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Nem sequer doeu

“O meu falhanço favorito são todas aquelas vezes que me espalhei como cómico no palco.

Porque acordei no dia a seguir e o mundo não tinha acabado.”

Patton Oswalt

Ontem saltei de uma altura de seis metros, e hoje estou vivo.

Saltei de uma prancha, e aterrei na água, são e salvo.

Quantos dos teus medos, aqueles que tentaste encarar, correram pior do que aquilo que esperavas?

Temos esta tendência para nos preocuparmos com muita antecedência, e com muita intensidade, olhamos para os obstáculos no nosso caminho como fonte de ansiedade, mas na maior parte das vezes não se revelam assim tão graves.

A semana passada experimentei não escrever texto, simplesmente falar para o microfone sem saber muito bem por onde a conversa me levaria, não editei, e com receio, publiquei.

Nada aconteceu, a não ser um tweet de um ouvinte, a referir que achava realmente importante esta componente de estar aberto ao não saber no processo criativo. De resto, o mundo continuou a girar da mesma forma.

Mas não o meu mundo, cá dentro cada experiência que receio mas depois executo, torna-me mais forte, mais coinfiante, não que passasse a achar que sou capaz de tudo, mas mais confiante de o que quer que aconteça não é o fim do mundo, que o medo de tentar é infinitamente superior às consequências.

O mais fascinante é entendermos que todas as vezes que nos desafiamos, crescemos, mesmo que as áreas não sejam as mesmas, há transferência de confiança de umas para as outras. Por isso é importante irmos todos os dias criando situações em que encaramos este ou aquele receio, por exemplo, se tenho medo de falar com estranhos (coisa de que sofri, mas que estou bem melhor), o desafio é dizer bom dia à pessoa na caixa do supermercado, e fazer um qualquer comentário, por mais idiota que possa ser, do género – o tempo anda esquisito – ou – o que faz falta é mais alegria à face da terra – qualquer coisa. O que vai acontecer, é que mesmo que essa pessoa fique a olhar para ti de forma estranha, ou te responda mal, tu vais terminar essa interação sabendo que és capaz, e que as consequências dessa tentativa são minúsculas.

Todos os grandes artistas, músicos, atletas, foram e são aqueles que têm a coragem de ser gozados, de se magoarem, de falharem, mas até a questão de falharem é uma questão de prática, a exposição progressiva aos nossos medos imaginados torna-nos mais resilientes, e se há algo que tenho a certeza que faz parte de qualquer grande carreira é a capacidade de superar o desconforto.

Nenhum dos meus convidados, nenhum, volto a dizer, nenhum, pode dizer que nunca se confrontou com uma decisão em que sentia que não tinha tudo o que era preciso para só se ver a ser bem sucedido. A dúvida, faz parte do processo, a única certeza que poderás ter é saber que nunca será tão grave como prevês. Claro que falo aqui em coragem que não passa por saltar de aviões sem pára-quedas, mas sim a coragem de ser visto.

Temos receio de nos expormos ao mais insignificante dos desafios, e depois queremos estar preparados para os grandes. Não dá.

Se queres ser empreendedor, um artista conhecido, ou ser o melhor pai que podes ser, vais ter de confrontar com os teus receios, vais ter de ter conversas difíceis, vais ter de arriscar a ser o teu melhor, mas a boa notícia, é que depende de ti, e que podes ir molhando os pés, em vez de te atirar de cabeça.

Se eu te disser que tens de correr dez quilómetros, tu aceitas que deve haver uma progressão, cinco minutos a andar hoje, 2 minutos a correr amanhã, e por aí fora.

Então porque razão, a coragem havia de ser diferente?

A coragem, como muitos já disseram, não é a ausência de medo, é agir apesar do medo.

Eu estava cheio de medo quando me vi naquela prancha, e quando as minhas filhas me perguntaram, se tinha medo, disse-lhes que sim, mas viram que isso não me impediu de saltar. Também aqui temos muitas vezes receio, de admitir perante os outros que sentimos medo, mas quem não sente medo, ou é mentiroso, ou está morto.

Da próxima vez que sentires um pequeno receio, mesmo pequeno, dar um salto, ter uma conversa difícil, faz algo que te deixe ligeiramente desconfortável, por mais pequeno que seja, lembra-te que estás a treinar, aceita que pode correr mal, mas confia que não é o fim do mundo se falhares.

“Sofri muitas catástrofes na minha vida, a maioria das quais nunca chegou a acontecer.”

Mark Twain

Dúvidas ou sugestões, comentários, rui@falarcriativo.com

Medo e Treino

“Denonimado o teu medo deve ser, antes de banir o conseguirás.”

Yoda, Star Wars

Esta frase dita de forma confusa pelo Mestre Yoda da saga Star Wars, quer dizer que enquanto não chamarmos o nosso medo pelo nome que tem, nunca seremos capaz de o superar.

Temos resistência em admitir que temos medo, como se ao reconhecê-lo o estivéssemos a validar, a dar-lhe permissão para tomar conta de nós, mas a minha experiência é precisamente a contrária, quando tenho a coragem de admitir para mim mesmo que estou com medo, e depois disso começar a investigar qual o verdadeiro medo que se esconde atrás de uma prima mais aceite e subtil que é a ansiedade.

Há uns meses que estou a passar por uma situação algo complicada, a qual ainda não posso partilhar, que me tem feito andar numa montanha russa de ansiedade, quer seja na subida, quer seja na descida, e a ansiedade corrói lentamente, uns dias passa a pânico, limita, mas na maior parte dos dias faz-me simplesmente funcionar a menos de metade da capacidade.

No início desta semana estava prestes a rebentar, andava a corroer-me há alguns dias, mas neste caso o rebentar era mais por dentro, a conduzir-me a um lugar de apatia, desânimo, depressão.

“Aquele que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.”

Séneca

Aprendi que quando sinto que tudo está por fazer, que nada está no meu controlo, que estou vulnerável ao que o mundo envia na minha direcção, é altura de parar, pegar no diário, confrontar-me comigo, os meus medos, a minha ansiedade. Foi o que fiz.

Comecei a dar nome ao que sentia, deixa de ser só uma impressão, algo vago, tem nome, existe no papel, não estou mais num ciclo vicioso de vozes divergentes e confusas que se tornam apenas ruído paralisante. Quando escrevo não consigo escrever todas as vozes ao mesmo tempo, têm de se chegar à frente uma de cada vez, e assim mais facilmente as identifico e quais as suas razões, motivações.

Dos tais medos que tenho, surgiram, medo de que me gritem, medo que me agridam, medo que me ignorem, medo de ser incapaz de me defender, medo de passar fome, medo de sofrer lesões graves, de não ter qualquer capacidade para agir em meu benefício e protecção. A pouco e pouco, ao ver todos esses medos alinhados a olhar para mim, comecei a dialogar com cada um rebatendo os seus argumentos, dando exemplo de situações pelas quais já passei em que reagi, que me defendi, que gritei de volta, que bati de volta, que simplesmente ignorei e segui a minha vida, que mesmo as tais lesões graves que já sofri (não foram assim tão graves), acabaram por ter algum tipo de solução, nem que seja aprender a viver com elas. Comecei a fazer um inventário de todas as capacidades que tenho, de que forma as posso usar, de que forma posso pedir ajuda, e até cheguei ao momento em que saí do buraco fechado em que só estou eu e os meus “problemas”, e comecei a ver maneiras de ajudar outras pessoas, e aí percebi que o foco já não era o de sobrevivência, estou bem, e posso ficar melhor, relativizei, saí do pior cenário, para o cenário mais real, o que está aqui, hoje à minha frente.

“Medo é só um pensamento, e os pensamentos podem ser alterados.”

Josh Perry

Todo este processo é agora mais simples porque não é a primeira vez que faço este exercício de escrever, de enfrentar crenças, fantasmas, no fundo situações que deixam determinada impressão, mas que muitas das vezes deixa uma impressão muito mais negativa do que a realidade dos factos. A memória não é tanto um livro de registos, mas mais um comentário permanentemente actualizado.

Repetição. Treino.

Aceitamos que os atletas tenham de treinar muito para conseguir determinadas capacidades físicas, mas temos pouca tolerância connosco no momento em que temos de tomar decisões, agir desta ou daquela maneira que consideramos mais adequada.

Não deveremos nós ter a mesma mentalidade de treino para tudo o que queremos atingir, ser, fazer?

Há o exemplo mais que batido da criança que está a aprender a andar, que cada vez que cai não fica a pensar que nunca irá conseguir andar. Tenta, cai, tenta, cai, tenta, aguenta-se dois segundos, cai, na vez seguinte aguenta-se três segundos, e há toda uma progressão, uma evolução na direcção que é conseguir andar, o objectivo é claro.

Estava a ouvir um atleta de BMX a referir que treinam certos saltos e manobras onde a aterragem é num fosso de espuma, e depois passa para uma zona mais rígida mas ainda almofadada, e só depois tentam nas rampas, no pavimento, na terra.

Porque razão achamos nós que temos de conseguir realizar todas a manobras que fazem parte da nossa vida e do nosso crescimento sem aceitar que temos medo, que talvez não seja má ideia arranjar uns “colchões” para nos amparar a queda, e sobretudo que não vamos acertar à primeira?

Ouvi também numa entrevista uma jogadora de póquer falar que se eu tentar uma coisa dez vezes e acertar uma, tenho uma taxa de sucesso de dez por cento, e se ao fazer algo de diferente como por exemplo respirar fundo antes de tentar, escrever no diário, acertar duas vezes significa isso que não vale a pena? Afinal, continuo a falhar oitenta por cento das vezes…

Este é um erro grave que cometo, e vejo cometer muitas vezes outras pessoas, em vez de focarmos num aumento de cem por cento relativamente à nossa prestação anterior, preferimos focar nos oitenta por cento de falha, e desta forma vamos largar algo que nos estava a levar na direcção certa, embora, tecnicamente ainda seja um falhanço gigante.

Será que os atletas de BMX, tentam algo novo, caem, não voltam a tentar? Não me parece, caso contrário nunca os veríamos a fazer todas as manobras fantásticas que fazem.

O que será preciso acontecer para nós passarmos todos a ter esta visão relativamente às nossas atitudes e comportamentos?

Pessoas próximas de mim já me chamaram à atenção várias vezes que não entendem porque me irrito, porque deprimo, se eu medito, escrevo num diário as minhas reflexões, como é que é possível eu ser permeável a tais comportamentos?

Respondo-lhes quase sempre, que se não o fizesse seria bem pior, a minha taxa de sucesso pode ter aumentado apenas dois ou três por cento, não sei, mas sei que melhorar dois ou três por cento é bem melhor do que estar parado no mesmo sítio.

Progresso, aprendizagem, fazem-nos avançar, depressa ou devagar, é para a frente.

Link para o evento no Colégio Marista de Carcavelos dia 27 de Abril, às 21h.

Dúvidas, sugestões envia para rui@falarcriativo.com