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Morrer todos os dias

“Tens o que mereces. Em vez de seres uma boa pessoa hoje, escolhes em vez disso tornares-te uma amanhã.”

Marcus Aurelius, Meditations, 8.22

“É p’ra amanhã
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar”

Estas sábias palavras da música do António Variações andaram esta semana a percorrer os corredores do meu cérebro, corredores cheios de sonhos, lixo de projectos falhados, e o eterno medo que temos de o nosso tempo acabar e tudo estar por fazer.

A pressa que nos dá quando sabemos que podemos não ter tempo para terminar algo, ou mesmo para nos despedirmos de alguém que amamos, é uma coisa extraordinária.

Há uns anos, pouco tempo antes da minha filha mais velha nascer, ao fazer um electrocardiograma descobriram algo no meu coração, o relatório era alarmista, e eu comecei logo a imaginar o pior dos cenários, que não iria ver a minha filha crescer.

Se pensar bem, mesmo sabendo agora que não é nada de grave – não tenho qualquer limitação – nada me garante que vá ver as minha filhas crescerem, mas vou-me iludindo, achando que tenho tempo, tempo para tudo, e que o melhor é aquilo que vai acontecer quando X e Y se tornarem realidade.

As condições perfeitas para embarcarmos numa jornada nunca existirão, mas o nosso medo, aquilo a que o autor Steven Pressfield chama  de Resistência, ilude-nos, leva-nos a acreditar que a altura certa irá existir e que como ele descreve no seu livro The War of Art, “Nós não nos dizemos, ‘Eu nunca irei escrever a minha sinfonia.’ Em vez disso dizemos, ‘Eu vou escrever a minha sinfonia; Só que vou começar amanhã.’”

E se todos os dias tivéssemos de saldar as contas? 

Se todos os dias tivéssemos de deixar tudo tratado, sem saber se o dia seguinte iria contar com a nossa presença ou não?

Não falo da versão irresponsável de viver como se quiséssemos morrer, falo na versão de todos os dias estar consciente da possibilidade de poder não ter uma outra oportunidade, falo da versão de todos os dias deixar tudo no ponto de continuar onde deixámos na noite anterior.

Projectamos demasiado no futuro, num futuro ideal, idílico, mas pouco fazemos para o tornar uma realidade. Esse futuro que queremos, é construído por um conjunto de dias em que deixamos as contas saldadas, que dissemos o que deveríamos ter dito, que fizemos o que deveríamos ter feito, que amámos como deveríamos ter amado, que criámos como deveríamos ter criado, as sementes de um dia seguinte melhor que hoje.

Como diz o Marco Aurélio na frase, nós temos o que merecemos, em vez de sermos bons, melhores, hoje, adiamos para amanhã, porque achamos que vamos ter essa oportunidade.

Ao acharmos que temos tempo, pregamos uma partida a nós próprios de duas formas, adiamos – pois vamos ter tempo para fazer – e como colocamos muito para a frente a concretização não temos a motivação para dar o passo que precisamos hoje.

Se eu achar que construir uma catedral leva cem anos, dificilmente começo, nunca terei tempo de a acabar, mas se eu fizer os planos de todos os dias deixar uma parte dessa catedral construída, o meu objectivo começa a parecer-me real, mais me motiva, e mais acredito que um dia a totalidade da catedral vai existir .

Se o meu plano for ter a minha própria empresa, ou escrever um livro, deverei perguntar-me: “Para daqui a cinco anos esse objectivo ser realidade, onde tenho de estar ou que é que tenho de ter feito no próximo ano? E para estar onde tenho de estar daqui a um ano, o que tenho eu de fazer no próximo mês? E para estar onde tenho de estar daqui a um mês o que tenho eu de fazer esta semana?”

Desta forma todos os dias estaremos alinhados com o que queremos e devemos fazer, todos os dias vamos acabar com as contas saldadas, pois todos os dias serão marcos no caminho, e no dia seguinte já vamos começar mais à frente do que começámos hoje, mas se todos os dias acabarmos o dia a dizer que amanhã é que é, que temos tempo, que se não fizer hoje faço amanhã, amanhã pode ser tarde demais, podemos não ter esse tempo.

De manhã pergunta-te:

Posso eu hoje acabar melhor do que fui ontem?

Todos os dias morremos quando o dia termina, morre mais uma chance de avançar, de nos aproximarmos daquilo que dizemos querer, de viver mais dias os nossos sonhos que teimosamente adiamos para um futuro que poderemos nunca ter.