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episódio 107 – André Oliveira

O convidado desta semana é o André Oliveira, argumentista que recentemente ganhou o prémio de melhor argumento no festival de banda desenhada da Amadora, com o livro “Volta”.

Nas minhas visitas ao festival, tomei contacto com o trabalho do André, e rapidamente percebi que, primeiro tinha de comprar o livro “Hawk”, e de seguida falar com ele.

No dia que comprei o livro, fui logo lê-lo, e como a minha história tem muitas coisa parecidas com o Vicente (o personagem principal), facilmente tocou em botões dentro de mim que me fizeram comover, a ponto de ter ficado num estado quase de transe emotiva, da qual só acordei quando voltei ao meu local de trabalho e uma colega me pergunta o que é que se tinha passado, se estava tudo bem.

Estava tudo bem, porque como falei com o André, procuro ser tocado pela arte, sentir-me vivo, sentir renascer coisas que fui desligando, tornar-me mais daquilo que sou.

Nos dias antes de falar como André fartei-me de comentar com várias pessoas que o ia entrevistar, e que até estava algo nervoso, uma vez que percebi pela investigação que fiz, tratar-se de um excelente argumentista, mas acima de tudo uma boa pessoa.

O texto que o Mário Freitas escreveu como prefácio da colectânea “Casulo”, descreve o Sr Oliveira, que se torna André como sendo um aglutinador de pessoas à sua volta, e alguém com a capacidade de rir de si próprio.

Aquilo que vos posso dizer é que reconheço nele uma grandeza que senti também no Filipe Melo, pessoas que são muito maiores que a sua obra, sendo essa obra gigante. Essa grandeza vem de uma grande generosidade criativa, um ego diminuto que permite trabalhar com muitas e variadas pessoas, com igual grau de sucesso.

Se há característica que tento copiar é essa de conseguir não alimentar o ego, nem sempre o consigo. E a razão para esse insucesso, vem de querer ser visto pelos outros como relevante, e aqueles que são relevantes, simplesmente o são.

Ele escreve livros “na sua pessoa”, e eu tento fazer entrevistas na minha pessoa, e aqueles que correram menos bem, foram aqueles em que tentei ser outra pessoa, alguém que achava ser mais o mais indicado para a ocasião, mas não eu. Nessas ocasiões escondi-me, e quem apareceu era um boneco de cartão, sem profundidade. E é na profundidade que está o valor.

Percebo cada vez melhor a força que existe na persistência e na capacidade de ser parte, e não estar permanentemente aos saltos para ser escolhido.

Eu escolho ser parte, eu escolho sonhar com um mundo onde não se divide a tarte em mais partes, mas todos fazemos uma tarte maior.

A banda desenhada parece-me caminhar nesse sentido, e eu fico muito feliz por isso.

Livros sugeridos:

  1. “O Amor infinito que te tenho e outras histórias” do Paulo Monteiro
  2. “Lisboa Triunfante” do David Soares

episódio 106 – Francisco Sousa Lobo

O convidado desta semana é o Francisco Sousa Lobo, autor de banda desenhada e mais coisas que poderão pesquisar no site dele.

Eu aproveitei a oportunidade que me foi concedida de ter entrada livre para o festival Amadora BD,  já lá fui duas vezes, nas minhas horas de almoço, e aconselho vivamente.

Logo na primeira visita chamou-me à atenção o trabalho do Francisco, “O desenhador defunto”, entrei em contacto com ele, e rapidamente acedeu e fizemos a entrevista vis Skype, pois ele vive em Londres.

Falámos muito do que é, pode, deve,   ou não deve ser o desenho, é algo que me intriga, e que o Francisco tem pensado sobre.

Eu senti-me algo nervoso, com necessidade de fazer acontecer este episódio, e penso que por vezes terei falado mais do que devia, interrompendo-o até. Sei que presencialmente, sem esta pressão auto-imposta, teria sido uma conversa mais fluída.

Por outro lado, dei por mim, a fazer perguntas mais arriscadas, tentando perceber os processos mentais por trás das decisões artísticas, esmiuçando os processos, talvez como forma de compensar esse meu nervosismo.

Tocámos em coisas que parecem não ter nada a ver como fé e religião, mas a conversa acabou por me revelar processos mentais que contenho em mim, e que espero mais pessoas se consigam relacionar.

O Falar Criativo tem, e já o disse, um lado muito subjectivo e egoísta, o meu.

As conversas que vou tendo, são as que quero, e de certa forma, preciso ter. Procuro pistas, validação de coisas que penso, que aspiro, mas frequentemente me confronto com maneiras diferentes de pensar, que ajudam a tornar o quadro mais rico e mais real.

 

 

episódio 89 – Mário Belém

O quinto e último convidado desta semana especial dedicada ao Muraliza, Festival de Arte Mural de Cascais, é o Mário Belém.

Foi uma bela maneira de terminar o especial Muraliza, o Mário era um artista que eu já gostava de ter entrevistado, mas havia alguma resistência em mim que eu não entendia.

Percebi quando o estudei mais a fundo para preparar a entrevista, e mais ainda quando o entrevistei, que a resistência não era mais que uma inveja, mas uma inveja boa, no sentido de “ele já está onde eu gostava de estar”.

É um artista reconhecido pelos seus pares, e pelo público em geral, uma vez que o seu trabalho a um nível mais superficial é “fofinho”, como lhe digo durante a nossa conversa, uma linguagem muito próxima da ilustração infantil, mas que tem mais camadas, é mais complexa, tem mensagens subtis que fazem com que a maior parte das pessoas “tropece” nas suas certezas, mas nada de muito violento que as faça cair.

Há um lado muito descontraído na sua maneira de estar, uma tranquilidade que suponho vir desta sua alegria de brincar de forma séria com os materiais, tal como uma criança que experimenta os lápis de cor, a plasticina, os recortes, mas com a maturidade que os 38 anos trazem.

Tal como o Diogo (Add Fuel), o Mário é uma pessoa organizada que trabalha as suas 6 a 8 horas por dia, que tem serão sem trabalhar, que faz por almoçar com a namorada na praia, que faz bodyboard, mas que não deixa de acrescentar valor, e não deixa de ser produtivo, basta seguir aquilo que ele faz para perceber que não dorme em serviço.

Achei engraçado falarmos em dores de crescimento, na passagem do computador para as paredes, em que há de facto um crescer em termos de maneira de olhar, mas também um lado físico que tem a ver com o ter de desenhar um círculo com 2 metros em vez de fazer um pequeno círculo com o rato.

A fotografia que está aqui em cima mostra aquilo que se sente quando se contacta com o Mário, que estamos com alguém que voltou a encontrar uma profunda alegria em brincar com a plasticina.

 

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Livros sugeridos

episódio 88 – Diogo Machado aka Add Fuel

O quarto convidado desta semana especial dedicada ao Muraliza, Festival de Arte Mural de Cascais, é o Diogo Machado aka Add Fuel.

O Diogo é um artista que já queria ter entrevistado, mas fui adiando, até que surgiu a bela oportunidade de o “apanhar” durante esta série especial do Muraliza 2015.

O trabalho dele foi-me aparecendo na frente das mais variadas formas, e percebi desde logo que era um artista com um trabalho muito mais profundo do que possa parecer, e não apenas “um gajo que pinta azulejos em caixas de electricidade”.

Neste aspecto, durante a entrevista referi-lhe o facto de achar que o universo que ele representa, é para mim comparável ao trabalho de um Tim Burton ou um J. R. R. Tolkien, no sentido em que existe uma série de personagens, de cenários que vão construindo um mundo próprio, um mundo imaginado por ele, e que os trabalhos são como que fotografias, ou janelas para esse mundo.

Uma coisa que percebi, foi que o trabalho dele é sólido, porque como artista já está num patamar em que só chegam os grandes artistas, que arranjam processos, que têm a disciplina necessária para ser grandes e se manter lá.

Enquanto somos jovens muitos de nós conseguimos compensar a falta de processo, de sistema, de organização, e de disciplina, usando a energia que temos, dormindo apenas duas horas por noite, porque a idade assim o permite. Porém mesmo que consigamos aguentar durante algum tempo este castelo de cartas, eventualmente ele acaba por ruir, pois a solidez é construída da base, da fundação para cima, e é isso que o processo, os sistemas, a organização, e a disciplina têm como papel fundamental, são essa plataforma sólida à qual podemos subir e ver mais longe.

Assim o meu conselho para mim, neste momento, e para a minha versão de vinte anos, é:

“Organiza-te, estuda a tua maneira de estares no teu melhor, cria um sistema, e disciplina-te, para que nos dias em que não apetece, saibas exactamente o que deves fazer, e assim não viverás no arrependimento daquilo que podias ter feito, e daquilo que podias ter sido.”

Ah, e como nota final, nunca é tarde, mas começar hoje é sempre melhor do que amanhã.

 

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Livros sugeridos

episódio 83 – Tamara Alves

A convidada desta semana é a Tamara Alves, urban artist, ilustradora, tatuadora, alguém que encontrou algo que ama fazer.

O desenho é sem dúvida uma ferramenta muito importante para ela, de tal forma que foi para ela uma surpresa encontrar artistas que não desenhavam quando fez o curso na ESAD das Caldas da Rainha. Gosto bastante dos desenhos, de um lado cru, de instinto que os desenhos têm, de como já a ouvi dizer “pôr o coração cá para fora”.

A Tamara surgiu como sugestão da Lara Seixo Rodrigues, e assim que vi o seu trabalho, percebi que teria de falar com ela. (Aproveito para agradecer à Lara a cedência do espaço para a entrevista, disse-me logo que sim. Lara és a maior.)

Pessoa muito simpática, sem adereços de personalidade, isto é, não senti nenhum tipo barreira, de tentativa de ser outra coisa do que aquilo que ela é. Agora que escrevi isto, percebi a relação com a verdade do trabalho da Tamara, há coerência entre aquilo que faz e aquilo que é, daí ser tão bom.

Houve muita coisa da entrevista que retive, mas gostava apenas de salientar dois pontos, que simplesmente não me têm largado o pensamento desde o dia da entrevista.

O primeiro é o lado de lutar por aquilo que gosta de fazer, sabendo que desde que haja um tecto e comida na mesa, estamos bem, e isso é mais fácil do que aquilo que pensamos. A maior parte de nós, tem é uma bitola muito alta, e ficamos prisioneiros de um salário mais alto, porque ter o último telemóvel, ou comer carne e peixe todos os dias se torna indispensável.

Dentro ainda deste ponto, referir o lado de comunidade, de porto de abrigo, quando a Tamara se despediu e uma amiga lhe diz “quem faz para um, faz para dois”. Mais uma vez, estamos bem.

O outro ponto que me marcou, foi esse lado quase obsessivo, e de também estabelecer um esqueleto, uma estrutura de pensamento, usando o livro do Allen Ginsberg, o Uivo e outros poemas, lendo-o, relendo-o e até reescrevendo à mão.

Há livros que me marcaram, e penso que se os tivesse levado a esse extremo, a vida poderia ter-se tornado mais simples, uma vez que em caso de dúvida, a nossa visão do mundo é mais clara, com menos ruído e confusão.

Não quero dizer com isto, que nos tornemos escravos de uma coerência fundada em pura teimosia, mas sim ter uma estrutura que pode ser revestida das mais diversas formas, que se pode acrescentar, ou retirar, que se move com as ondas, mas que se move em uníssono, e não um monte de fragmentos que andam à deriva no oceano dos dias.