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Ser hoje e tornar-me amanhã

Para combater o medo, age.

Para aumentar o medo – espera, põe de lado, adia.

David Joseph Schwartz

Vivo a maior parte do tempo neste dilema, talvez não seja só eu, mas é das coisas em que mais penso.

Há algo que eu posso ser já hoje, posso desenhar e ser alguém que desenha, ou posso adiar, ver tutoriais horas a fio, conversar sobre desenho, olhando para o futuro, para aquele dia em que acho que me vou poder chamar de artista. Mas mais do que um nome, é um verbo, é fazer, desenhar.

Todos os dias tenho a opção de olhar para aquilo que já consigo fazer e desfrutar do acto de tentar, de fazer mais um pouco, sem estar a olhar para o que estou a fazer como um degrau na escada que acho que tenho de subir, e que quando chegar lá acima é que vai ser fantástico.

Nas conversas que tenho com algumas pessoas surge muitas vezes o assunto de tirar mais um curso, de fazer mais uma formação, de comprar mais uma ferramenta, e que quando todas essas coisas tiverem resolvidas é que vai valer a pena, até lá é apenas sacrifício, é esforço para atingir um objectivo que nos convencemos ser o santo graal da nossa felicidade.

Talvez seja por eu estar a tirar mais uma licenciatura que também esteja mais desperto para esta questão, pois tornou-se recorrente perguntarem-me o que pretendo fazer com a dita licenciatura, quais os meus planos, e para que fui eu embarcar numa viagem de mais cinco anos.

Acabo por me deixar influenciar pelas perguntas, pelas dúvidas dos outros, e eu próprio olho vezes demais para o “daqui a cinco anos” para o “quando terminar o curso”, e fico ansioso por não ter claro em mim uma resposta definitiva para a pergunta “para quê”.

Vou respondendo, mas não com a certeza que gostaria, com um acreditar cego em algo de concreto, talvez me falte visão, talvez tenha medo de me comprometer com aquilo que quero, mas que tenho medo de não atingir.

Facilmente deixo de olhar para o processo, corro sem saber para onde, em busca da tal resposta que preciso ter, estar completamente certo e seguro de que tomei a decisão correcta ao entrar neste novo desafio, apresso-me, olho para as disciplinas que tenho como obstáculos a abater em vez de oportunidades de aprendizagem, não me vejo desta forma mais tranquilo nem motivado.

Já falei noutros textos sobre o difícil que é para mim o não saber, necessito de respostas, as perguntas na minha cabeça tornam-se ruído e não me deixam pensar, talvez venha daí a minha curiosidade, a necessidade de perguntar, acaba por ser uma válvula de escape à pressão que a incerteza e a dúvida criam entre as minhas orelhas.

Ser hoje é simples, é tranquilo, é paz.

Tornar-me amanhã é complicado, é dúvida, é incerteza, é medo, é guerra.

Mas se sei isto, o que me impede de ser hoje?

É querer ser mais do que aquilo que sou hoje, aquilo que sou hoje não chega, não é suficiente, mas amanhã, ah sim, amanhã vão ver, vou ser o maior… e aí o medo não existe, ninguém me pode criticar, eu sou o maior…

Como podes ver é tão fácil deixar-mo-nos enganar pela ilusão sedutora que amanhã vamos ser imunes ao erro, à crítica, à dúvida, sim porque amanhã vamos ter o tal curso, vamos ter a tal formação, vamos ter os amigos nos sítios certos, vamos ser reconhecidos, ah amanhã…

O sonho do amanhã mata a realidade do hoje, do agora, ilude, engana.

O sonho do amanhã também nos alimenta, aponta caminhos, mas não nos garante uma felicidade e tranquilidade futuras. Posso adiar passar mais tempo com as minhas filhas quando tiver menos obrigações, ou posso ter menos obrigações hoje e dar mais tempo às minhas filhas.

Somos levados a crer que no fim do arco-íris há uma panela de moedas de ouro, troque-se arco-íris por curso superior e panela de ouro por um emprego e vida estável, e temos uma ilusão comum à grande maioria das pessoas.

Estes olhos apontados ao futuro são necessários, mas como tudo, em demasia pode estragar o presente e até o dito futuro.

Na escola é nos dito para estudar de modo a passar nos exames, nos empregos é nos dito para fazer o que as chefias esperam de nós e teremos uma promoção, se correres vais ficar em forma, mas ninguém nos pode garantir que as coisas se vão passar dessa forma. No entanto hipotecamos toda a motivação e alegria por algo distante, não aprendemos a procurar a alegria na tarefa, apenas no resultado.

“Tens o direito de trabalhar, mas apenas pelo trabalho.

Não tens direito aos frutos do trabalho.

Desejo pelos frutos do trabalho nunca deverá ser o motivo para trabalhar.”


Bhagavad Gita

Esta semana o Todd Henry do Accidental Creative falava desta frase, e achei interessante este ponto de vista, pois veio de alguma forma tocar na questão que tanto me provoca ansiedade,  os resultados do que estou a fazer, e como por vezes me deixo levar pelo ego, exigindo que aquilo que faço tenha os resultados que eu quero.

A grande questão é que não posso exigir este ou aquele resultado, eu tenho o direito de fazer, de criar, de investir nisto ou naquilo, mas não o posso fazer esperando somente um resultado que me agrade.

Quando coloco uma bola a rolar colina abaixo posso dar uma determinada direcção, posso colocar efeito, posso dar mais ou menos força, mas não garanto que ela vá parar onde eu quero.

Tenho o direito de não atirar a bola, tenho o direito de a atirar como quiser, não tenho é o direito de deixar que apenas um resultado condicione a minha vida.

A busca agora é confiança na incerteza, é abraçar o que está à minha frente, é não olhar para tudo como possíveis ganhos, é olhar para as coisas pensando se no fim do dia, mesmo que nada tenha corrido como esperado, estou satisfeito com o que fiz, se gozei os erros, as vitórias, tudo, independentemente de onde estarei daqui a cinco anos.

Não pode ser só esforço em busca de um prémio que pode nunca chegar.

Lembra-te, não tens de saber tudo, muito menos adivinhar o futuro.

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