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episódio 125, Afonso Cruz

O convidado desta semana é o Afonso Cruz, escritor, ilustrador, realizador, e músico, que eu há muito gostava de ter entrevistado, desde que ouvi a entrevista que ele deu à Inês Meneses no Fala com Ela, mas que me fez ir adiando, pois acho que a conversa entre os dois foi muito boa, e havia o receio de me comparar, e falhar.

Mas um destes dias, ao ler um texto do Afonso, partilhei-o e na partilha disse que gostava de conversar com ele. Minutos depois, o Filipe Lopes, anterior convidado, e a Edite Amorim anterior convidada, puseram-me em contacto com ele através do facebook, o que mostra que estamos todos muitos próximos e disponíveis para ajudar.

Combinámos o dia e eu iria deslocar-me a Avis no Alentejo, onde ele vive, mas sorte a minha e disponibilidade dele, veio à Feira do livro de Lisboa, e acabou por passar antes cá em casa para conversarmos.

O Afonso é um grande escritor, com prémios já no seu currículo, e acho que vai ser ainda maior, tem uma maneira cativante de escrever, muito criativa, é produtivo, e tem a noção do ofício da escrita, algo que faz faltas a muitos de nós, nos quais me incluo, esta noção que há um lado oficinal, pragmático quando queremos desenvolver a nossa arte, seja ela escrever, pintar, desenhar, inventar, e até fazer podcasts. A repetição, a tentativa, a experimentação, são ferramentas essenciais para o crescimento, a evolução, é nestas iterações que percebemos o que faz ou não sentido, onde podemos melhorar, e de que forma.

O seu processo criativo é interessante, trouxe-o da animação onde trabalhou, onde define um início, e um fim, e um meio, e vai preenchendo os meios que existem entre dois momentos, simples e eficaz. Tenho reflectido sobre esta maneira de trabalhar, e admito que me agrada como estrutura de trabalho, e até como estrutura de vida, pois, torna-nos conscientes de onde estamos, o nosso início, estabelecemos um fim, o objectivo a alcançar, e vamos pensando como poderemos ir preenchendo as partes que ainda não sabemos, mas que podemos apontar como possibilidades, com a vantagem de sermos tolerantes com as mudanças de objectivos, caso faça sentido, e atentos às respostas que nos podem surgir, uma vez que vamos construindo uma narrativa que vai ganhando sentido, com pontos intermédios aos quais vamos apontando.

A entrevista é longa e cheia de sabedoria, de alguém que tem tido confiança no seu trabalho, que tem a coragem de ser freelancer desde o início da sua carreira, coisa que eu gostaria, mas não tenho a coragem, pois ao contrário dele, se o mês se aproxima do fim e não há muito trabalho/dinheiro,  acredito mais que ele não vai surgir, do que tudo se resolverá e vai correr bem. Percebo que o seu método, a sua experiência, não são comparáveis à minha, percebo que o trabalho com espinha dorsal tem muito mais possibilidade de ser bom. Se eu partir para uma viagem sem saber para onde vou, porque vou, dificilmente encontrarei aquilo que pretendo, serei apenas alguém à deriva, e esse tem sido muito do meu percurso, arrancar sem destino nenhum, como diziam os Trovante na sua 125 Azul, e embora me tenha encontrado com muita gente interessante, não sinto que tenha feito nada digno de nota. Talvez me exija demasiado, mas provavelmente a minha insatisfação, seja o motor para continuar a fazer, para fazer mais e melhor.

Vou tentar desenhar as minhas ideias e projectos desta forma, preencher espaços, pergunta a pergunta.

Foto: Vitorino Coragem

David-Soares-blog

episódio 108 – David Soares

O convidado desta semana é o David Soares, escritor, uma das pessoas sugeridas pelo anterior convidado, o André Oliveira.

Foi o próprio André que lhe falou no podcast, e no meu interesse em entrevistá-lo.

Feita a ponte, combinei com o David no Centro Cultural de Belém, e à hora combinada lá nos encontrámos.

Enquanto o David tomava um café fomos conversando, e posso dizer que fui entrevistado por ele, entre várias perguntas, quis saber de todos os convidados, quais tinham sido os meus preferidos.

Lá lhe disse alguns, mas saliento que todos foram importantes, claro por razões diferentes, e em momentos diferentes.

Tenho um fraco pelo ofício da escrita, sobretudo pela ficção, essa capacidade de imaginar mundos, universos, de criar emoção em quem lê, e sem lhes tocar ter a magia de os fazer viajar, viver aventuras.

Falámos muito sobre o que é o seu universo autoral, de que ideias têm o direito a ser trabalhadas, a busca do tom, o como, a importância de ter coisas para dizer.

A nossa conversa foi longa, mas garanto que houve muitas coisas que gostava também de ter perguntado, tal é a riqueza do processo dele.

O David é bastante sereno, e devo confessar que pela investigação prévia que tinha feito, e por sentir alguma reserva inicial, eu estava no início com algum receio de não estar à altura do escritor que tinha pela frente.

Mas como ouvi outro dia, se estivermos dispostos a ouvir, saberemos o que dizer.

No momento em que em que comecei a gravar decidi, ouvir, ouvir com muita atenção, aproveitar ao máximo a oportunidade que tinha pela frente, de ouvir na primeira pessoa o processo de alguém tão respeitado, com obra feita, e bem feita.

É por causa destas oportunidades que vale a pena a parte de esforço que faço para todas as semanas, desde Dezembro de 2013, ter um episódio disponibilizado para outros ouvirem, dignificando os meus convidados, e inspirando quem os ouve.

Tantas coisas que poderia partilhar aqui, e que aprendi nas quase três horas que estive com o David, mas a mais importante é a de ter a “loucura” de estar perante uma mudança, e dar um passo em frente com a confiança que vale a pena.

Livros sugeridos, foram muitos, mas aqui ficam links para alguns.

  1. “Tambor de lata” do Günter Grass.
  2. “Stoner” do John Williams.
  3. “Darconville’s Cat” do Alexander Theroux.