias pessoas estão a chamar uma ambulância com uns senhores que nos vestem uma gabardina que abotoa atrás, a achar que me passei de vez.

São muitos  anos a ouvir a voz dos nossos pais, amigos, professores, e um sem fim de gente que vai criando um ruído interno que nos dirige, mas que não é claro, e acima de tudo é confuso, desorienta, no entanto são sobretudo ordens aquilo que nos dizemos, críticas, construídas na maior parte dos casos sobre histórias que contamos a nós próprios sobre algo que aconteceu, mas com um filtro turvo e sem cor definida.

“So both the nature and nurture to me are not empowering in terms of personal identity formation because I don’t really have control over either what I do have control over is narrative. So when we think about nature and nurture I feel safe to think about narrative because at the end of the day I find we become the stories that we tell ourselves we may not be aware of the stories we’re telling ourselves.”

Varun Soni

Será então essa história mesmo nossa? Se não há certezas se é o ambiente ou a nossa natureza que determina o que fazemos, a única coisa que temos a certeza e o poder de mudar, são as histórias que fazemos sobre a nossa realidade, sobre o que nos acontece.

Um instrumento desafinado, ou muitas músicas ao mesmo tempo, tornam-se só ruído, confusão, é então necessário afinar o instrumento, mas acima de tudo conseguir ouvir a nossa verdadeira melodia.

Eu ao aperceber-me da maneira como me dirijo a mim, comecei a questionar essa voz autoritária e crítica, se não poderia haver outra perspectiva, uma mais bondosa e tolerante, sim porque, acima de tudo essa minha voz é intolerante. Neste momento está a dizer – lá estás tu com a mania que aquilo que escreves interessa a alguém, e vê lá o que vão pensar de ti – ao que lhe respondi, que isso agora é irrelevante, é importante é repensar esta história que me tem guiado até aqui, e que ao escrever, se torna tudo mais claro.

Quanto mais tenho lido, e sobretudo partilhado sobre esta minha voz, mais casos, exemplos vou conhecendo de outras vozes internas, e o padrão mais comum é a voz não ser simpática e intolerante.

Com certeza já ouviste o conselho de falares contigo como se falasses com um amigo, e dessa forma percebes que falas contigo de forma muito mais agressiva ou derrotista do que se um amigo teu viesse desabafar sobre um problema ou uma insegurança.

Porque razão o fazemos?

A generalização é coisa perigosa, e sei que há pessoas que não se tratam mal, mas essas pessoas ou lhes saiu  a lotaria pela educação e percurso que tiveram, ou já fizeram esse trabalho de autoconhecimento.

Estou a frequentar uma pós-graduação em Psicologia do Desporto, e em várias aulas, diria quase todas, surge o assunto do autoconhecimento, performance sem isso fica muito abaixo do que poderia ser, por essa razão é fácil perceber que quem chega mais longe, é porque se conhece bem. Se eu me conheço bem percebo quais são as minhas forças e também aquelas partes, que chamaremos de fraquezas, mas que no fundo são apenas partes de mim que podem ser suportadas pelas minhas forças, ou pelas forças de outros com quem me relaciono.

Sou fraco em termos de organização, por isso procuro criar formas de envolver outras pessoas, criar prazos, rotinas ou constrangimentos que me forçam a focar. Neste caso uso  a minha força de ser responsável para compensar a falta de organização.

Todos ouvimos milhares de vezes que ninguém é perfeito, até o digo quando a coisa corre mal, mas achamos sempre que é só conversa e que aquele nosso ídolo é perfeito, que faz tudo bem, e mais dia menos dia chega-nos aquele choque tremendo de descobrir que conduz bêbado ou que tira macacos do nariz. Também do episódio do Tim Ferriss que já referi retive a noção de que é possível amarmo-nos sem sermos perfeitos, da mesma forma que amamos o nosso clube mesmo quando não ganha, o nosso país mesmo com corrupção, ou os nossos filhos mesmo quando fazem birras, mas tudo se torna mais complicado no que toca a amarmo-nos sendo imperfeitos, não fazendo tudo o que a tal voz exige de nós, ou que gostaríamos de fazer.

Noutro podcast o Seth Godin contou como um dia conseguiu ouvir claramente essa voz interna, mas também percebeu que poderia questioná-la, pô-la em causa, mas sobretudo não lhe dar ouvidos, e mudou esse discurso interno. O nosso poder é escolher, se prestamos atenção ao que nos faz crescer, ou ao que nos mantém pequenos. Por exemplo a minha filha mais nova, sem ninguém lhe ensinar, automotiva-se, desde os seus 3 anos, dizendo  – “Vai M tu consegues, força M, tu és capaz”. Parece-me uma estratégia muito mais eficaz do que a voz que nos diz –  “Mas quem és tu para achares que consegues?”.

Eu senti a necessidade de escrever isto para mim, para me ler com outros olhos, me ouvir a cantar outra música, e acredita que a vozinha esteve muitas vezes a criar cenários de como a minha imagem iria ficar comprometida, que muitos ouvintes do podcast deixariam de ouvir o Falar Criativo, que com estes textos vou parecer lamechas, sensível, mas lá está, escolhi escrever, partilhar, algo que sei que me faz crescer, porque me causa desconforto, mas acima de tudo me faz crer que sou capaz de muito mais.

Acredita, tens escolha, por isso escolhe a narrativa interna que te alimenta e faz crescer.

Qualquer dúvida, sugestão, crítica, envia para rui@falarcriativo.com

Começar

“Pick something and start.”

Jeff Haden

Há uns dias fui desafiado por uma anterior convidada, a Sónia Fernandes a fazer, a começar, partindo de um post do Seth Godin. As palavras dela foram:

“Imprime. E depois, faz alguma coisa, porra. FAZ! ‘Tou-te a ver!”

E eu fiquei… “Mas faço o quê?”

Tanta coisa que quero fazer, tantas ideias que tenho, que tive, projectos que disse que ia fazer (que continuam por fazer), disse-lhe que talvez seja é um mentiroso, e ela respondeu que se continuar neste caminho, é o que vou parecer.

Se tenho ideias e tenho vontade que elas ganhem vida, porque razão paro no momento de lhes dar andamento?

Nessa troca disse-lhe que a principal razão era o facto de estar sozinho, de não estar a implementar essas ideias, esses projectos com alguém, e isso embora não seja toda a verdade, é parte da verdade. Sei que não me automotivo facilmente, sei que por vezes preciso de que alguém para me dar um palmadinha nas costas, “vá Rui, tu consegues”, e por vezes preciso de alguém que me dê um valente chuto no rabo, e me faça acordar das ansiedades e paranóias em que me coloco por medos do que outros podem dizer e fazer, de que o trabalho não vai prestar, que vou estar a perder tempo…

Ok, se preciso de fazer com alguém, o primeiro passo é encontrar essa pessoa, dirias tu.

Não. Nada disso.

Vejo o mesmo nas relações amorosas – quando encontrar a pessoa certa é que vai ser – mas o processo deve ser começar por ser a pessoa certa.

No meu caso será mais fácil convencer a tal pessoa certa a trabalhar comigo se ela me vir a fazer, se ela acreditar que eu sou capaz de fazer, e não apenas um tagarela que fala, fala e nada faz, ou seja tenho de começar.

Mas não começo. Porquê?

Porque faço grandes filmes de como a ideia seria perfeita se fosse feita desta, ou daquela maneira, e que para isso é necessário isto, aquilo e outro, que é preciso dinheiro que não tenho, tempo que não tenho, conhecimentos que não tenho, parceiros que não tenho, e por aí adiante. É fácil não começar quando conseguimos arranjar tantos impedimentos para a ideia ser um grande sucesso.

No entanto, começar não implica isto tudo, poderá existir uma fase em que serão necessárias todas as coisas que enunciei e que não tenho no momento inicial, e que servem de desculpa, mas para começar não é preciso quase nada, apenas começar.

Quando começamos, começamos a ver coisas que não víamos quando estávamos parados, conhecemos outras pessoas que também estão a fazer, aprendemos com as nossas falhas, com as falhas de outros que também estão a fazer, e acima de tudo automotivamo-nos porque olhamos para nós como capazes, a nossa autoconfiança aumenta, e arriscamos mais. Se arriscamos mais, vamos falhar mais, mas quando acertamos, acertamos em algo bem maior.

Se não sabes qual a ideia por onde começar, começa por aquela que te assusta mais, ou por aquela que te cada vez que pensas o teu corpo vibra de emoção. As outras, aquelas que “eram capazes de ser giras”, esquece, pegas nelas se uma das outras falhar.

Existe uma teoria em psicologia que é a Teoria da Autoeficácia, e este conceito é na minha opinião fundamental para entender a motivação, a resiliência e o esforço necessários para atingir os nossos objectivos, que acredito sejam ambiciosos, caso contrário não estarias a ler este artigo até aqui, e já estarias a ver mais um video de gatinhos.

Se eu achar que sou capaz, eu vou ser capaz.

“Se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo.”

Henry Ford

Mas se eu não começo, como vou pensar que sou capaz? Pergunto-me eu.

A mim ajuda-me baixar a fasquia, retirar importância ao que faço, e que na verdade ninguém está assim tão preocupado com  aquilo que faço ou deixo de fazer, pois para mim tem-me condicionado as opiniões dos outros. Mesmo o Falar Criativo ter começado, foi um acto de suster a respiração e borrifar-me para as opiniões que fossem surgir, caso contrário ainda estaria a desejar ter um podcast, e hoje tenho dois a funcionar, com mais de 300 episódios entre os dois, um audiobook gravado, e um número grande de relações que só surgiram através desta aventura de conversar.

Fica aqui o compromisso, vou publicar mais, e mais dia menos dia vou-te anunciar um novo  projecto, no qual acredito, e será provavelmente aquele mais próximo daquilo que sou.

Qualquer dúvida, sugestão, crítica, envia para rui@falarcriativo.com

A Coragem de Estar Vivo

“Don’t ask what the world needs. Ask what makes you come alive, and go do it. Because what the world needs is people who have come alive.”

Howard Thurman

Esta questão do “what makes you come alive” é, visto daqui de onde me encontro, o caminho.

Desde pequeno tem sido esta a minha luta, a de fazer rir, de provocar, de emocionar, de acordar as pessoas, de retirá-las da dormência de estarmos vivos, estando mortos por dentro.

Não é adiando para a reforma aquilo que nos dá vida que é a solução, todos os dias devemos saber porque é que queremos estar vivos, o que nos faz levantar da cama desejosos de mais uma oportunidade para viver, experienciar esse algo que nos move.

Para algumas pessoas poderá ser dançar, criar os filhos, pintar, cantar, o que quer que seja, há algo que nos move, que faz com que o nosso corpo vibre de forma diferente, que é algo autónomo, não necessita dos outros para sermos plenos, não que não possa incluir o outro, mas a energia, a vibração é nossa.

Que coisas são essas que nos puxam, nos empurram, nos levantam e nos fazem voar bem alto?

A nossa missão é essa, descobrir o que nos dá vida, e vivê-la. A busca, a procura é em si mesma algo que nos faz viver, a morte acontece quando paramos, e não há nada pior do que correr de um lado para o outro sem um pingo de movimento por dentro.

Aquilo de que falo é conformismo, resignação, é aumentar o tempo entre nascer e morrer, mas não no sentido de prolongar a vida, mas roubando anos à vida para dar à morte.

Todos temos sonhos e as aspirações, de ser, de ter, de fazer, porque razão não nos permitimos viver essas experiências?

Porque razão esperamos permissão dos outros, do mundo, para que nos deixem viver a nossa vida? Medo.

Medo de amar tanto a vida que não queremos morrer, e isso temos a certeza que não escapamos. Por isso queremos convencer-nos que estar vivo não é assim tão bom. Sabotamos a vida com medo de gostar de estar vivo, de nos agarrarmos à vida de tal forma que não a queremos largar, é aquela atitude de “com a vida que tenho, morrer nem parece assim tão mau”.

Que enorme mentira! Daquilo que li, de histórias que ouvi, aqueles que viveram a vida pela vida, de forma inteira, quando chega a morte vão em paz, sem arrependimentos, sabem que não deixaram de ser felizes com medo de algo que ninguém escapa. Viveram tudo o que podiam, as alegrias e as tristezas, mas sempre sabendo que estavam vivos, que acordavam acreditando que pela frente vinham aventuras, crescimento, emoção, partilha, as experiências que para eles valiam a pena. São estas pessoas que vivem a sua vida, e não a dos outros, que todos temos o dever e a obrigação de ser, quem vive a sua vida não tem necessidade de viver a dos outros, mas mais importante, não sente a necessidade de estragar a vida dos outros.

Quando a vida vem de dentro, transborda, contagia, dá vida. Quando estamos mortos por dentro, sugamos vida, contaminamos, roubamos aos outros aquilo que deveria ser deles, mas não ganhamos vida, apenas prolongamos a morte.

A parte boa, é que nunca é tarde para acordar, para nos voltarmos a sentir vivos, todos os dias podemos acordar com a pergunta: Porque razão quero estar vivo?

Pode passar muito tempo sem termos respostas, mas o simples acto de perguntar já é um sinal que a vida está cá, dentro de nós a ganhar momento para sair, e por mais lamechas que soe, dar vida a tudo o que nos rodeia.

Começa hoje, amanhã pode ser tarde.