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Pensar e duvidar

“Se pensamos demasiado, duvidamos demasiado.”

Ajahn Sumedho

Toda a minha vida andei a fugir da dúvida.

Dúvida para mim é medo.

Mas passo a vida pensar, a remoer, a imaginar todos os cenários em que pode correr mal.

Pensava demasiado, duvidava demasiado, talvez por isso tenha vivido com medo tantos anos.

Temos medo porque desconhecemos, se soubermos exactamente o que vai acontecer e que nada nos pode acontecer não há medo.

Não tenho medo de comer uma maçã, ou de escrever, caso nunca tenha tido uma má experiência com nenhuma das situações.

Tememos o que desconhecemos, e achamos que é pensando mais sobre o assunto que a dúvida desaparece. Não é.

O medo, pode ser uma força que nos faz agir, não sei e busco informação para saber, mas vamos chegar a um ponto que a única maneira de saber mais é fazendo.

Não defendo o conceito de saltar e acreditar numa rede que nos apanha, mas hoje acredito que posso planear o meu salto, posso montar uma rede, falar com outras pessoas que já saltaram e saber de que forma me posso melhor preparar, mas nunca saberei o que é a experiência de saltar se não o fizer.

Olhamos para todas as coisas que gostaríamos de fazer e pensamos como seria bom ser isto, ter aquilo, viver aquela experiência, mas não é pensando que sentimos tudo o que ser isto, ter aquilo ou viver é na sua totalidade. Sei que temos mentes poderosas que nos permitem aproximar bastante das situações, sentindo até coisas que são mero produto da nossa imaginação, mas mesmo estas experiências implicam treino, experimentar, fazer.

Ficar só a pensar, esperando que de alguma forma milagrosa os nossos objectivos se concretizem, é um caminho para a dúvida se instalar, pois temos pouca informação, não experimentámos, não percebemos se há partes que funcionam e partes que são para esquecer.

Acabei de ver esta semana o documentário Free Solo onde o Alex Honnold mostra o desafio de subir sem o auxílio de cordas uma montanha chamada El Capitan com mais de novecentos metros. Ele, um escalador com muitos anos de prática, fez vários treinos com cordas, testando os possíveis caminhos a fazer sem corda, tirando notas e apontamentos, falhando, e a cada falha, aprendendo o que deveria fazer e o que não deveria fazer. Não foi pensar, pensar, pensar, foi sim testar cada troço, apontar quais as saliências de rocha onde poderia colocar os pés e/ou agarrar com a ponta dos dedos, desta forma diminuindo as dúvidas e o medo de fazer tal proeza.

A alegria que ele mostra quando finalmente faz a subida toda sem cordas, é contagiante, é real, nada do que ele pudesse imaginar se aproximaria do que sentiu, e o mesmo acontece connosco quando sonhamos, sonhamos, pensamos, pensamos, e nada fazemos. Podemos sempre fazer como ele, usar umas cordas para conhecer melhor o local, os desafios, tirar notas, falhar, voltar a tentar, aprender.

A dúvida está sempre à espreita, esconde-se nos nossos pensamentos, e mostra-se em força quando nos sente encolher com medo.

Viver sem dúvida é impossível, e na minha opinião algo que tiraria o gosto pela vida, é neste equilíbrio frágil entre aquilo que sabemos e aquilo que não sabemos que está tudo o que podemos fazer, aquilo que nos dá energia ou nos tira, conforme o lado que nos inclinamos.

Mesmo aquelas pessoas que têm centenas e milhares de horas de determinada capacidade têm dúvidas, os Rolling Stones não têm a certeza de que todos os seus concertos vão correr como esperado, há uma probabilidade maior de correrem, pelos anos que têm de concertos e a base leal de fãs, mas as únicas coisas em que podem confiar é no seu treino, na sua preparação.

Quando temos mais treino numa determinada capacidade, as grandes vantagens são, termos um maior leque de possíveis correcções, ajustes, disponíveis na nossa bagagem de conhecimento, e termos maior confiança na nossa capacidade de improvisar algo caso alguma adversidade surja.

Dúvida pode ser grande motor, não sei e quero saber, mas não é ficando parado a pensar que a dúvida diminui, nesse caso até aumentará.

Dúvida pode ser começo, faísca, mas não pode ser o combustível, não arde, mas queima-nos.

Se chegares ao ponto que cada vez que pensas no assunto te tornas mais ansioso, está na altura de fazer, depois podes voltar a pensar, mas já vais ter mais informação, informação que nunca terás se nada fizeres.


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