Sei, mas não faço

“Se mais informação fosse a resposta, seríamos todos milionários com abdominais perfeitos.”Derek Sivers

Se sei o que tenho de fazer, porque não faço o que sei?

Acontece-me muita vez esta situação, saber o que tenho de fazer, o que devo fazer, mas depois não o faço. Felizmente não é sempre.

E tu? Passas logo para a acção?

Há pessoas que pensam pouco e passam logo para o fazer, e do que tenho percebido, avançam mais do que aquelas que pensam muito, que estão sempre a estudar, a investigar mais sobre aquele assunto sobre o qual pretendem agir, mas não agem.

Mais informação não é mesmo a resposta, sem acção a informação não se transforma em conhecimento, somente quando experimentamos utilizar o que estudámos vamos conseguir perceber como aquilo melhor se aplica, e como não se aplica, e aí passamos a ter conhecimento sobre aquela matéria porque sabemos na prática como utilizar a informação que recebemos.

Se não é para ser aplicada na prática, de que serve a informação?

Para responder a perguntas nos testes?

Para fazer brilharete nas festas?

Talvez venha daí a minha necessidade de tanta informação buscar, sempre fui bom a responder às perguntas nos testes, sempre tive boas notas, mas a vida não é a escola, a vida é mais complexa e necessita que os saberes, as diversas informações sejam relacionadas, que não vivam entre o livro de teoria e o livro de exercícios.

O modelo do mestre e do aprendiz era mais prático, aí havia menos informação, fazia-se porque o mestre dizia, não havia espaço para grandes explicações, iamos testando, falhando voltando a fazer, mas ficávamos a conhecer por exemplo como a força que aplicava com o serrote ia afectar a madeira que estava a cortar, e de pouco me serviria saber calcular num papel a força necessária para um corte perfeito, se o meu braço não souber ler o resultado dos cálculos, e mesmo que o meu cérebro comunique o valor, a aplicação vem de uma aprendizagem para a qual nada me serve ler todos os livros sobre o assunto se eu nunca pegar num serrote e começar a cortar.

Segundo o que a minha experiência me diz, existem três níveis de saber, a informação, o conhecimento e por fim a sabedoria, que costumam ser descritos também como o saber-saber, o saber-fazer e o saber-ser/estar.

O conhecimento é aquilo que referi sobre experimentar a usar a informação que adquiri, aplicando numa situação que pede aquele tipo de conhecimento, conheço ou reconheço a situação, e sei como torná-la em algo de vantajoso para mim, seja isso pintar um quadro, ou arranjar o meu esquentador. As primeiras pinturas não estarão tão em sintonia com aquilo que imaginei, aquilo que a informação que tenho me levou a acreditar ser capaz pelos exemplos que estudei, mas se continuar a tentar a comunicação entre a informação e o nível de conhecimento da minha mão, do meu corpo será mais eficaz e melhores resultados irão surgir, é o ponto em que começamos a achar que talvez até tenhamos algum jeito para aquilo. Resumindo, sei fazer.

O nível da sabedoria, é aquele nível onde a informação está perfeitamente integrada na minha experiência de fazer, já faz parte de mim, e aí poderei relacionar a experiência com outras situações, mais do que o que sei, a sabedoria é aquilo que sou.

Nesse nível posso aventurar-me a contra a informação que tive no início, questionar, fazer diferente, aquilo que já sei não me satisfaz, é aqui também que surgem as inovações, um ver de relações onde a um nível mais baixo seria impossível, a nossa relação com o mundo muda, não é tanto um ver mais, mas um ver melhor, mais claro.

A tal necessidade de informação, quando exagerada é como se agitássemos a superfície de um lago quando o nosso objectivo é ver o fundo, só quando os sedimentos assentam nos será possível vê-lo.

Aquilo que sabemos pouco vale se não usarmos, aquilo que fazemos diz mais sobre nós do milhões de palavras que saiam da nossa boca, mesmo este texto que aqui estou a escrever vale mais do que simplesmente pensar sobre o assunto, ou então ir à procura de mais um livro que me fale sobre o valor da informação.

É a situação ideal, escrever sobre o assunto?

Não, sei que não é, pegar naquilo que aprendi ao escrevê-lo, isso sim é que tem valor, partilhar contigo, isso tem valor, mas mais valor terá se te questionares quais as áreas em que buscas mais informação como estratégia de fuga à acção, e aqui também estou a falar para mim.

Pergunta às pessoas à tua volta se te consideram uma pessoa de acção, quais são as coisas que estás sempre a querer saber mas depois não viram conhecimento porque são só simplesmente mais um post que leste ou um livro na tua estante?

A maioria dos autores que escreve um livro não o escreve simplesmente a pensar que está a produzir informação, mais do que isso quer produzir emoção, conhecimento, sabedoria, e tanto a emoção, como o conhecimento e a sabedoria implicam acção, aquilo que fazemos.

Não digo que faças só por fazer, faz porque queres, mas quando souberes porque, e o que queres fazer, faz, por pouco que te possa parecer, por muito longe que esteja da tua visão, faz, só assim te arriscarás a tocar naquilo que sonhas.

Como sempre podes enviar-me um email para rui@falarcriativo.com