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O preço do lado negro

“My experience with high performing individuals – that very last percentage of high performers – is that they either suffered trauma or humiliation or both. Because what would justify to develop that above average drive and ambition.”

Toto Wolf

Quanto é que pagamos todos para explorar os lados negros dos prodígios?

Porque razão somos tão críticos com este ou aquele atleta famoso, aquele actor vencedor de óscares, no momento em que descobrimos que cometeram um crime, que foram apanhados a beber uns copos, ou aquele empreendedor ambicioso que não prestava atenção aos filhos?

Tenho pensado muito na relação entre alta performance e desequilíbrios, emocionais, mentais, e acima de tudo a responsabilidade que todos temos no alimentar destas coisas.

Adoramos bater palmas, emocionamo-nos com feitos quase sobre humanos, valorizamos o sacrifício diário que muito atletas têm de se levantar às quatro, cinco da manhã para às seis estarem dentro da piscina, ou o caso  do empreendedor que trabalha dezasseis horas por dia.

Mas qual o custo disto para estas pessoas, para as pessoas à sua volta, e para nós enquanto sociedade?

Tenho mais perguntas do que respostas, tenho questionado muito as motivações dos “high performers”, como diz a frase do Toto Wolf por baixo dessa fome do sucesso, dessa vontade compulsiva é raro não estar um desequlíbrio, um vazio que é preciso preencher.

Porque razão aplaudimos em vez de tratar?

Será preciso tratar?

Poderá a performance elevada, a motivação, a fome de sucesso ser uma forma de minimizar os possíveis riscos associados a esses problemas emocionais que são a base que leva a que as pessoas se superem, e que superem aquilo que consideramos possível?

É fácil misturar tudo, ser tudo problemas piscológicos, patologias, ou não ser nada, que não há patologias, que são simplesmente seres humanos a tentar dar seu melhor, a explorar limites, o difícil é perceber o que é patologia, e o que é exploração, mas se ficarmos demasiado focados nos resultados das performances, preferimos não ver aquilo que são por vezes problemas graves. Pior é ainda quando alimentamos algo que percebemos ser disfuncional para servir algum propósito estilístico, artístico, ou até mesmo monetário.

Ontem vi o documentário “Jim and Andy”, sobre o filme “Man on the moon” onde o Jim Carrey interpreta o comediante americano Andy Kaufman, e tanta coisa me fez confirmar este aproveitamento que fazemos das “disfunções” artísticas.

O Jim Carrey fez o filme como se tivesse sido possuído pelo espírito do Andy Kaufman, e também de um outro personagem criado pelo Andy Kaufman e o Robert Zmuda, o Tony Clifton, são momentos intensos, por vezes perturbadores, durante as filmagens onde o Jim não desmancha o personagem, vivendo durante o tempo que o filme foi rodado como se fosse uma reencarnação do Andy.

Há um momento durante as filmagens que as coisas estão a começar a ficar descontroladas e o realizador Milos Forman fala com o “Andy” ( o Jim deixou de assumir que era ele próprio, respondia como se do Andy se tratasse ), e o “Andy” questiona o realizador se quer que seja o Jim Carrey a fazer o filme, mas que ele acha que ele fará um mau trabalho, a resposta é para deixar as coisas como estão, isto é, continuar com um modo quase disfuncional de representar onde o actor deixa de existir, sucubimdo às exigências de um espírito encarnado dentro do actor.

Seria uma performance tão impressionante e tão genuína se o Jim Carrey não tivesse levado as coisas a um tal extremo?

Não sei, sei que quando acabou a rodagem do filme ele não sabia bem quem era, sabia que todos os problemas que tinha enquanto Jim continuavam lá, sabia que tinha tudo o que normalmente as pessoas querem, fama, sucesso, dinheiro, mas estava perfeitamente infeliz, tal como  o tenista André Agassi partilhou na sua autobiografia “Open” que foi o número do mundo mais infeliz.

Se não é a fama, o reconhecimento, o dinheiro que traz a realização a estas pessoas, serão tudo doenças a tratar?

Devemos nós simplesmente tratar as pessoas para nunca desejarem ser mais, alcançar mais?

Há algum problema em ser mediano?

Somos todos escravos da pressão para sermos excepcionais?

Numa outra ocasião, o Michel Gondry, outro realizador disse ao Jim Carrey (que tinha tido um desgosto amoroso) – estás tão lindo destroçado, mantém-te assim. Esse manter era com o objectivo da performance que ele teria num próximo filme cuja rodagem só começaria daí a um ano, o que é muito tempo para alguém se manter “destroçado” pela autenticidade de um personagem.

Valerá mesmo a pena?

Num artigo que li também esta semana dizia que talvez fosse mais acertado ter compaixão por aqueles que atingem mais do que o normal, os “over-achievers”, mais do que inveja, mais do que desejarmos ser como eles, ter aquilo que eles têm, seria mais saudável darmos graças de não termos aquela necessidade avassaladora de mostar ao mundo os nossos dotes, as nossas capacidades, que nada nos pára, que somos capazes do impossível. Não fui na conversa. Desculpem, não vou nisso.

Ao partilhar este artigo num grupo que faço parte no facebook, questionei o que as pessoas achavam, se concordavam, se achavam que seria possível alta performance sem o tal lado negro, e qual o meu espanto quando o surfista de ondas grandes Tom Carroll bi-campeão mundial, me responde que segundo ele, não é possível, que o lado negro é parte, é necessário para que os tais resultados de excepção apareçam.

Ora, se é necessário, qual a dose certa, e como perceber se estamos a ser demasiado duros connosco e como consequência, com as pessoas que amamos?

Qual a maneira de saber onde está a linha entre motivação e obcessão?

Quando é que deixa de ser saudável?

E mais importante de tudo, qual o preço que estou disposto a pagar?

Não ter uma motivação elevada, não significa que não hajam questões a abordar e a resolver, não quero que fiques a achar que estás bem só porque não te apetece alcançar mais, pode ser que simplesmente te estejas a esconder com medo de dançar com o teu lado mais escuro.

Todos os que admiramos, de alguma forma dançaram com o seu lado mais escuro, as suas inseguranças, e foi lá que encontraram as forças para se superarem e tornarem a sua vida mais plena, mesmo uma mãe que se levanta às seis da manhã para preparar o almoço dos filhos e depois os levar à escola dança com o seu desejo de dormir mais, e com o desejo de querer ser uma boa mãe, ou até mesmo dançar com as expectativas de não ser vista como uma má mãe. Há um sem fim de histórias de antepassados nossos que se levantavam antes do sol nascer, trabalhavam um dia inteiro, dias, semanas, meses, anos a fio sem nunca ninguém os ouvir queixar, o que não significa que não lhes apetecesse largar tudo, reclamar, chorar, bater, espernear, todos temos essa capacidade de ser o melhor e o pior, os que encontram alguma paz são aqueles que sabem o porquê daquilo que estão a fazer, mas um porquê que é importante para eles, não para cumprir expectativas, não para suprimir uma falta que tiveram na sua infância, uma humilhação que sofreram.

Já pensaste porque razões fazes o que fazes?

Ou as razões para não fazeres o que não fazes?

Este lado negro que estive aqui a falar é saudável, pode ser, acho que é o nosso medo de o aceitar, de o conhecer, que faz com que não queiramos falar abertamente dele, escolhemos não ver, por essa razão sugerimos logo medicação para a depressão, afastamo-nos daquele amigo ou familiar que está mais em baixo, não queremos apanhar aquilo de que ele sofre, mas no dia em que aquele amigo escreve um livro fantástico porque encarou e dançou com o seu lado negro, aplaudimos, referi mos em conversas que o conhecemos, tentamos então nessa altura ser contaminados pelo seu lado luminoso, o seu sucesso, o mesmo portador que anteriormente fugimos, e nos afastámos.

Se há alguma aprendizagem que retiro disto, alguma conclusão a que cheguei, é que tratamos demasiado cedo e aplaudimos demasiado tarde.

Parece que necessitamos de ver uma medalha, que só o vencedor merece ser reconhecido pelo esforço, a dedicação, quando até um quinto classificado tem de colocar tudo isso no seu treino.

Não é necessário esperar que tudo comece a rebentar pelas costuras para perceber que que há coisas que temos de alterar, ter uma perspectiva mais alargada do que estamos a fazer, e porque é que estamos a fazer e para quem é que estamos a fazer.

Somos rápidos a procurar uma cura para aquele desconforto, aquela inquietação, um penso rápido para nos sentirmos melhor, mas também somos muito lentos a reconhecer aquilo que já conseguimos atingir, que já cresecemos bastante, que somos hoje melhores que ontem, e é neste exercício de equilibrismo, nesta viagem permanente entre o que fui e o que quero ser que estamos em paz, felizes por estar tão somente no meio, aqui, no presente.

“Maybe you have to know the darkness before you can appreciate the light.”

Madeleine L’Engle

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