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episódio 122, Henrique Santos

O convidado desta semana é o Henrique Santos, educador de infância, que me foi sugerido pelo anterior convidado Filipe Lopes.

Fui ter com o Henrique à escola onde ele dá aulas, apresentou-me aos seus alunos, fomos almoçar, e depois disso, fomos com calma gravar.

Este é um episódio diferente, não houve tanto um tom nos processos, houve sim muita reflexão sobre o ênfase excessivo que é colocado em certas disciplinas dos currículos escolares, como a matemática e português, e pouco ou nenhum, noutras como as artes ou filosofia.

O Henrique tem uma preocupação, uma consciência de servir, de missão, no seu papel como educador, sente-se que não passa por achar que tem a ver com ele, mas sim com o que é importante para criar seres humanos solidários, com valores.

Nas escolas hoje em dia é dada (quanto a mim) demasiada importância a resultados, e pouco aos valores.

Existe um foco apenas em quantificar saber, sem haver interesse sobre que alunos são estes, de que formam tratam os seus pares, os seus educadores, os seus pais, e todas as pessoas com quem no seu dia a dia se cruzam.

Referiu-me que lhe faz falta o feedback, a comunicação com os pais para reflectir sobre o seu desempenho, sobre a maneira como desenvolve o seu trabalho, e ao haver uma distância entre  o papel dos pais e dos professores cria-se espaço para existir algo que ele falou, que é o síndrome dos pais separados. As crianças percebem que ao serem o canal de comunicação conseguem gerir de forma que lhes convenha, o que os pais sabem sobre a escola, e o que os professores sabem da relação com os pais.

É importante, é mesmo essencial que os pais participem, que sejam presentes na escola dos filhos. Não digo com isto que sejam um estorvo, mas que ajudem, dando sugestões, estando atentos a práticas que considerem poder ser melhoradas, e apoiando os professores no objectivo comum que é crianças que cresçam seres humanos felizes e com valores.

Eu sou um pai que está presente, que conhece os pais dos colegas das minhas filhas, sobretudo na escola da minha filha, faço parte de um grupo de teatro, que me permitiu mais facilmente me integrar, perceber as dinâmicas da escola, e entender de que forma poderia contribuir, tornado a escola melhor para a minha filha e para os outros alunos.

O Henrique tem um projecto fora da escola, a Try-Out Kids, que realiza campos de férias e actividades ao livre no concelho de Mafra, e sentiu na pele o querer desenvolver a sua ideia, e encontrar localismos, desconfiança por não ser da terra, fazendo com que tivesse de recorrer no primeiro ano de actividade a agentes exteriores ao concelho.

É difícil muitas vezes as pessoas perceberem que se nos juntarmos, conseguimos todos ganhar mais, numa mentalidade de abundância o meu contributo junto com o teu tem muito mais força, mais impacto, e dessa forma mais retorno, porém numa mentalidade de escassez, se tu ganhares algo, implica que eu estou a perder algo, e aqui voltamos à questão da educação, pois a quantificação e competição resultante de exames, separa as crianças, faz com que cresçam a entender os colegas como rivais e não como parceiros.

A escola tem de mudar, tem de deixar de ser o sítio onde é debitado conhecimento, mas sim o sítio onde vamos experimentar, falhar, colaborar, questionar, e como consequência, crescer e vencer, todos.

 

 

 

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episódio 118, Filipe Lopes

O convidado desta semana é o Filipe Lopes, contador de histórias, tem um projecto muito interessante, o “A poesia não tem grades”, e foi-me sugerido pela anterior convidada e amiga, Edite Amorim.

O Filipe tornou-se ouvinte do podcast quando tomou conhecimento do mesmo, e disse-me que uma vez que já existem tantos episódios, tem sido para ele muito bom, pois são companhia nas viagens que faz.

Entrevistar ouvintes pode ser mais difícil, pois conhecem algumas perguntas que costumo fazer, sim, algumas são comuns, mas percebo o desafio de estar ainda mais presente, para perguntar sobre aquilo que está a ser dito, e não seguir uma agenda muito rígida.

Cada vez mais me convenço que é através da capacidade de fazer falar outros, que adiciono valor. Sempre fui o menino com a mania que sabia, e com a resposta na ponta da língua, mas a ouvir é que se aprende, não a falar. E eu quero aprender, tenho uma fome gigante de saber, digiro é mal tanta informação, por isso tenho de “comer” mais devagar, saborear melhor, as conversas, os livros, as pessoas, a vida.

Enquanto agora escrevo, só me ocorre esta passagem da canção do António Variações.

“…não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder

Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar
O meu mundo
O meu lugar
Porque até aqui eu só:
Estou bem aonde eu não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não estou”

Os livros sempre foram para mim momento de sair de mim, de descansar, preciso deles, mas percebo que só com uma boa digestão, sairei nutrido.

O Filipe teve no seu início de carreira como contador de histórias uma experiência que o fez perceber claramente, que contar histórias não é sobre nós, é sobre quem nos ouve, é para o outro. Por isso é essencial deixar o ego de fora.

Há muita humanidade e profundidade no Filipe, é genuíno, e pena tenho que projectos como o dele tenham de lutar tanto com questões triviais como financiamento.

Podemos evitar problemas, ou remediá-los. É mais fácil, rápido e barato evitar, mas é muito mais visível remediar. Essa é a razão porque se gasta mais dinheiro a tratar doentes, do que a evitar que as pessoas se tornem doentes. É mais fácil condenar e prender, do que ter políticas de prevenção de comportamentos de riscos, dando alternativas aos jovens como a arte, ou o desporto.

Pessoas esclarecidas, e sãs, mais dificilmente cometem crimes. Condenemos o crimes, mas primeiro tentemos salvar as pessoas.

O livro que o Filipe mais ofereceu, o Balãozinho Vermelho de Iela Mari.

Foto do Filipe tirada por Vitorino Coragem, ao qual agradeço o uso da mesma.