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O poder revelador

“O poder não corrompe; revela.”

Robert Caro

Já tiveste poder nalguma situação da tua vida?

Gostaste? Sentiste-te importante?

Foste melhor ou pior do que outras ocasiões onde não tinhas poder?

É tentador querer mais poder, no meu caso já o tive em determinadas situações, e consigo ver que fui pior pessoa em algumas.

Revelou-me, tornou visível para mim partes que não estão alinhadas com o modo como quero ser e estar na vida.

Outras situações houve que tendo poder demonstrei tolerância, compaixão e compreensão.

Então, em que é que ficamos?

Se o poder revela, e umas vezes somos melhores e outras piores, revela o quê concretamente?

Revela as nossas crenças em relação a determinados assuntos.

Por exemplo, se uma pessoa achar que os vegetarianos estão errados, sentir-se atacada por eles na sua liberdade de comer carne, num momento em que tenha mais poder que um deles, vai aproveitar para demonstrar que os comedores de carne são superiores, impondo pontos de vista através de represálias para quem discorde.

Outra pessoa pode também achar que os cães são os melhores animais do mundo, criar uma organização que defende cães, rodear-se de pessoas que concordam consigo, ser o seu líder e demonstrar as qualidades benevolentes que uma boa pessoa deve ter.

O grande problema é que não deverão ser as situações a definir a maneira como me comporto no mundo, eu devo ter claro para mim quais são os valores pelos quais quero viver a minha vida.

Quando o Robert Caro refere que o poder revela, tem razão, pois todos sabemos  de  casos de pessoas que criticam os chefes quando se encontram num nível de decisão inferior, mas no dia em que passam a estar no lugar de poder passam a tratar os que estão no seu lugar anterior, da mesma forma ou de forma pior do que aquela que criticavam quando eram os alvos da arrogância e prepotência.

Lembrei-me disto por ter falado com uma pessoa que criticava as suas chefias pela maneira arrogante e absolutista como tratavam os seus funcionários, mas agora que tem a sua própria empresa fala dos seus funcionários como preguiçosos, pouco inteligentes, pouco interessados, e que o ordenado mínimo que ganham é muito.

Sei que esta pessoa não é só esta faceta, tem um lado bom de pai, cuidador, é altruísta noutros contextos, mas neste caso concreto, não consegue ver o lado do outro.

Porquê?

Porque quando criou a sua empresa criou-a num contexto de grande necessidade, estava desempregado e a pouco e pouco, com esforço e dedicação conseguiu chegar onde chegou, a ter uma empresa de sucesso onde é ele agora a tomar decisões.

Não defendo que a preguiça seja uma qualidade a valorizar, não defendo que as pessoas se agarrem a um emprego de forma pouco esforçada só para pagar as contas, não colocando criatividade e dedicação no que fazem, mas sei que não é impondo pontos de vista que eu possa ter sobre algum assunto que as questões mudam, que as pessoas mudam.

Costuma dizer-se que as pessoas replicam os comportamentos que aprenderam através dos exemplos de outros que desempenharam papéis semelhantes.

Nos anos sessenta Albert Bandura  decidiu investigar se as crianças ao verem um adulto agredir um boneco teriam os mesmos comportamentos, pois antes destes estudos, as pessoas estavam convencidas que ao vermos outros a ser agressivos teríamos menos propensão a agredir por nos identificarmos com a vítima e não com o agressor.

Veio a demonstrar-se que sim, que temos tendência a replicar comportamentos agressivos se virmos outros que temos como exemplo exibir essas atitudes.

Se os exemplos que tivemos ao longo da nossa vida das pessoas em lugar de poder foi o de abuso, uso pouco ético desse dito poder, no momento em que chegamos ao poder teremos tendência a replicar esses comportamentos.

Mas como tudo na vida é uma questão de escolha, temos sempre a hipótese de replicar os maus exemplos que fomos expostos,  ou criar novos modelos, mais tolerantes.

A pessoa mais poderosa é aquela que não tem nada a provar, é uma frase que ouvi em tempos, e é disso que se trata.

Se eu achar que para provar a minha competência tenho de castigar a incompetência dos outros, se achar que para provar a minha inteligência tenho de castigar a imbecilidade dos outros, então nunca nenhum poder será suficiente, pois o meu poder não é verdadeiramente meu, depende dos outros.

As situações que encaramos como graves, de consequências grandes, como a possível falência da nossa empresa, fazem com que entremos em modo de sobrevivência, focando-nos no que pode correr mal, como por exemplo as falhas dos outros, e não nos deixa ver as qualidades que essas mesmas pessoas possam ter.

Se eu perguntar às pessoas que trabalham comigo, aquelas que terão menos poder do que eu, sugestões, opiniões para tomar determinadas decisões, estou a distribuir poder, mas com esse poder vem responsabilidade (como dizia o tio do Homem Aranha), e aquilo que sinto na maior parte dos casos é que a falta de empenho vem precisamente da ausência de confiança de quem gere, de quem detém o poder.

Para ter colaboradores mais empenhados, mais criativos, mais esforçados, é preciso envolvê-los nas causas e nos resultados, mas a grande maioria das chefias crítica os resultados, mas não dá poder para mudar as causas.

Assim sendo, acho que devemos encarar o poder como oportunidade de fazer outros brilhar, e não vivê-lo com medo permanente de o perder, porque é esse medo de falhar, de ser visto como fraco que faz com que os ditos poderosos tenham de exibir comportamentos agressivos e poucos tolerantes, tal qual gorilas batendo no peito.

O verdadeiro poder está em mudar a vida de outros e a nossa para melhor, e isso consegue-se quando olhamos para a questão em modo de curiosidade, não em modo de sobrevivência.

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