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Nada fazer para que tudo mude

“Quando tudo se está a mover e a mudar, a única maneira de contrariar o caos é a quietude.
Quando sentires as coisas como extraordinárias, esforça-te pelo ordinário.
Quando a superfície está ondulada, mergulha mais fundo para águas mais calmas.
Kristin Armstrong

Tenho a tendência a começar a dar voltas e voltas quando vou acumulando coisas para fazer, compromissos que vou assumindo, e tudo passa a ser demasiado pesado.

Sinto-me esmagado, sabendo ainda por cima que fui eu que coloquei todo esse peso sobre mim.

Porém em vez de parar e de seguida parar de aceitar mais compromissos, movo-me freneticamente causando mais problemas que soluções, agitando as pessoas à minha volta e ao mesmo tempo gerando pensamentos sobre toda a agitação e o mal estar que causo.

Esta agitação vem de gestão errada de prioridades e expectativas, deixo de ver, fico cercado de tralha que poderia ser útil se fosse usada de forma correcta, mas no momento em se tornam apenas coisas a despachar, deixam de ter o seu real valor.

Se paro, posso deixar cair tudo, tudo pode ir parar ao chão, até partir-se, mas também passo a conseguir ver tudo o que realmente carrego e dessa forma gerar ideias de como resolver cada uma das questões.

Agir, por agir, pode ser agir sobre algo que nunca deveria ser feito, logo má escolha de onde aplicar a minha energia, no entanto somos empurrados muitas vezes a agir sem pensar, que é preciso é fazer, quando em muitos dos casos, se nada fizermos, ficamos com uma real perspectiva daquilo que queremos, podemos e devemos fazer.

Não é algo fácil, apesar de ser bem simples, esta gestão de não agir, de não começar, de não fazer, e por outro lado fazer bem, fazer mais, fazer melhor.

A maneira mais rápida que tenho para que as coisas mudem é mudar a minha opinião que tenho sobre elas, nada fazer, não ter opiniões, não me sentir a obrigado a ser ou fazer aquilo que eu considero ser aquilo que esperam de mim, é um caminho de paz e tranquilidade.

De todos os lados somos bombardeados com as notícias de alguém que nunca descansou e que dessa forma alcançou o seu objectivo, no entanto não temos maneira de provar se haveria outro objectivo que teria e que poderia ter alcançado com muito menos sangue, suor e lágrimas.

No meu caso é fácil observar aqueles que parecem esforçar-se bastante e relacionar o meu avançar mais lentamente como culpa minha, que podia fazer mais, tanto como esses outros que parecem ir mais à frente, mas nesse raciocínio estou a fazer inferências sobre coisas que não tenho a menor ideia.

Será que aquilo que me parece um grande esforço por parte dos outros é sentido por eles dessa forma?

Será que também eles não conseguiriam fazer ainda mais e não fazem?

Será que eu não estou já na minha velocidade máxima?

Será que apenas depende de nós onde chegamos e a que velocidade?

Poderia continuar com muitas mais questões para as quais não há uma resposta definitiva.

Nas comparações jaz o nosso sofrimento, comparamos o que nos parece que os outros fazem e o que nós não fazemos, comparamos aquilo que os outros têm com aquilo que nós não temos, e poucas vezes comparamos aquilo que fazemos e que outros não fazem, ou aquilo que temos e os outros não têm.

Se aceito mais um trabalho, se decido fazer mais alguma coisa, é normalmente porque considero que deveria estar a fazer mais, sou eu que considero, ou sou eu que aceito as opiniões daqueles que acham que eu deveria estar a fazer mais.

Quantas vezes já escolhemos conscientemente não fazer nada e ver o que acontece? Sem culpas, sem remorsos, simplesmente observar as coisas a tomarem um rumo qualquer.

Há uma luta tremenda em mim sobre o papel de agir e o de nada fazer.

Quando consigo assumir que nada há para fazer, as coisas rolam suavemente, crio um espaço fantástico de abertura, onde aquilo que mais me apetece é começar a fazer.

Pelo contrário quando vivo de obrigação em obrigação, seja de parar ou de fazer, o espaço fecha, esmaga-me lá dentro, rouba-me o ar.

Porque é que me esmaga e rouba o ar?

Porque luto, porque esbracejo contra as coisas, porque a minha ansiedade consome todo o oxigénio disponível, porque me esqueço de parar, de não fazer nada, não permitindo que tudo mude.

Nada muda a não ser que nós mudemos, e a mudança pode ser não fazer nada.

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