Convite ao caos

“Quando aspiras à grandiosidade, o caos garantidamente aparece.”

Gary Keller

Há dois dias fiquei a saber que tinha conseguido entrar no Curso de Psicologia, no ISCTE a Universiade que pretendia. 

Surpresa. Alegria. Ansiedade.

Como vou eu conjugar tudo? Mulher, duas filhas, pais, irmão, amigos, cães, podcasts, trabalho…

Desde o meio de setembro que estou a colaborar num projecto na With Company, dos anteriores convidados Rui Quinta e Tiago Nunes, algo que já queria fazer há algum tempo, gosto deles, da empresa, do que fazem e sobretudo da metodologia de design, centrada no utilizador.

Continuo a fazer as entrevistas do Falar Criativo uma vez por mês, faço os episódios curtos uma vez por semana, faço juntamente com a Rossana Appolloni o podcast Ousar Ser duas vezes por mês, faço o podcast Bitcoin Talks com o António Vilaça Pacheco , o podcast Talking Youth Work com a Anita Silva, sou o realizador dos videos e editor dos podcasts da Nádia Tavares, e ainda faço parte da Associação de Pais do Colégio das minhas filhas. 

E agora, onde entra uma licenciatura?

Onde entra o tempo para o estudo, para as aulas?

O que dizer que não?

Durante muito tempo me achei preguiçoso, por várias situações, por ter deixado fugir determinadas oportunidades, que consigo ver agora, foi por medo e não por preguiça. Talvez nunca tenha sido preguiçoso, talvez tenha sido esse receio do desconhecido, o receio de falhar que me fez não agir.

Olhava à minha volta e via outros a terem vidas cheias de sucessos, oportunidades que aproveitaram e que lhes deu frutos que na altura invejei.

Não tenho a disponibilidade financeira que muitas pessoas da minha idade têm, amigos, conhecidos, e sempre associei isso à minha dita preguiça, à minha dita falta de coragem. Sei também que dei sempre primazia aos amigos, à família, ao tempo escolhido por mim, poucas vezes foram aquelas em que o trabalho que me era exigido em determinados empregos que tive, foi prioridade.

Serei eu mau profissional? Será que não me comprometo?

Por vezes culpei-me, achei que estaria a falhar, mas sei que as vezes que não dei mais, foram aquelas vezes em que não fazia sentido, em que não era justificado fazer mais quatro ou cinco horas por dia só porque um cliente queria o trabalho com urgência, para depois virmos a saber quer tinha ficado semanas em cima da mesa dele sem sequer ter sido visto.

Valorizo o tempo, onde o gasto, também o desperdiço, não sou perfeito, mas fazer algo só porque sim, nunca me fez sentido.

Todas as oportunidades que não aproveitei, conduziram-me aqui, a este momento onde tenho as mãos cheias, onde faço mais, mas faço porque agora faz sentido. Se tivesse eu algum alto cargo numa empresa o mais provável era nunca ter criado o podcast, e todas as situações que descrevi surgiram de anteriores convidados, pessoas que conheci porque o Falar Criativo existe.

Este fim de semana vou organizar a melhor maneira de gerir tudo, não exclúo a hipótese de alguma coisa ter de ser suspensa, abandonada, todos os cenários estão em cima da mesa, mas sou eu que escolho aquilo que me faz estar neste caminho tortuoso, com altos e baixos, com ansiedade, com alegria, mas cada vez mais certo deste caminho.

Quando partilhei a notícia que tinha entrado em Psicologia, vários amigos, alguns de longa data, comentaram qualquer coisa como “é a tua cara” ou “faz todo o sentido”. Ora se estava na minha cara, se faz todo o sentido, porque razão é preciso chegar aos quarenta e dois anos para fazer aquilo que esteve sempre visível para os outros?

Sei que sou míope, mas passa mais por não ter tido a presença e a coragem de seguir aquilo que estava escarrapachado na minha maneira de olhar para o mundo. 

Ou não.

Eu precisei sim de aprender a ver o mundo antes de conseguir ver a minha cara, teria talvez sido um percurso mais pobre, onde tivesse menos para oferecer. Quero acreditar – sim, quero – que a experiência de vida que tenho agora me permitirá ajudar como um psicólogo que consegue ver vários ângulos, que consegue sentir os outros de uma forma mais real e menos académica.

Por exemplo, em 2012 tirei o curso de treinador de basquetebol, modalidade que gosto, que pratiquei enquanto jovem, foi isso que me permitiu ter acesso à pós graduação em Psicologia do Desporto que concluí há dois meses, e foi essa pós graduação o factor de desempate que me fez ter acesso à vaga para o curso de Psicologia que agora embarco.

Ao contrário do que esperamos, desejamos, pensamos, o caminho não é a direito, pode ser, mas poucas vezes o é, são as excepções que confirmam a regra como por exemplo o anterior convidado Filipe Andrade que aos onze anos decide que quer desenhar para a Marvel, e vinte anos depois conseguiu. No meu caso, a minha inclinação para o comportamento humano, para o potencial humano demorou mais até chegar a este momento em início uma nova etapa, mas desta vez mais focada e segura.

Na conversa com a anterior convidada Cristina Nobre Soares sobre a minha entrada para este curso disse-me:

“grande caminho que tens feito, desde que te conheci, deves estar orgulhoso de ti”

Hoje estou.

Dúvidas, sugestões para rui@falarcriativo.com