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episódio 89 – Mário Belém

O quinto e último convidado desta semana especial dedicada ao Muraliza, Festival de Arte Mural de Cascais, é o Mário Belém.

Foi uma bela maneira de terminar o especial Muraliza, o Mário era um artista que eu já gostava de ter entrevistado, mas havia alguma resistência em mim que eu não entendia.

Percebi quando o estudei mais a fundo para preparar a entrevista, e mais ainda quando o entrevistei, que a resistência não era mais que uma inveja, mas uma inveja boa, no sentido de “ele já está onde eu gostava de estar”.

É um artista reconhecido pelos seus pares, e pelo público em geral, uma vez que o seu trabalho a um nível mais superficial é “fofinho”, como lhe digo durante a nossa conversa, uma linguagem muito próxima da ilustração infantil, mas que tem mais camadas, é mais complexa, tem mensagens subtis que fazem com que a maior parte das pessoas “tropece” nas suas certezas, mas nada de muito violento que as faça cair.

Há um lado muito descontraído na sua maneira de estar, uma tranquilidade que suponho vir desta sua alegria de brincar de forma séria com os materiais, tal como uma criança que experimenta os lápis de cor, a plasticina, os recortes, mas com a maturidade que os 38 anos trazem.

Tal como o Diogo (Add Fuel), o Mário é uma pessoa organizada que trabalha as suas 6 a 8 horas por dia, que tem serão sem trabalhar, que faz por almoçar com a namorada na praia, que faz bodyboard, mas que não deixa de acrescentar valor, e não deixa de ser produtivo, basta seguir aquilo que ele faz para perceber que não dorme em serviço.

Achei engraçado falarmos em dores de crescimento, na passagem do computador para as paredes, em que há de facto um crescer em termos de maneira de olhar, mas também um lado físico que tem a ver com o ter de desenhar um círculo com 2 metros em vez de fazer um pequeno círculo com o rato.

A fotografia que está aqui em cima mostra aquilo que se sente quando se contacta com o Mário, que estamos com alguém que voltou a encontrar uma profunda alegria em brincar com a plasticina.

 

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Livros sugeridos

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episódio 88 – Diogo Machado aka Add Fuel

O quarto convidado desta semana especial dedicada ao Muraliza, Festival de Arte Mural de Cascais, é o Diogo Machado aka Add Fuel.

O Diogo é um artista que já queria ter entrevistado, mas fui adiando, até que surgiu a bela oportunidade de o “apanhar” durante esta série especial do Muraliza 2015.

O trabalho dele foi-me aparecendo na frente das mais variadas formas, e percebi desde logo que era um artista com um trabalho muito mais profundo do que possa parecer, e não apenas “um gajo que pinta azulejos em caixas de electricidade”.

Neste aspecto, durante a entrevista referi-lhe o facto de achar que o universo que ele representa, é para mim comparável ao trabalho de um Tim Burton ou um J. R. R. Tolkien, no sentido em que existe uma série de personagens, de cenários que vão construindo um mundo próprio, um mundo imaginado por ele, e que os trabalhos são como que fotografias, ou janelas para esse mundo.

Uma coisa que percebi, foi que o trabalho dele é sólido, porque como artista já está num patamar em que só chegam os grandes artistas, que arranjam processos, que têm a disciplina necessária para ser grandes e se manter lá.

Enquanto somos jovens muitos de nós conseguimos compensar a falta de processo, de sistema, de organização, e de disciplina, usando a energia que temos, dormindo apenas duas horas por noite, porque a idade assim o permite. Porém mesmo que consigamos aguentar durante algum tempo este castelo de cartas, eventualmente ele acaba por ruir, pois a solidez é construída da base, da fundação para cima, e é isso que o processo, os sistemas, a organização, e a disciplina têm como papel fundamental, são essa plataforma sólida à qual podemos subir e ver mais longe.

Assim o meu conselho para mim, neste momento, e para a minha versão de vinte anos, é:

“Organiza-te, estuda a tua maneira de estares no teu melhor, cria um sistema, e disciplina-te, para que nos dias em que não apetece, saibas exactamente o que deves fazer, e assim não viverás no arrependimento daquilo que podias ter feito, e daquilo que podias ter sido.”

Ah, e como nota final, nunca é tarde, mas começar hoje é sempre melhor do que amanhã.

 

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Livros sugeridos

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episódio 83 – Tamara Alves

A convidada desta semana é a Tamara Alves, urban artist, ilustradora, tatuadora, alguém que encontrou algo que ama fazer.

O desenho é sem dúvida uma ferramenta muito importante para ela, de tal forma que foi para ela uma surpresa encontrar artistas que não desenhavam quando fez o curso na ESAD das Caldas da Rainha. Gosto bastante dos desenhos, de um lado cru, de instinto que os desenhos têm, de como já a ouvi dizer “pôr o coração cá para fora”.

A Tamara surgiu como sugestão da Lara Seixo Rodrigues, e assim que vi o seu trabalho, percebi que teria de falar com ela. (Aproveito para agradecer à Lara a cedência do espaço para a entrevista, disse-me logo que sim. Lara és a maior.)

Pessoa muito simpática, sem adereços de personalidade, isto é, não senti nenhum tipo barreira, de tentativa de ser outra coisa do que aquilo que ela é. Agora que escrevi isto, percebi a relação com a verdade do trabalho da Tamara, há coerência entre aquilo que faz e aquilo que é, daí ser tão bom.

Houve muita coisa da entrevista que retive, mas gostava apenas de salientar dois pontos, que simplesmente não me têm largado o pensamento desde o dia da entrevista.

O primeiro é o lado de lutar por aquilo que gosta de fazer, sabendo que desde que haja um tecto e comida na mesa, estamos bem, e isso é mais fácil do que aquilo que pensamos. A maior parte de nós, tem é uma bitola muito alta, e ficamos prisioneiros de um salário mais alto, porque ter o último telemóvel, ou comer carne e peixe todos os dias se torna indispensável.

Dentro ainda deste ponto, referir o lado de comunidade, de porto de abrigo, quando a Tamara se despediu e uma amiga lhe diz “quem faz para um, faz para dois”. Mais uma vez, estamos bem.

O outro ponto que me marcou, foi esse lado quase obsessivo, e de também estabelecer um esqueleto, uma estrutura de pensamento, usando o livro do Allen Ginsberg, o Uivo e outros poemas, lendo-o, relendo-o e até reescrevendo à mão.

Há livros que me marcaram, e penso que se os tivesse levado a esse extremo, a vida poderia ter-se tornado mais simples, uma vez que em caso de dúvida, a nossa visão do mundo é mais clara, com menos ruído e confusão.

Não quero dizer com isto, que nos tornemos escravos de uma coerência fundada em pura teimosia, mas sim ter uma estrutura que pode ser revestida das mais diversas formas, que se pode acrescentar, ou retirar, que se move com as ondas, mas que se move em uníssono, e não um monte de fragmentos que andam à deriva no oceano dos dias.

 

 

 

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episódio 73 Hugo Makarov

O convidado desta semana é o Hugo Makarov, um desenhador compulsivo, que conheci através da Sónia Fernandes, essa grande senhora de me apresentar pessoas, e que por acaso apareceu durante a entrevista e se sentou a ouvir a nossa conversa.

A entrevista foi no espaço da cafetaria do Cowork Lisboa, sítio que me tem servido para fazer muitas entrevistas ultimamente.

Das duas ou três vezes que estive com o Hugo, aquilo que passou foi sempre a mesma coisa, alguém que adora desenhar, que desenha enquanto conversa, e que encara as coisas com naturalidade e descontração.

Isto não quer dizer que não tenha ideias bastante marcadas sobre o que quer para si e para os seus desenhos, seja vê-los num anúncio, numa parede, ou mesmo tatuado no braço de alguém.

Já tem um percurso de fazer inveja a muita gente, mas foi ele que o construiu, começou cedo a tatuar, aos 19 anos, mas sempre acompanhado pela sua paixão pelo desenho.

Poderá parecer fácil e simples, o Hugo transmite na sua presença e no seu discurso, uma força que parece não ter limites, que não se cansa, uma energia silenciosa, mas que sentimos poder mover montanhas, algo que me parece a mim ser aquilo que tenho pouco, determinação.

Foi relativamente simples perceber que a influência da paixão do pai do Hugo pela banda desenhada, teve na escolha de forma de expressão, como o Hugo diz, o pai é um apaixonado pela mesma, e é engraçado de ver a referência que o Hugo Pratt é para o Hugo Makarov, dizendo mesmo que se pudesse viveria a vida do referido autor.

Seja alguém que conhecemos pessoalmente, alguém que vemos nos jornais, ou tão somente alguém que admiramos o trabalho, devemos ter ídolos, mestre, mentores, o que lhe queiramos chamar, são eles que nos indicam o caminho, porque ninguém consegue chegar onde tem de chegar, sozinho.

 

episódio 31 David Oliveira

O convidado desta semana é o David Oliveira, ele é escultor, e tomei contacto com o seu trabalho através do meu amigo e anterior convidado Rui Viana, que me mostrou umas fotografias de alguns trabalhos do David.  Fiquei absolutamente fascinado com a nobreza que o “simples” arame ganha, quando o David pega nele e desenha no espaço.

Procurei o contacto no mesmo instante em que vi as fotografias, e no mesmo dia o David concordou em conversar comigo na minha casa.

Mesmo antes de pôr o gravador a funcionar e começar a entrevista, estivemos um bocado à conversa, sobre desenho, a arte, a sociedade, o fazer o que se gosta, e a conversa continuou por mais uma hora depois de carregar no botão de stop do gravador.

Daquilo que me deu para conhcer do David na manhã que passei com ele, as suas esculturas têm muito a ver com o que ele é, uma força tranquila, uma leveza no trato, e uma complexidade transparente à qual não conseguimos ser indiferentes.

O nosso convidado também teve da parte dos pais aquela conversa que muitos de nós ouvimos dos nossos, sobre seguir uma carreira artística mas apenas como “hobby”, arranjar um trabalho das 9 às 5, e no tempo livre ser artista. Porém no caso do David isso não o impediu de tentar viver como artista, e como ele diz, considera sim a hipótese inversa, ter um emprego como “hobby”.

Gostei muito de conhecer o David, de ver que quando se faz aquilo que se gosta, se assume uma determinada escolha feita, as coisas acabam por acontecer, pode não ser fácil, mas o caminho alternativo, embora o possa parecer, não será mais fácil, pois viver todos os dias a fazer algo de que não se gosta para poder ter um telemóvel de última geração, não é, na minha opinão, fácil.

Falámos de muitas coisas, mas as coisas que mais retive da nossa conversa, foi uma serenidade que o David transmite ao falar das suas escolhas, dos seus hábitos, e também o facto de ele dizer que fala consigo próprio na terceira pessoa, que se chama à razão, algo que também faço, que todos deveríamos fazer, mas deveríamos falar connosco próprios como gostaríamos que os outros nos falassem.