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Ser sustentável

“Se algo não é sustentável, claramente não pode ser correcto.”

Greg Mckeown

Quantas vezes já deste por ti a dizer que já não aguentas mais uma determinada situação?

Pensaste nas consequências quando aceitaste essa situação?

Tem sido fácil para mim aceitar determinadas coisas e depois chegar à conclusão que deveria ter sido mais claro a dizer que não, ou a estabelecer as minhas prioridades.

Ficamos fascinados a ouvir as histórias das pessoas que aguentaram enorme sofrimento e que depois conseguiram alcançar os seus objectivos gigantescos, mas já não gostamos de ouvir o resto de muitas dessas histórias em que os custos que esse sofrimento teve na vida dessas pessoas é pago sob a forma de doenças graves, mortes prematuras, famílias desfeitas, depressões, e a total incapacidade para lidar com as consequências de um sucesso que desejavam, mas para o qual nunca se prepararam.

Vi um vídeo esta semana (daquelas sugestões que o Youtube faz que dificilmente me lembraria), sobre culturistas, pessoal do músculo que teve transformações fantásticas nos seus corpos, estrelato, para morrer aos vinte e poucos, trinta, quarenta anos, devido às complicações que a toma de esteróides causaram, enormes cargas no aparelho musculoesquelético que provocam uma diminuição na longevidade, ou na qualidade de vida de quem decide que quer algo de forma rápida e não sustentável a longo prazo.

A sustentabilidade que tanto se fala em termos ambientais também deveríamos falar em termos pessoais, laborais, políticos, resumindo, em tudo.

Tudo mesmo?

Sim, se algo não é sustentável não é o correcto como diz o Greg Mckeown, e se não é o correcto, não devemos concordar em fazer.

Um exemplo em termos políticos serão aquelas leis pré-eleitorais que sabemos que servem para comprar votos como a baixa de impostos ou estradas construídas em tempo recorde, pois sabemos os custos que isso terá a longo prazo, não adianta baixar os impostos agora um por cento, para após as eleições ter de aumentar dois por cento devido ao buraco financeiro criado pela quebra na receita.

E nós?

Nós roubamos ao sono, ao tempo em família, ao tempo para fazer exercício, ao tempo para ler, ao tempo para estar com amigos, para estudar, porque vamos dizendo que é só uma fase, que aguentamos, que outras pessoas já o fizeram e que correu bem.

Teremos realmente a noção dos custos que determinados “sim’s” que dizemos na nossa vida têm na sustentabilidade da nossa saúde, conhecimento, e relações pessoais?

Se eu como atleta de alta competição fizer dez competições por semana, por quanto tempo o conseguirei manter?

Se eu como gestor só estiver a apagar fogos na empresa, a controlar tudo, não recuperar e aprender novas matérias quanto tempo aguentarei fisicamente ou em termos de relevância?

Se eu como criativo não criar tempo para explorar novas áreas, técnicas, temas, quanto tempo terei até ser de pouco valor ou mesmo obsoleto?

Já referi noutros textos a importância do vazio, do espaço para que surjam novas ideias, novas ligações, mas não entendo que esse espaço é um vazio absoluto, esse espaço é o local onde recuperamos, onde arranjamos a energia para ir mais longe, não necessariamente mais depressa.

A sustentabilidade é um factor que traz obrigatoriamente clareza à nossa vida.

Se eu tivesse de viver com isto durante um longo período de tempo, estaria eu disposto a isso?

Se a resposta é muitas vezes não, porque razão aceitamos coisas insustentáveis?

Porque achamos que vamos arranjar maneira, que se dissermos que não estamos a deixar escapar uma oportunidade, que os outros vão considerar que somos ingratos ou presunçosos. A lista de explicações não tem fim, mas o que importa é a sustentabilidade.

Pode acontecer, olharmos para algo e ver que não é sustentável mas mesmo assim queremos avançar, e o exercício deverá ser como é que a torno sustentável, não é de que forma consigo espremer mais de mim ou das pessoas à minha volta.

Temos a soberba de achar que temos o controlo sobre os imprevisíveis, e nunca deixamos folga no sistema, e ao primeiro esticão, o sistema rebenta.

Vivemos com a ilusão de uma reforma que vai trazer a calma e a paz, vivemos na ilusão de quando os filhos tiverem criados é que vamos ter tempo para alimentar o nosso lado criativo, quando for promovido é que vou ter tempo e dinheiro para fazer exercício, e vamos adiando, espremendo a nossa energia até ao limite do sustentável, mas como seres resilientes que somos, vamos aguentando durante muito tempo, até ao ponto de não retorno, uma doença grave, que nos mostra claramente que o caminho do insustentável é doloroso e por vezes trágico.

Porque razão dizemos que sim quando claramente sabemos que devemos dizer não?

Por medo, por medo do que podem achar de nós e medo de que se não aceitarmos aquela oportunidade não haverão outras.

“As oportunidades são como os autocarros – vem sempre outro!”

Richard Branson

Este senhor sabe do que fala, já começou muita coisa, já falhou muita mas por exemplo, dá prioridade ao exercício físico, a diversão e o tempo em família.

Pode um destroço humano ser inspirador, criativo, feliz?

Não, claro que não, por essa razão, a preocupação dever ser a sustentabilidade em todas as áreas da nossa vida.

Sei que há aquelas pessoas que trabalham dias e dias, horas sem fim durante muitos anos, mas quando chegam ao final da vida, será que valeu a pena?

Hoje, hoje é o dia, mas não te esqueças que amanhã, depois de amanhã, no mês que vem, também é preciso cá estar para continuar a fazer porque gostas, porque te dá prazer, porque sabes que é importante.

O Falar Criativo neste momento só tem entrevistas uma vez por mês, porque para mim neste momento é o que é sustentável, por isso continuo cá, vou escrevendo estes textos que só dependem de mim, e todos os dias adormeço as minhas filhas, passeio os cães, medito, leio, não estou rico, mas tenho o suficiente nesta fase da minha vida, e quando as oportunidades chegarem em que até poderei ser rico, terei a energia e a presença para usufruir sem remorsos e arrependimentos dos momentos que não testemunhei no crescimento das minhas filhas, nem culpa por ter destruído pessoas e relações pelo caminho.

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