Ser ou não ser único

“Não é quem tu pensas que és que não te deixa avançar. É quem tu achas que não és.”

Denis Waitley

Todos queremos ser únicos, especiais, mas também não queremos, assim como se de uma bipolaridade se tratasse.

Falo por mim, quando surge uma oportunidade, uma ideia minha, quero ser o primeiro, o especial que tem aquele “não sei o quê” que lhe permite ser tratado de forma diferente, que o mundo espera ansiosamente que eu abra a boca para falar e que partilhe um sem fim de coisas memoráveis que a humanidade nunca irá esquecer.

Quero ter ideias únicas, cheia de valor, que se vão espalhar como fogo em pasto seco, que todos vão querer adoptar assim que tomarem conhecimento do golpe de génio.

Mas quando surge um problema, quando as coisas correm mal, quero saber que não sou o único, que outros já passaram pelo mesmo, e que é possível superar.

Percebes que pensar assim, não é saudável, que não faz com que cresças, parece mais a atitude de um menino birrento, que quer ser o centro da festa, mas que quando faz asneira, espera que ninguém veja, ou logo surge uma pessoa sábia que te diz “não faz mal, acontece a todos”.

Pois, acontece tudo a todos.

Ninguém pode dizer que só tem dias em que se sente especial e único, nem pode dizer que tudo na vida lhe corre mal, que é a única pessoa no mundo a passar por aquilo que está a passar.

No momento em que me acho especial, deixo de me relacionar de forma igual com as pessoas que encontro, começo a vê-las de cima, a comunicação deixa de ser olhos nos olhos, convenço-me que os outros têm de olhar para cima, para terem o privilégio de falar comigo, mas o que me esqueço, é que o mais provável é ficar a falar sozinho, e dessa forma nada aprendo, sou tão especial, que sou como aqueles produtos tão únicos que não há acessórios para eles, nem peças caso se avariem.

Da mesma forma, quando as coisas correm mal, e acho que sou o único a falhar, que mais ninguém seria tão estúpido e incompetente ao ponto de se deixar cair nessa situação, escondo-me por vergonha de ser o que tem defeito, que os outros nunca seriam tão fracos para cair em tal situação. A vergonha de falhar, de sentir que só por eu ser tão incompetente é que me aconteceu a mim, e que por isso mereço que tudo o que me possa acontecer, empurra-nos para o fundo, não nos deixa ver possíveis soluções.

Esta semana ouvi uma entrevista da Maria Shriver sobrinha do John F. Kennedy, e ex-mulher do  Arnold Schwarzenegger, em que ela falava de ter feito uma apresentação do seu livro, e no fim uma mulher ter ido ter com ela para lhe dizer que a admirava, que ela parecia ter uma vida fantástica, ter tudo equilibrado. Respondeu a essa senhora, dizendo-lhe que não que voltar a casa depois de um evento daqueles para uma casa vazia era difícil, e que aquela senhora quando saísse dali, iria para casa estar com os filhos e um marido que a amam. Serve esta história para exemplificar que não há vidas perfeitas, que os nossos ídolos, aqueles que tentamos imitar também têm dúvidas, também sofrem, talvez não as mesmas dores, mas algumas serão parecidas.

O que me tem parecido importante, e pelo que ouvi durante a entrevista é partilharmos as nossas dores, não só as nossas alegrias, quando partilhamos estamos a dizer aos outros, não és tu que tens defeito, somos todos, ou melhor ainda, ninguém tem, faz parte de estar vivo e fazer coisas.

Somos especiais? Somos, mas se todos formos especiais, ninguém é especial. Especiais são aqueles que fazem apesar de, que partilham, que ajudam, que sabem ficar felizes com as vitórias dos outros sem olhar para a vida deles a achar que são menos por não terem o que os outros têm por não experienciarem o mesmo tipo de coisas.

Talvez a razão para acharmos que não vivemos tantas aventuras e sucessos fantásticos, se prenda com a maneira como os interpretamos, se compararmos a nossa experiência com a percepção que temos da experiência dos outros, não será fácil que coincidam, e pode muitas vezes parecer inferior.

Se estás mal, assume, fala com alguém que com certeza terá passado por situações menos boas, sê honesto com as tuas experiências, não serve de nada esconder, e quando falares também não faças parecer aos outros que se algo lhes correu mal foi porque não fizeram o que deviam ter feito, que não são feitos do tal material especial de que só uma elite é feita. Andamos todos a tentar entender isto tudo.

Rodeia-te das pessoas que te aceitam, aceita os outros, cria uma rede que te ampara quando cais, sim, porque todos caímos, e é sempre mais fácil se tivermos alguém para nos ajudar a levantar.

Há algum tempo criei um grupo de Facebook que pretendia que fosse um espaço onde os ouvintes do Falar Criativo de encontrassem e partilhassem aquilo que lhes vai na alma, seja links para coisas que gostam, dúvidas que têm, mas talvez por falta de dinamização minha, não pegou. Quero reavivar esse grupo, por isso se tiveres interesse em fazer parte, clica aqui.

Esta semana também fui ver o concerto dos Queen com o vocalista Adam Lambert, e fiquei fascinado a ver a coragem deste jovem, que ainda muito no início do espectáculo fez questão de referir as dúvidas que muitos na audiência teriam – ele não é nenhum Freddie Mercury.

Ele assumiu perante todos que não era, não iria tentar ser, e que admirava o Freddie tanto como todos ali, mas, isso não o impediu de dar um enorme espectáculo, pelo contrário, foi essa honestidade que ele teve, sobretudo consigo, o que o fez ser o melhor Adam Lambert que podia ser, e assim foi o melhor vocalista que os Queen poderiam ter, não competindo com o artista enorme, que infelizmente já faleceu, mas colocando-se ao lado dele em termos de performance e entrega.

De referir ainda a inveja que tive do Bryan May e do Roger Taylor, artistas que têm quase setenta anos, que estão mais velhos, mas que não envelheceram, continuam com uma alegria gigante, de brincar ao rock’n roll, uma energia que seria impossível se não fosse aquele o espaço onde brincam e onde partilham aquilo que amam fazer.

Eu busco essa energia, esse ambiente de brincadeira que fará com que chegue à idade deles com o mesmo entusiasmo, e nesse processo tenho de saber que não sou uma versão de outros que fazem ou fizeram algo que eu faço ou quero fazer, terei de ser sim, a melhor versão  daquilo que posso ser.

Dúvidas, sugestões o email rui@falarcriativo.com está sempre disponível.