(In)tolerância e (Im)permanência

 “O vencedor é apenas um derrotado que tentou mais uma vez.”

George M. Moore, Jr

“A nossa capacidade para tentar, tentar, tentar, é indissociável da nossa capacidade para falhar, falhar, falhar.”

Ryan Holiday

Sabes qual é a capacidade mais importante para teres sucesso?

“Será a confiança?” perguntas tu.

Muitas pessoas dirão que sim, que sem confiança para enfrentares todos os obsctáculos que um caminho para algo maior tem, não vais longe.

Pois deixa-me dizer-te que é meia verdade, a confiança é sem dúvida importante, a confiança pode facilmente tornar-se em arrogância, convenceres-te que és invencível, e pelo caminho destruir tudo à tua volta.

A capacidade mais importante que a confiança, é a capacidade de te perdoares, a autocompaixão, a tolerância que tens contigo, com as tuas falhas, os teus erros.

Se eu for capaz de aceitar que falho, se aceitar que posso cometer erros, mais facilmente me atreverei a tentar, e tentar, até que eventualmente algo vai correr bem, só não acontecerá se em cada erro eu não aprender nada, e mesmo isso pode ser uma aprendizagem. Como diz a frase que referi no início o vencedor é alguém que foi um perdedor, mas que voltou a tentar, porém temos, eu pelo menos tinha bastante, a tendência para olhar só para o que correu bem, valorizar apenas os sucessos, esquecendo-me que esses sucessos, essas vitórias são sempre construídas sobre derrotas, mesmo que essas derrotas não sejam públicas, tenho a certeza que em treino, na preparação de qualquer coisa que valha a pena há erros de trajectória, que se forem aceites e corrigidos, fazem parecer o processo perfeito, e como seres que buscamos a perfeição, recusamo-nos a ver, a acreditar que o sujo, o mal feito, o feio, existem, que fazem parte.

Significa isto que devo ser um baldas, que pouco se importa se é bem ou mal feito?

Não. Devo sim ser tolerante comigo, com a minha aprendizagem, com o meu caminho, e nesse caminho ser tolerante com os outros, com os seus erros, aprender com os erros deles, ajudando naquilo que posso, sendo aquela voz que diz – vá lá, tenta outra vez, falhar faz parte. Todos precisamos de ouvir essa voz, quer seja vinda de dentro, quer seja vinda de fora, e mais facilmente conseguiremos ser essa voz para os outros, se também o formos para nós.

Como podes perceber, a minha capacidade para lidar com as minhas falhas, ou com as falhas dos outros está misturada com o conceito de impermanência que os budistas tanto referem, é a minha incapacidade para entender o papel deste conceito que faz com que não seja tão fácil aceitar que possa falhar, que os outros possam falhar, e que nem tudo corra como esperado.

Se eu interiorizar que nada é definitivo, que eu não estou na posse de toda a informação em  nenhum momento, pois nada é estático, serei capaz de relativizar tudo o que acontece, o bom e o mau. Serei muito mais tolerante, e também serei muito mais humilde nos momentos em que as coisas correm bem, terei maior presença para entender que nem tudo me pertence, nem as vitórias nem as derrotas.

Ao perceber que uma hora má não tem de significar um dia mau, posso colocar o contador a zero, aceitar o que aconteceu, limpar o palato, reunir forças e continuar sem ter a alma tingida por algo que não correu como esperava. É a energia negativa que carregamos de tarefa para tarefa que muitas vezes transforma uma semana má, num mês mau, num ano mau, numa vida má. A má energia tem tanta capacidade para gerar momento como a boa, cabe a nós decidir qual a energia que queremos alimentar, qual a que queremos que cresça. Por vezes custa parar um comboio de má energia que vem embalado por anos e anos de autocrítica, de nos tratar-mos mal, de sermos os nossos piores inimigos, mas chega um momento em que temos de decidir cortar com essa energia, deixar de fazer de um lugar de raiva, de reacção, de um lugar que nos consome mais energia do que aquela que nos dá.

Quando fazemos porque queremos oferecer o melhor de nós ao mundo, fazemos, sem porquês, sem esperar nada em troca, fazemos, mas para oferecer o melhor de nós temos de aceitar o pior de nós, limpar o palato, e voltar a tentar.