Verdade ou consequência

Eu gostava de dizer sempre a verdade, mas falho, nem sempre consigo.

Falho sobretudo comigo.

Não sou honesto nas atitudes que tenho, o que digo, e depois confronto-me com a verdade nua e crua de me olhar no espelho sabendo que menti, que não disse o que deveria ter dito, que não fiz o que deveria ter feito.

Quando escrevo no meu diário, quando penso enquanto estou no trânsito, a passear os cães, faço mil planos que vou agir sempre de forma correcta, dizer o que deve ser dito, que vou ser tolerante, justo, corajoso, mas não, minto, minto-me.

Sou muito reactivo, menos do que era há uns anos, mas ainda há coisas que me conseguem tirar do meu caminho, que me fazem gritar com outros, querer bater, desfazer, destruir, e nesses momentos em que me perco, sei que me perdi porque me menti, porque me contei uma história que não era a verdadeira, uma que naquele momento parecia mais fácil, menos dolorosa.

Os problemas surgem quando tentamos fugir da dor, quando a tentamos esconder, sufocar, quando lhe negamos a atenção que ela merece, sim a dor, aquilo que nos incomóda precisa de atenção, nós vamos ter de olhar para ela, podemos olhá-la com coragem quando ainda é só nossa, ou podemos vê-la nos olhos assustados daqueles que magoamos, nos olhos de raiva de outros que também chocam connosco, com a nossa mentira.

Ouvi outro dia que não há homem mais poderoso que aquele que não tem nada a provar, mais até do que aquele que não tem nada a perder. Aquele que nada tem a provar não tem necessidade de aprovação, nem tem medo que o descubram, é livre, e nada nem ninguém o conseguirá prender. Poderão matá-lo, mandá-lo para a cadeia, mas mesmo assim nunca vai perder o seu poder. O poder normalmente depende que alguém reconheça o poder de outro, o poder está sempre em relação a outro, se eu não recear o que me possam fazer, se eu não precisar de ser o que não sou para ser aceite, ninguém terá poder sobre mim, e dessa forma, quem deseja subjugar-me está necessáriamente a precisar que o reconheçam, e é nesse momento que deita o seu poder fora.

Que tem o poder a ver com a verdade?

Tudo. Mesmo tudo.

A verdade, a minha verdade é o centro da minha força, se eu ajo segundo aquilo que acredito, se sei que sou capaz ou não de fazer determinada coisa, eu só vou agir naquilo que sei ser o que realmente quero, não me contento com o que me é confortável, faço tudo o que está ao meu alcance, não perco tempo com o que não faz sentido para mim, não tenho de mentir para conseguir esconder-me do desconforto da rejeição, ou da dor de lutar por mim.

Consequências há sempre, na verdade e na mentira, mas quais preferes sofrer, as baseadas na mentira, ou as baseadas na verdade?

Quando te olhas no espelho, preferes encarar aquele que sofreu por ser honesto, ou encarar aquele que está limpo por fora e manchado por dentro?

Aqueles que nos magoam, mais tarde ou mais cedo saem da nossa vida, as situações que consideramos dolorosas hoje, amanhã passam e até conseguimos rir de muitas, no entanto, aquelas em que fizeste o mais fácil, que não disseste o que devias ter dito por medo de rejeição, por represálias, essas vão-te perseguir durante muito tempo, se é que alguma vez passam.

Não estou lá ainda, talvez até esteja longe, mas já sei a direcção, a direcção é a da verdade, de conseguir olhar para aquele espelho sabendo que me posso olhar nos olhos, que posso chegar aos momentos finais e estar em paz.

A mentira, além de ter perna curta, é muito grande, fica sempre com uma parte de fora quando a tentamos esconder nalgum armário, mas o mais grave de tudo, é as lesões que nos provoca no corpo, sim, esse está sempre presente nunca foge, encara sempre as balas, mesmo que o discurso interno seja de fuga, de criação de cenários alternativos onde a mentira tem justificação, o corpo guarda essa mágoa de termos mentido.

Conheço várias pessoas que têm mazelas de terem andado de skate, de terem caído de mota, lesões de judo, que lhes provocam dor, mas poucas dessas lhes causam sofrimento, no entanto conheço pessoas que mal saem da cama por não terem conseguido viver a sua verdade, têm menos dores, mas sofrem muito mais.

Nos momentos em que encaramos o desafio de frente, de forma honesta, se caímos, levantamo-nos, ficamos com arranhões, mas continuamos, aquilo faz sentido, aquilo é para nós verdade, mesmo que mais ninguém veja e acredite.

Tem havido momentos em que me revolto com quem não devo, porque não consigo encarar aquele que me olha no espelho, por não ter tido a coragem de sentir a dor, escolhi dessa forma sentir o sofrimento.

A dor é inevitável, o sofrimento é opcional, é uma frase atribuída a pelo menos duas pessoas, Carlos Drummond de Andrade, e a Haruki Murakami, no caso do autor japonês, sei que ele percebe isto muito bem, no seu livro “Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo” ele fala da sua paixão pela corrida, da relação que tem com o seu processo de escrita, e como a dor que enfrentamos quando escolhemos fazer algo é semelhante, entre escolher correr longas distâncias, ou escolher escrever um livro.

Se soubermos todos os dias que a dor é inevitável, não passamos os dias a fugir dela, passamos a dançar com ela, deixamos de andar a cair em buracos, deixamos de andar a desviarmo-nos do nosso caminho para a evitar, e não caímos nos braços do sofrimento.

Já o referi que na maior parte das semanas acho que será sempre a última vez que escrevo um texto, que esgotei os assuntos, que não tenho mais maneiras de contar algo sem me repetir, essa narrativa vem precisamente desse sítio, desse medo de ter de encarar assuntos que me são mais difíceis, histórias que doem mais quando as tenho de contar, mas sobretudo esse medo de ser ignorado.

Se eu não me exponho, não encaro a dor da rejeição, mas tenho todos os dias o sofrimento de ter de me ver ao espelho, verdade ou consequência, dor ou sofrimento, a escolha é minha, é tua.

Escolhe arriscar, escolhe de uma vez por todas ser livre das amarras de julgamentos, a começar pelos teus, por isso sê verdadeiro, olha-te nos olhos e sorri, sabendo que essas cicatrizes, essas rugas, essas dores, não são nada comparadas com as consequências que a mentira traz.

O sofrimento de não saberes quem és, é porque te mentes todos os dias. Ouviste menino Rui?

Dúvidas ou sugestões, rui@falarcriativo.com.