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A voz dentro da minha cabeça

“The most important voice in your life is one that no one ever ears, it´s the voice inside your head.”

Jim Loehr

A voz que tenho dentro da minha cabeça.

A voz que tenho dentro da minha cabeça fala muita vez comigo, o dia todo, constantemente, nem sempre da melhor forma.

E tu? Que voz fala contigo? Mais concretamente, como é que fala contigo?

Num podcast que ouvi outro dia do Tim Ferriss, ele dizia que:

“Se queres ter sucesso de forma holística, se queres amar plenamente as pessoas de quem gostas, e fazê-las sentir isso, não o conseguirás fazer se simplesmente te tolerares.”

E isto pôs-me a pensar na forma como falo comigo, como falo com os outros, como amo e como me tolero.

É um clichê dizer que temos de gostar de nós – se eu não gostar de mim quem gostará – sempre achei conversa da treta, new age stuff, da malta do paz e amor, até ao dia que comecei realmente a ouvir essa voz que fala comigo, essa voz interna que interpreta tudo o que me acontece.

Tenho 41 anos, e acho que só me apercebi bem desse discurso interno há 2, 3 anos, por isso acredito que muita gente ande por aí sem se aperceber do tom.

Acho que só me apercebi porque medito há oito anos, e escrevo regularmente num diário há quatro, e é nesses momento de paragem, de abstracção que a voz se torna mais clara, e foi precisamente numa dessas sessões de escrita que consegui “ouvir” o tom agressivo com que me dirigia a mim. Neste momento já várias pessoas estão a chamar uma ambulância com uns senhores que nos vestem uma gabardina que abotoa atrás, a achar que me passei de vez.

São muitos  anos a ouvir a voz dos nossos pais, amigos, professores, e um sem fim de gente que vai criando um ruído interno que nos dirige, mas que não é claro, e acima de tudo é confuso, desorienta, no entanto são sobretudo ordens aquilo que nos dizemos, críticas, construídas na maior parte dos casos sobre histórias que contamos a nós próprios sobre algo que aconteceu, mas com um filtro turvo e sem cor definida.

“So both the nature and nurture to me are not empowering in terms of personal identity formation because I don’t really have control over either what I do have control over is narrative. So when we think about nature and nurture I feel safe to think about narrative because at the end of the day I find we become the stories that we tell ourselves we may not be aware of the stories we’re telling ourselves.”

Varun Soni

Será então essa história mesmo nossa? Se não há certezas se é o ambiente ou a nossa natureza que determina o que fazemos, a única coisa que temos a certeza e o poder de mudar, são as histórias que fazemos sobre a nossa realidade, sobre o que nos acontece.

Um instrumento desafinado, ou muitas músicas ao mesmo tempo, tornam-se só ruído, confusão, é então necessário afinar o instrumento, mas acima de tudo conseguir ouvir a nossa verdadeira melodia.

Eu ao aperceber-me da maneira como me dirijo a mim, comecei a questionar essa voz autoritária e crítica, se não poderia haver outra perspectiva, uma mais bondosa e tolerante, sim porque, acima de tudo essa minha voz é intolerante. Neste momento está a dizer – lá estás tu com a mania que aquilo que escreves interessa a alguém, e vê lá o que vão pensar de ti – ao que lhe respondi, que isso agora é irrelevante, é importante é repensar esta história que me tem guiado até aqui, e que ao escrever, se torna tudo mais claro.

Quanto mais tenho lido, e sobretudo partilhado sobre esta minha voz, mais casos, exemplos vou conhecendo de outras vozes internas, e o padrão mais comum é a voz não ser simpática e intolerante.

Com certeza já ouviste o conselho de falares contigo como se falasses com um amigo, e dessa forma percebes que falas contigo de forma muito mais agressiva ou derrotista do que se um amigo teu viesse desabafar sobre um problema ou uma insegurança.

Porque razão o fazemos?

A generalização é coisa perigosa, e sei que há pessoas que não se tratam mal, mas essas pessoas ou lhes saiu  a lotaria pela educação e percurso que tiveram, ou já fizeram esse trabalho de autoconhecimento.

Estou a frequentar uma pós-graduação em Psicologia do Desporto, e em várias aulas, diria quase todas, surge o assunto do autoconhecimento, performance sem isso fica muito abaixo do que poderia ser, por essa razão é fácil perceber que quem chega mais longe, é porque se conhece bem. Se eu me conheço bem percebo quais são as minhas forças e também aquelas partes, que chamaremos de fraquezas, mas que no fundo são apenas partes de mim que podem ser suportadas pelas minhas forças, ou pelas forças de outros com quem me relaciono.

Sou fraco em termos de organização, por isso procuro criar formas de envolver outras pessoas, criar prazos, rotinas ou constrangimentos que me forçam a focar. Neste caso uso  a minha força de ser responsável para compensar a falta de organização.

Todos ouvimos milhares de vezes que ninguém é perfeito, até o digo quando a coisa corre mal, mas achamos sempre que é só conversa e que aquele nosso ídolo é perfeito, que faz tudo bem, e mais dia menos dia chega-nos aquele choque tremendo de descobrir que conduz bêbado ou que tira macacos do nariz. Também do episódio do Tim Ferriss que já referi retive a noção de que é possível amarmo-nos sem sermos perfeitos, da mesma forma que amamos o nosso clube mesmo quando não ganha, o nosso país mesmo com corrupção, ou os nossos filhos mesmo quando fazem birras, mas tudo se torna mais complicado no que toca a amarmo-nos sendo imperfeitos, não fazendo tudo o que a tal voz exige de nós, ou que gostaríamos de fazer.

Noutro podcast o Seth Godin contou como um dia conseguiu ouvir claramente essa voz interna, mas também percebeu que poderia questioná-la, pô-la em causa, mas sobretudo não lhe dar ouvidos, e mudou esse discurso interno. O nosso poder é escolher, se prestamos atenção ao que nos faz crescer, ou ao que nos mantém pequenos. Por exemplo a minha filha mais nova, sem ninguém lhe ensinar, automotiva-se, desde os seus 3 anos, dizendo  – “Vai M tu consegues, força M, tu és capaz”. Parece-me uma estratégia muito mais eficaz do que a voz que nos diz –  “Mas quem és tu para achares que consegues?”.

Eu senti a necessidade de escrever isto para mim, para me ler com outros olhos, me ouvir a cantar outra música, e acredita que a vozinha esteve muitas vezes a criar cenários de como a minha imagem iria ficar comprometida, que muitos ouvintes do podcast deixariam de ouvir o Falar Criativo, que com estes textos vou parecer lamechas, sensível, mas lá está, escolhi escrever, partilhar, algo que sei que me faz crescer, porque me causa desconforto, mas acima de tudo me faz crer que sou capaz de muito mais.

Acredita, tens escolha, por isso escolhe a narrativa interna que te alimenta e faz crescer.

Qualquer dúvida, sugestão, crítica, envia para rui@falarcriativo.com

episódio 63 Elsa Serra

A convidada desta semana é a Elsa Serra, uma contadora de histórias, que me foi sugerida pela Rossana Appolloni, que me disse que havia uma pessoa que tinha como profissão “contadora de histórias”! Fiquei curiosíssimo de falar com ela, de perceber o que é um contador de histórias, e como isso se faz.

O percurso da Elsa é não-linear, como muitos dos convidados do Falar Criativo, onde um sonho de ser atriz se cruza com circo, com escrita.

Acredito que a capacidade de contar histórias, de humanizar dados, factos e até coisas, é uma ferramenta que todos deveríamos possuir, pois no nosso dia-a-dia, as ligações que criamos com as pessoas que nos rodeiam, passam muito pelas histórias que vivemos e pela forma que partilhamos as coisas que nos acontecem, levando os ouvintes numa viagem connosco a sítios tão banais, como uma ida ao supermercado que se torna numa epopeia só porque nos esquecemos da carteira em casa, e o relato emociona quem nos ouve, e de alguma forma sente que também ele se esqueceu da dita carteira.

Os criativos, sabem criar, daí o adjectivo que se lhes refere, e essa capacidade tem de ser usada para envolver os destinatários daquilo que criam, passar a informação sobre os seus quadros, os seus potes, o seu design, etc., de forma que seja retida por quem será “comprador” daquilo que vendem. Como a Elsa diz na nossa conversa, 90% da informação é retida se for contada sob a forma de história, contra uns meros 34%, se for apenas um relacto de factos. A história apela a todos os nossos sentidos, inclui-nos, os factos são apenas “razão”.

Como diz a Elsa no seu site, “Contar uma história é um exercício de intimidade”, e todos, sem excepção, ansiamos por esse toque, por essa intimidade da partilha mágica de emoções.