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episódio 83 – Tamara Alves

A convidada desta semana é a Tamara Alves, urban artist, ilustradora, tatuadora, alguém que encontrou algo que ama fazer.

O desenho é sem dúvida uma ferramenta muito importante para ela, de tal forma que foi para ela uma surpresa encontrar artistas que não desenhavam quando fez o curso na ESAD das Caldas da Rainha. Gosto bastante dos desenhos, de um lado cru, de instinto que os desenhos têm, de como já a ouvi dizer “pôr o coração cá para fora”.

A Tamara surgiu como sugestão da Lara Seixo Rodrigues, e assim que vi o seu trabalho, percebi que teria de falar com ela. (Aproveito para agradecer à Lara a cedência do espaço para a entrevista, disse-me logo que sim. Lara és a maior.)

Pessoa muito simpática, sem adereços de personalidade, isto é, não senti nenhum tipo barreira, de tentativa de ser outra coisa do que aquilo que ela é. Agora que escrevi isto, percebi a relação com a verdade do trabalho da Tamara, há coerência entre aquilo que faz e aquilo que é, daí ser tão bom.

Houve muita coisa da entrevista que retive, mas gostava apenas de salientar dois pontos, que simplesmente não me têm largado o pensamento desde o dia da entrevista.

O primeiro é o lado de lutar por aquilo que gosta de fazer, sabendo que desde que haja um tecto e comida na mesa, estamos bem, e isso é mais fácil do que aquilo que pensamos. A maior parte de nós, tem é uma bitola muito alta, e ficamos prisioneiros de um salário mais alto, porque ter o último telemóvel, ou comer carne e peixe todos os dias se torna indispensável.

Dentro ainda deste ponto, referir o lado de comunidade, de porto de abrigo, quando a Tamara se despediu e uma amiga lhe diz “quem faz para um, faz para dois”. Mais uma vez, estamos bem.

O outro ponto que me marcou, foi esse lado quase obsessivo, e de também estabelecer um esqueleto, uma estrutura de pensamento, usando o livro do Allen Ginsberg, o Uivo e outros poemas, lendo-o, relendo-o e até reescrevendo à mão.

Há livros que me marcaram, e penso que se os tivesse levado a esse extremo, a vida poderia ter-se tornado mais simples, uma vez que em caso de dúvida, a nossa visão do mundo é mais clara, com menos ruído e confusão.

Não quero dizer com isto, que nos tornemos escravos de uma coerência fundada em pura teimosia, mas sim ter uma estrutura que pode ser revestida das mais diversas formas, que se pode acrescentar, ou retirar, que se move com as ondas, mas que se move em uníssono, e não um monte de fragmentos que andam à deriva no oceano dos dias.