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Atrás do dinheiro

“Quando os banqueiros se juntam para jantar, discutem Arte. Quando os artistas se juntam para jantar, discutem Dinheiro.”

Oscar Wilde

Também andas atrás do dinheiro?

Eu tenho andado, e não tem sido nada produtivo, nem interessante, nem agradável.

Quando comecei o podcast era um hobby, um side project, algo que fazia para além do meu trabalho das nove às seis, era algo que queria explorar, uma área que me interessava, um assunto que queria aprender mais – a criatividade – e pessoas que queria conhecer. Tudo isso consegui, explorar o meio podcast, aprender mais sobre a criatividade, e conheci pessoas que admirava e admiro, mas os problemas rapidamente surgiram.

Cerca de um mês depois de lançar os primeiros três episódios, fui parar ao desemprego, e estava cheio de esperança, achava que essa coisa do empreendedorismo e que estava na moda, que também eu iria conseguir transformar o meu novo projecto numa forma de subsistência, porque não, os noticiários estavam cheios de exemplos de pessoas que pegavam nas dificuldades e as transformavam, nessa altura de crise, numa coisa melhor, cresciam e geravam o dinheiro que precisavam para sustentar as suas famílias. A ideia era que todos somos empreendedores em potência, que todos conseguimos se trabalharmos afincadamente, que só não conseguem aqueles que não tentam ou que não se esforçam.

Ora, se eu tenho aqui um produto inovador e fantástico, o “mega incrível podcast Falar Criativo” , de certeza vou conseguir transformá-lo numa fonte de rendimento. Tentei, arranjei uns patrocinadores durante uma fase, que pagavam muito pouco, mas eu acreditava que era só o início, que viriam mais e melhores patrocinadores, que a minha veia empreendedora estava prestes a manifestar-se, que a tal liberdade e independência financeira estava ao meu alcance, que nunca mais teria de trabalhar por conta de outrem, que o mundo se iria maravilhar com a minha eloquência como entrevistador, que seria convidado para a televisão para falar sobre mim e o meu projecto.

Tudo tiros ao lado.

Nunca tive veia de vendedor, sempre fui envergonhado ao ponto de me custar perguntar o preço de algum produto numa qualquer loja, e até ligar para sítios para saber informações era algo que me deixava nervoso, medo que “vissem” através do telefone o chóninhas que eu sou, uma tal falta de assertividade e confiança que é incompatível com a mente e atitude empreendedoras.

Se não tenho veia de vendedor como achei eu que iria conseguir vender a minha ideia e produto?

Pois, não consegui. Foi uma altura complicada, a gastar tempo a andar atrás do dinheiro, a não me focar naquilo que era importante, o podcast, gastando energia numa coisa que me era estranha, o “vender-me”, e se ninguém comprava era porque “eu” não valia o dinheiro. Erro gigantesco, misturar o que sou com aquilo que faço. Não sou aquilo que faço, da mesma forma que um berbequim não é os furos que faz. Claro que há algo de nós naquilo que fazemos, e melhor será quando mais de nós tiver, e não for fazer por fazer, mecânico, sem alma. Teve consequências, e houve alguns episódios que se reflectiu na minha voz a falta de motivação de andar cansado de tentar ser algo que não sou, passando a busca de dinheiro a ser a principal preocupação. Não digo que o dinheiro não seja importante, todos precisamos dele para nos alimentarmos, para ter um tecto para dormir, para ter água, electricidade.

Mas se o motor for a busca de dinheiro para sobreviver, estaremos a dar o melhor de nós?

O modo de sobrevivência torna-nos mais agressivos, mais egoístas, se eu comer significar tu não comeres, lutas haverão, e um de nós acabará por não comer.

Segundo o psicólogo Abraham Maslow e a sua pirâmide das necessidades, o patamar da criatividade está no topo, depois de estarem asseguradas outras necessidades, comida, segurança, ligação.

Claro que todos conhecemos exemplos em que a necessidade aguçou o engenho, que alguém se viu numa situação limite, e ao confrontar-se com isso teve de ser inventivo e encontrar uma solução, mas acho muito sinceramente que são as excepções que confirmam a regra.

As situações limite também servem para nos confrontarmos com as nossas crenças relativas ao nosso valor, ao dinheiro, e qual a nossa verdadeira capacidade para o gerar.

Há artistas, criativos que já entrevistei que preferem manter o seu lado criativo como hobby, não o tornando o seu meio de subsistência, sendo as suas decisões criativas mais independentes, pois os riscos que correm não põem em causa se vão ter comida e tecto, e essa liberdade é extremamente confortante, é como fazermos bungee jumping, só saltamos porque sabemos que temos uma corda atada ao nosso corpo, caso contrário ninguém saltaria. Os miúdos são muito mais corajosos na presença dos pais, até os próprios cães são mais altivos e até agressivos quando estão à trela por saberem que os donos estão lá para os defender.

Sei de alguns casos de pessoas que fazem muitos mais projectos porque têm uma base financeira mensal garantida, e por isso arriscam, não andam a correr atrás do dinheiro, correm sim atrás de gerar valor, de se sentirem vivos a fazer aquilo em que acreditam, de experimentarem só porque sim, nunca se esquecendo dessa forma porque razão gostam tanto de criar, de fazer aquilo que amam fazer.

Num documentário que vi recentemente, “Winning” cinco atletas lendários nas suas áreas falam que nos momentos em que tudo estava em causa, que a pressão para ganhar era enorme, aquilo que os fez manter a concentração e a calma foi lembrarem-se da razão porque amavam tanto o seu desporto, o gozo que tinham em estar a “brincar” à sua brincadeira favorita.

Significa que só devemos fazer o que gostamos?

De preferência, sim, mas aquilo que é importante é o dinheiro não ser o motor, porque aí vamos estar sempre a correr atrás, nunca a liderar, nunca na vanguarda, nunca de peito aberto, de sorriso na cara, vamos estar sim, de punhos fechados, de dentes cerrados, corpo tenso, a ser arrastados pela promessa de uma recompensa que pode nunca chegar.

No livro “Real Artists Don’t Starve” (Os verdadeiros artistas não passam fome) o Jeff Goins fala que a mentalidade não deverá ser fazer arte para ganhar dinheiro, mas sim fazer dinheiro com a arte, para podermos fazer mais arte, que é isso no fundo que a maior parte dos artistas querem.

Achas que o Cristiano Ronaldo continua a jogar à bola porque ainda não tem dinheiro suficiente?

Achas que o Roger Federer continua a jogar ténis porque tem medo de passar fome?

Achas que os Rolling Stones precisam de andar a fazer tournées aos setenta anos, para pagar as compras de supermercado?

Pois, eu acho que não.

Se queres fazer aquilo que gostas por muito tempo, é necessário que faças porque queres, não porque tens de.

Ainda não estou em situação de deixar de andar atrás do dinheiro, ainda não arranjei a estabilidade necessária que preciso, mas já não corro, vou a passo, olhando para o que está à minha volta, respeitando-me, respeitando os outros, e tendo a perfeita consciência que o dinheiro nunca poderá ser um fim, mas sim um meio que me permite fazer mais e melhor.

“A felicidade não está na mera posse do dinheiro; está sim na alegria de conseguir atingir o nosso objectivo, na emoção do esforço criativo.”

Franklin D. Roosevelt

Fala comigo, pergunta, partilha. rui@falarcriativo.com

Falar mais Criativo – episódio 34, Criatividade no Trapézio

Esta semana com a Anita na Bulgária, falámos sobre uma experiência que ela teve, ao assistir um trapezista a estar com o seu próprio processo criativo.

Falámos sobre a constatação de que as ideias precisam de tempo, e que cada vez nos é mais difícil termos tempo sem nada, espaço para o nada, onde as coisas surgem.

Referi um texto do Afonso Cruz, “Paralaxe:Kavafis, só para ser mais preciso” , sobre um poema de Constatino Kavafis, Ítaca.

Neste episódio referimos um outro episódio do Falar mais Criativo, o Play.

Livro sugerido é o “The Artist´s Way” da Julia Cameron.

 

 

 

 

episódio 71 Lara Seixo Rodrigues

A convidada desta semana, é a Lara Seixo Rodrigues, que faz muita coisa, embora ultimamente esteja ligada à curadoria de artistas, mais ligados à street art.

Eu já tinha ouvido falar muito da Lara, primeiro porque fui colega de faculdade do Pedro, o irmão dela, que fazia as maquetes mais espectaculares da turma e arredores, contrastando com as minhas, que segundo uma professora eram “feitas com os dentes”. Em segundo lugar, acompanho via web alguns artistas que de alguma forma já colaboraram com a Lara, sendo participantes em alguns projectos por ela organizados.

Já tinha no radar falar com a Lara, há algum tempo, mas como lhe disse pessoalmente, até agora não sabia muito bem qual o ângulo a abordar na nossa conversa.

A conversa conseguiu superar as minhas expectativas, que já eram altas, a Lara gosta do que faz, sabe fazer, e tem uma visão bastante abrangente do panorama da arte em Portugal, mais focada porém na street art.

As pessoas são o que motiva a Lara nas intervenções urbanas, o alterar dinâmicas nas cidades, só faz sentido se for com as pessoas e para as pessoas, num processo inclusão, integração, e não ser simplesmente uma parede “muita cool”.

Falámos da necessidade de dar espaço aos artistas para criar, retirando-lhes a não natural tarefa de negociar contratos, autorizações e todas as burocracias que retiram tempo para aprofundar as suas capacidades, explorar novos caminhos, e no fundo crescer como artista.

A questão das galerias, e dos agentes, é algo que me divide de alguma forma, mas consegui ficar mais esclarecido ao falar sobre o assunto, com quem sabe mais do que eu. Aquilo que percebi, é que os maus agentes e os maus galeristas, fazem com que muitos artistas não consigam ver as vantagens de ter alguém a “arrumar” as coisas, para a energia que o artista traz, seja entregue na sua arte, e não burocracias nada criativas.

A Lara tem de ser organizada, pois gerir 15, 20 projectos ao mesmo tempo implica organização, mas também tem de ser capaz de desligar ao fim de um dia intenso.

Referiu-me que a vida é que lhe ensinou, tanto a ser organizada, como a saber desligar. Disse-lhe que a vida tinha sido boa professora para ela, mas mais importante que a vida ter sido boa professora, foi a capacidade que a Lara teve para ouvir os ensinamentos que a vida lhe apresentou.

os artistas

Encontrei este texto do David Ackert, e o engraçado é que quando fiz alguma pesquisa sobre a origem do artigo, apercebi-me que as diferentes áreas artísticas têm alterado o sujeito para a área do seu interesse. Encontrei para “Cantores e Músicos”, para “Actores” e por fim “Artistas”. Parece-me pouco relevante qual a área, mas sim a ideia que quem faz coisas, quem têm ideias expõe-se à crítica, à rejeição, motivados por um instante em que “…eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas.”

Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra.

Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas  durante toda uma vida.

Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego a sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho.

Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho.

Com cada obra ou papel, empurram os seus limites, emocionais e físicos, arriscando a crítica e o julgamento, muitos deles a ver outras pessoas da sua idade a alcançarem os marcos previsíveis de uma vida normal – o carro, a família, a casa, o pé-de-meia.

Porquê? Porque os artistas estão dispostos a dar a sua vida inteira por um momento – para que aquele verso, aquele riso, ou aquele gesto, agite a alma do público.

Artistas são seres que provaram o néctar da vida naquele momento de cristal quando derramaram o seu espírito criativo e tocaram no coração do outro.

Nesse instante, eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas. ” David Ackert