Skip to content

Esperança e improviso

“Nem um navio deve confiar numa única âncora, nem uma vida deve confiar numa única esperança.”

Epíteto

O tempo vai passando, nada acontece, porque razão continuamos?

O que é isso de esperança, de que forma se manifesta, como a mantemos?

Fez-me muita confusão ouvir um jovem de 22 anos referir que precisava de esperança, que não tinha.

Por essa razão decidi falar com ele, perceber porque razão referiu ser esperança aquilo que mais precisava.

Se não temos esperança, pouco iremos fazer com o tempo que temos, não consideramos que valha a pena.

Mas voltando ao jovem que se dizia sem esperança.

Quando fui falar com ele, percebi que ele tem aspirações, que quer fazer coisas, que tem planos, logo tem esperança, o problema é que ainda não acreditava que fosse capaz de levar os seus planos em frente. Estava preso numa ideia que precisava de mais recursos, em vez de se focar nos recursos que já tem, e que se usar esses como alavanca, outros surgirão.

A falta de esperança vem da crença que as coisas connosco não estão bem, e que não irão mudar.

Em 1967 Martin Selligman, psicólogo americano, começou a estudar a “impotência aprendida” em inglês “learned helplessness” como parte do seu estudo da depressão.

A impotência aprendida é quando tentamos várias vezes sair de uma situação e o resultado é sempre o mesmo, não temos a capacidade de mudar. Um exemplo que se costuma dar é o do pequeno elefante que é amarrado a um poste pela pata para não fugir, ele tenta, tenta, esforça-se para se libertar, mas o poste está bem fixo ao chão. Até que chega o ponto em que desiste, não vale a pena esforçar-se, continua preso. O elefante vai crescendo, fica mais forte, capaz de arrancar dez postes iguais ao que o prendem, no entanto, nem tenta, tem a capacidade de sair dali, mas na sua crença aquele poste é forte demais. O elefante aprendeu que não poderia fazer nada, que era impotente relativamente àquela situação.

Eu já passei por estes momentos, bom era que só fosse eu, que mais ninguém tivesse passado por isso, o mundo seria bem melhor, mas infelizmente muitos de nós, arrisco-me a dizer a maior, parte temos crenças em nós que há coisas que não podemos mudar, apesar de termos crescido e estarmos mais fortes, há postes aos quais continuamos amarrados.

Aquilo que eu me esqueci nos momentos em que desesperei, era algo que já falei aqui, a impermanência, esqueci-me que as coisas mudam, que o poste pode apodrecer, que eu posso ficar mais forte, que alguém me pode ajudar a desatar a corda, que algo pode derrubar o poste, um sem fim de coisas. Nas nossas cabeças achamos que aquilo que nos bloqueou no passado, que nos bloqueia no presente, sempre irá lá estar, e que nada do que possamos fazer irá alterar isso.

E se encararmos tudo como transitório, e se em vez de aprendermos a ser impotentes, simplesmente aprendemos?

Partilhei na página do Falar Criativo um vídeo sobre teatro de improviso, e os princípios e regras do teatro do improviso podem-nos ser muito úteis para usar nas nossas vidas.

Primeiro princípio, é dizer “Sim, e…”, isto é, quando estamos a falar com alguém validamos e acrescentamos, em vez de dizer “não” ou “mas”, que na maior parte dos casos, corta a conversa ou gera discussão.

Se acontece algo que não estou à espera, se uma coisa que planeei não acontece da forma que pensei, posso sempre dizer “sim, e…”, retirando-me de um sítio de impotência, para um sítio onde há algo que posso fazer.

Por exemplo, se planeei ir ao supermercado e o carro avariou, posso dizer, “Sim, e posso ir a pé”, ou, “Sim, e posso pedir ajuda ao meu vizinho”.

Neste pequeno exercício, valido o que aconteceu, aceito, o carro está avariado, tem de ser arranjado, não me ponho a reclamar com o carro, nem a desesperar, e arranjo maneira de ir às compras, seja porque posso ir a pé, seja porque o meu vizinho percebe de mecânica, ou me pode levar ao supermercado. Seja como for, tem solução, e não sou impotente perante a situação.

Se queremos estar preparados para viver uma vida que nos podemos orgulhar teremos de desenvolver estas capacidades, de ter esperança e de improvisar.

Numa entrevista que ouvi do David Weinberger, ele fala de inteligência artificial, dos receios que temos relativamente ao que poderá vir a causar nas nossas vidas, que fique fora de controlo que nos domine.

Segundo ele, é pouco provável, mas é verdade que os algoritmos que já existem tem feito coisas que não estavam inicialmente previstas, e, ou, programadas. Há coisas que a inteligência artificial tem feito que os cientistas não conseguem explicar, e isso assusta muita gente.

O homem define-se também pelas ferramentas que usa, o pasteleiro sem forno não consegue levar a cabo a sua função, o físico que não tem quadro branco e marcadores ou papel e caneta, não consegue desenvolver todos os cálculos que necessita, e nos últimos anos temos olhado para os computadores como ferramentas, acima de tudo previsíveis, eu clico no ícone do editor de texto e espero que este seja aberto, carrego nas teclas para escrever e espero que quando carrego na tecla “a”, surja no ecrã a dita letra.

Temos uma relação de dominância, de controlo, de previsibilidade, e é aí que a inteligência artificial nos assusta, deixa de ser o computador que responde às minhas instruções, e cujos resultados eu consigo explicar, e passa a ser algo que me pode surpreender, que não é previsível, temos medo daquilo que não controlamos, daquilo que não conseguimos perceber.

Na maior parte das religiões existe esse factor, esse medo do desconhecido, quando chegamos a um ponto onde não conseguimos explicar atribuímos isso a um ser supremo, a um Deus, e a única explicação é fé, é acreditar que algo que desconhecemos e que não conseguimos explicar tem uma razão de ser. E fé, não é mais do acreditar, é esperança.

Sinto que este texto parece aqueles filmes em que voltamos ao início, e também acho que a inteligência artificial nos vai trazer humildade, nos vai tornar mais adaptáveis, que a inteligência artificial se vai cada vez mais assemelhar à vida, onde não vamos conseguir explicar tudo, mas vamos acreditar que é pelo melhor.

As possibilidades que a inteligência artificial nos traz são gigantescas, mas vai exigir da nossa parte a capacidade que nos fez ser a espécie dominante do planeta, a capacidade de adaptação.

Não acredito nas visões apocalípticas de alguns filmes de ficção científica, onde só existem arranha céus, que é sempre noite, nem acredito num regresso a uma vida em que não temos electricidade, onde só conhecemos dez ou vinte pessoas.

Acredito sim que vamos passar por grandes mudanças, e que aqueles que tem a capacidade de retirar significado das coisas, de dizer sim e acrescentar ao todo, serão esses que iremos respeitar, serão esses que terão as vidas que aspiramos, aqueles que serão os deuses do futuro.

Começa hoje a dizer sim, a acrescentar, porque acreditas, porque tens esperança, caminha para o Olimpo, onde os deuses se assemelham bastante aos homens, têm falhas, há discussões, mas há poderes, que cada um tem o seu, e o teu também nos faz falta.

Comments are closed.