Ser e parecer

“Entra nas suas mentes, e encontrarás os juízes que tanto temes – e como criteriosamente se julgam a eles próprios.”

Marcus Aurelius

As questões relacionadas com as redes sociais são algo que me colocou a pensar, temos de estar presentes?

Temos de ser visíveis?

Somos menos se não soubermos o último escândalo ou resultado futebolístico?

Teremos de ser todos muito objectivos no que colocamos nestas plataformas?

Vejo pessoas a terem grandes oportunidades, ou pelo menos a mostrarem-nas como tal, pelo facto de terem uma exposição grande das suas vidas no facebook, instagram, e outras redes sociais, mas será que tudo aquilo que nos parece, é? Será que se não parecer não posso ser?

Esta é para mim a grande questão, se temos de parecer, e se não parecermos não somos.

Tenho receio que o futuro só traga oportunidades a quem quer expôr-se. Percebo que se não fôr visível será mais difícil algo crescer, mas por outro lado vou sabendo de casos de empresas e pessoas que não retiram benefícios de uma presença massiva em tudo o que é rede social, os seus negócios crescem com a influência de um bom produto, a qualidade do produto ou serviço fala mais alto que os posts que essas empresas possam fazer.

Há casos em que o investimento na comunicação é tão grande que rapidamente se percebe que o tempo gasto no desenvolvimento de estratégias deveria ter sido investido no produto, naquilo que tão bem vendem, mas na prática aquilo que as pessoas se convenceram que iam comprar não corresponde ao que levaram para casa.

Sei que posso ter um produto fantástico mas se não o mostrar, será muito complicado chegar ao seu público alvo, e se isso não acontecer, a sustentabilidade fica comprometida e esse produto por muito bom que seja não tem futuro.

Mas o nosso tempo deve ser gasto mais a fazer, ou mais a vender?

Encontro-me neste dilema, encontro outras pessoas neste dilema, neste equilíbrio precário de andar aos puxões de um lado para o outro, acharmos que temos de comunicar, de ser apelativos, de fazer “biquinho” no instagram, ou partilhar o que andamos a comer, o que andamos a fazer, com quem passamos os nossos dias. Sinto que por vezes a maior parte das pessoas vive numa mentira por achar que deve ser assim ou assado, que se não me mostrar como feliz, é porque não sou, se não me mostrar como competente é porque não sou, se não me mostrar produtivo é porque não sou, se não me mostrar criativo é porque não sou.

Pareço, ou sou?

Se não parecer, não sou?

Assusta-me imaginar um mundo onde nos tornamos aquilo que parecemos, que investimos tanto na fachada que o interior se torna ôco.

A fragilidade de marcas e pessoas por vezes vem daí, de toda a energia ser gasta na aparência, de todo tempo ser gasto a construir uma persona que não existe, que apenas é real por instantes, até a casca frágil se encontrar com uma adversidade, um crítica negativa do produto, da pessoa, e tudo se quebra.

Será mesmo necessária tanta exposição?

Li um artigo de um dos meus mentores ( ainda é só através daquilo que escreve ) o Ryan Holiday, ele falava que as pessoas mais bem sucedidas são aquelas que nunca ouvimos falar, e nesse artigo ele descreve os malefícios de demasiada exposição, e as razões pelas quais essas pessoas se defendem, não se mostrando.

“A maior parte das pessoas com uma persona pública te dirá que os pontos negativos ultrapassam os pontos positivos. Passam a ter um alvo nas costas para os críticos. Têm menos liberdade criativa.”

Ryan Holiday

Todas as suas decisões que passam a ser públicas são possíveis alvos de opinião, tudo passa a ser medido pelo que o público acha que eles deveriam fazer, todas as pessoas passam a ter um ponto de vista de como aquela pessoa se deveria comportar, que próximo passo deveria dar para encaixar na imagem que criaram dessa figura pública. Não me parece algo a desejar.

E que necessidade é essa de mostrar aos outros o que faço?

Se não mostrar não aconteceu?

Preciso que aprovem a minha felicidade?

Condiciono as minhas escolhas artísticas e criativas pelo número de “gostos” e partilhas?

Falando de mim, e talvez seja essa a verdadeira razão para estar a escrever isto, tenho dificuldade em perceber se o podcast não tem mais seguidores, mais “sucesso”, porque eu não sei comunicar, não me exponho, não estou sempre a entrar pelos olhos das pessoas, ou se é pelo facto de o produto não ser bom. É um desafio grande, perceber se necessito de marketing, ou de melhorar como entrevistador, estudar mais e melhor estas questões, que ainda não estou a um nível que permita ao produto espalhar-se sem essa exposição nas redes sociais.

Estes textos têm sido de alguma uma forma de me dar mais a conhecer, aquilo que penso, e muito daquilo que sou, dizia-me a Sónia Fernandes outro dia que “as pessoas sabem-te, mas não te conhecem”, e fiquei sem saber o que ela queria dizer com isso. Explicou-me que os seguidores do Falar Criativo sabem que existo, que o podcast existe, mas não me conheciam, não conhecem essa voz que para muitos se tornou familiar.

Quero ser próximo daqueles que me são próximos, os meus ouvintes, aqueles que fazem parte daquilo que eu espero ser a comunidade Falar Criativo, sim, esses quero que me conheçam, com eles quero ser, não quero parecer, mas é fácil esconder-me atrás destes textos, atrás de um microfone que não mostra a cara, acabo por parecer, mas talvez pareça pouco.

De que forma é que eu e tu nos podemos conhecer?

Como não tornar a intimidade uma banalidade?

É isso que muitas vezes acontece, mesmo com amigos de longa data, passamos a ver as fotos do que andam a fazer e deixamos de ligar, de estar com eles presencialmente, é tudo um tocar de dedo num ecrã.

Conheci uma pessoa outro dia, dono de uma grande empresa, pouca gente sabe quem ele é, mas é para mim uma pessoa de sucesso, vive uma vida tranquila no Alentejo, cozinha para a família e amigos, vê televisão, lê, continua a trabalhar porque quer, não porque necessite. Não tem facebook, não tem instagram, não fotografa a tal comida que faz para amigos e família.

Não parecendo feliz segundo as regras modernas, é feliz, provavelmente mais feliz do  que aquela jovem que faz ioga de calças justas de costas para a câmara para ganhar mais uns seguidores.

Cada um deve fazer o que lhe apetecer, mas o importante será fazer porque é o que queremos, e não entender a exposição como um único meio de conseguir uma base de apoio para fazermos o que gostamos e sentimos ser importante.

Acima de tudo devemos conseguir criar uma comunidade de pessoas que podemos contar e que contam connosco, e se as comunidades são compostas por pessoas que facilmente trocam de comunidade para algo mais brilhante e aparentemente famoso, não são pessoas com quem se possa contar. A exposição pode ser enorme em comunidades pequenas, e sei que a comunidade não será grande se a exposição for pequena, mas questiono se uma relação de aparências poderá algum dia ser entendido como comunidade, pelo menos no sentido que lhe dou, de grupo que partilha interesses, se apoia, que está lá para os bons e os maus momentos, não apenas a fazer “gosto” porque aparecemos na televisão ou fomos ao ginásio.

E tu, de que comunidades fazes parte?

Envia-me um email para rui@falarcriativo.com

“Sei que pareço um ladrão…
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.”

António Aleixo