Ondas Grandes

De volta de férias, olhei muito para o mar, pensei no medo que ele me provoca, na força das ondas, e pensei que muitas vezes a vida fora do mar se parece muito com este, ondas que batem, que nos derrubam, que nos assustam.

Mas por outro lado há quem aproveite a força das ondas para surfar, para se divertir, para se desafiar.

Será que são as ondas o problema? Ou somos nós que estamos no sítio errado?

Na zona de rebentação é onde está o impacto, e nós não nos queremos aventurar a ir mais longe, passando-a, nem queremos ficar fora de água e damos por nós a comer areia.

Não sei se me estou a conseguir explicar, mas irei tentar.

Eu estou neste momento a passar por uma fase de ondas grandes, muita coisa a acontecer, muitas ondas seguidas, saí da praia – o local onde estava a trabalhar – comecei a remar para onde quero ir, mas ainda estou a na zona de rebentação, estou a sofrer vários derrubes, recuos, e dou por mim quase de volta à costa nalgumas alturas. Há sequências de ondas muito seguidas que me assustam, que me levam a pensar se me deveria ter metido mar adentro, se não estaria melhor na segurança da praia.

Mas não, voltar para a praia está fora de questão, quero cavalgar as ondas, quero viver todas essas experiências que me fazem vibrar, quero olhar para a praia do lado do mar, ver toda a beleza que se contempla olhando de dentro para fora.

Quando começamos algo novo há a esperança que as águas sejam sempre calmas, que corra tudo como planeado, como sempre desejámos e não tínhamos, mas na realidade poucas serão as vezes em que os imprevistos não aconteçam, que não venha uma onda maior e nos tente derrubar.

Temos a tendência a tentar passar por cima das ondas que vêm na nossa direcção, achamos que tal qual um Titanic, que será o iceberg a desviar-se, ou a onda a rebaixar-se perante nós. Quem já esteve no mar com ondulações complicadas sabe que a melhor solução é mergulhar, esperar que aquela energia passe e depois voltar à tona de água, para de seguida – muito provavelmente – voltar a fazer o mesmo.

Neste momento sei que estou numa zona em que existe uma forte probabilidade de ser derrubado por uma onda, mas sei também que posso a qualquer momento encher o peito de ar e sair da frente das ondas submergindo. Sei que se nadar um pouco para o lado talvez encontre um canal que torna a passagem para fora da zona de rebentação algo mais fácil, mas também sei que se entrei dentro do mar foi para surfar, este desvio das linhas de ondas será sempre temporário, quero gozar as ondas, não quero daqui a uns meses, anos, olhar para trás e ver que não saí da praia, que nunca soube a emoção de descer uma onda a grande velocidade, porque sei que estou a fazer aquilo que quero fazer.

Os verdadeiros surfistas adoram mares difíceis, é sobre aqueles dias complicados que falam quando se juntam, e também eu ao longo da minha vida têm sido as situações que me pareciam ondas grandes aquelas que me fizeram crescer mais, mas acima de tudo as que melhores memórias me deixaram foram aquelas em que aceitei as ondas que vinham na minha direcção e decidi que as iria aproveitar para me desafiar, surfando melhor ou pior, mas tentando ser aquilo que acho ser o mais correcto.

Se caí? Caí muitas vezes, mas nunca me arrependi de uma queda que dei por tentar, dói-me mais encolher-me e não tentar, essa é sempre a escolha que temos de fazer. 

Não estou a dizer para ires a correr para dentro de água sem estudar o mar, a ondulção, os tais surfistas que referi, os bons, chegam à praia e observam a direcção das ondas, o melhor sítio para entrar, fazem um aquecimento, e só depois entram na água disponíveis para cair, para perder ondas, mas acima tudo disponíveis para as coisas boas, a adrenalina de descer a toda a velocidade ou fazer aquela manobra que desafia as suas capacidades.

Quem não está disponível para as coisas difíceis, nunca estará preparado para gozar as fáceis, as boas, aquelas que valem a pena.  O não saber se vai correr bem, o risco, o esforço de nos superarmos, é o preço a pagar pela paz de deitar a cabeça na almofada ao fim do dia sabendo que crescemos, que hoje valeu a pena, que hoje sou – nem que seja um  por cento – melhor.

E como referi num texto anterior, tudo passa, menos a lembrança de quem fui nesta ou naquela situação.

O mar acalma, e será nesses momentos que podemos recuperar o fôlego, reparar a prancha, reflectir sobre todas as grandes ondas que fomos capazes de surfar sabendo que a nossa capacidade de lidar com elas aumentou, o que nos permite aproveitar cada vez mais a energia que elas trazem.