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Que filho quero ser?

“Gostamos de dizer que não podemos escolher os nossos pais, que nos foram dados ao acaso – no entanto podemos verdadeiramente escolher o filho que gostaríamos de ser.”

Seneca

O exemplo escolhido por Seneca nesta frase é um que é comum, eu já usei este tipo de argumento quando na minha adolescência os meus pais não me deixaram fazer algo que eu desejava, que tinha tido azar nos pais que me tinham calhado, e todo esse tipo de parvoíces adolescentes.

Há casos de filhos que têm razão ao reclamarem da sorte, ou da falta dela, relativamente aos pais que lhe calharam, seja por maus tratos ou negligência, mas muitos dos casos, falamos da boca para fora, com pouca razão nos argumentos.

Todos gostaríamos de ter tido pais ricos, inteligentes, carinhosos, disponíveis, em boa forma física, lindos de morrer, e que tudo isso nos proporcionasse uma vida sem dramas, tranquila, estimulante, em resumo, perfeita.

Ou talvez não.

Dizem que são os Invernos rigorosos que fazem a boa madeira, e se a nossa vida fosse perfeita por termos pais perfeitos, porque razão haveríamos de querer crescer, ser algo de diferente?

São os desafios que nos levam a alcançar mais, são os desafios que nos fazem confrontar com as nossas fraquezas mas também com as nossas forças.

É neste balanço entre encararmos onde as nossas certezas terminam e as dúvidas começam que vamos buscar a energia para caminhar em direcção da exploração do nosso verdadeiro potencial.

Podemos trocar os pais por chefes, patrões, colegas de trabalho, vizinhos, amigos, ou outra situação qualquer onde podemos escolher a pessoa que queremos ser, apesar de não termos as condições ideais para começar.

Não nos é dada a escolha do rumo que a economia mundial vai tomar daqui a um ou dois anos, mas podemos escolher ser a pessoa que planeia a sua vida financeira, que busca oportunidades, que se desafia a encontrar meios de subsistir num clima económico desfavorável.

“A necessidade aguça o engenho” diz-se muita vez, como símbolo de criatividade e de resiliência, e podemos escolher ficar a reclamar do que a sorte nos deu, seja pais, filhos, amigos, namoradas ou colegas de trabalho, ou podemos escolher ser o filho que achamos ser o ideal, ser o pai ideal, ser o amigo honesto e fiel, ser o namorado atencioso e amável, ser o colega de trabalho que fica feliz pelo sucesso dos outros, que colabora, que trabalha em equipa.

Onde achas que a tua energia é melhor empregue, a reclamar de como os outros são, ou usar a energia para ser a pessoa que queres ser?

Ajuda bastante ter modelos, ter referências de comportamento que quando temos dúvidas nos servem de guia para agir de uma forma que temos orgulho e não de forma que nos arrependemos mais tarde.

Há duas semanas tive uma pequena discussão com a minha mulher, e a minha primeira reacção, junto com os meus primeiros pensamentos foi de reclamar da sua teimosia, de vê-la como errada, de achar que era má pessoa por ter aquelas atitudes, que eu é que estava certo, e de repente apercebi-me que estava longe de chegar a uma solução, que estávamos os dois demasiado focados em querer mudar o outro em vez de encontrar uma solução para a questão que causou a divergência. No momento imediatamente a seguir pensei:

“O que faria o Imperador Marco Aurélio?”

Tudo mudou.

Percebi que a questão era insignificante, que era sobretudo orgulho, e que o marido que quero ser não se deixa cegar por questões destas, e nesse momento larguei todos os argumentos acusatórios contra a minha mulher, mudei a atitude, encontrei uma solução que foi aceite, e tudo se resolveu.

Em todo e qualquer momento podemos mudar de quem não queremos ser, para quem queremos ser.

Quais são os teus modelos?

Se não tens é muito mais difícil saber como agir em determinadas situações.

No meu caso fico bloqueado em discussões quando acho que mudar de posição significa fraqueza, desistir, quando tenho o outro como alvo a abater, não há hipótese de recuar e ver as coisas de outro ângulo, fico fixo no problema sem hipótese de ver soluções. Os outros estão errados e eu tenho de os corrigir…

Mas a pessoa que quero ser, o tal filho que quero ser, é tolerante, seguro, aberto às opiniões que são diferentes das suas, é amável e compreensivo, e por muito que me possa custar admitir, apenas depende de mim.

Saber que apenas depende de nós sermos a melhor versão de nós próprios em cada situação dá-nos poder, mas também nos obriga a ser disciplinados e responsáveis, não podemos apontar o dedo a ninguém, não podemos culpar os nossos pais por não sermos o filho que queremos ser.

O filho que queremos ser é responsabilidade nossa, não dos nossos pais.

Eles poderão ter ideias, conceitos de qual o ideal de  filho para eles, da mesma forma que eu tenho para as minhas filhas, mas é aí que muitos problemas surgem, quando idealizamos como os outros deveriam ser, não é responsabilidade nossa moldar alguém, a não ser a nós próprios.

E tu, já sabes que filho queres ser?

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