By Rui Branco

MagaFest 2018, episódio especial com Inês Magalhães

Desta vez falei com a Inês Magalhães criadora das MagaSessions  , concertos dentro da casa dela, para poucas pessoas, num ambiente intímo de partilha com os músicos que tocam ao mesmo ao pé do público.

Foi uma entrevista focada no MagaFest no próximo dia 6 de Outubro na casa Independente, mas falámos de mais coisas, por isso, ouçam até ao fim.

Bilhetes à venda no local e no site da ticketline.

Decisões para indecisos

“Serenidade é o que traz qualquer decisão, mesmo a errada.” Rita Mae Brown

Sou muito inconstante na forma como tomo decisões, quero dizer, as decisões que tomo têm sido coerentes com os meus valores – umas vezes mais, outras vezes menos – mas o processo de tomar decisões esse tem sido uma luta entre confiança, assertividade e outras vezes, dúvida, ansiedade e preocupação.

Decidi então escrever, pensar sobre o assunto para ver se consigo chegar a a alguma conclusão.

Na última semana caíram uma série de propostas, projectos, que vieram aterrar em cima de outras coisas que já estavam a correr. Lancei muitas sementes, desconhecia qual a altura em que germinariam, e dei por mim a ter de decidir quais as que regar, quais as que deixar morrer.

Ansiedade. 

E se as que vou regar se revelam as menos produtivas?

E se as que vou deixar morrer seriam uma colheita muito mais recompensadora?

Em todo e qualquer momento estamos a tomar decisões, nem que seja não fazer nada não decidir é em si mesmo uma decisão, porque razão causa ansiedade?

Se estamos a tomar decisões a toda a hora porque razão nos parece sempre que é a primeira vez e nos causa tanta incerteza, dúvida, medo?

Há pessoas que parecem estar sempre em controlo da situação, que aconteça o que acontecer, estão sempre tranquilas, seguras, decidem de forma rápida e com pouco esforço. Essas pessoas sabem algo que eu não sei, ou aceitam que não sabem?

Existem vários modelos de tomada de decisão, tenho aqui à minha frente um livro que tem cinquenta, mas a principal decisão que temos de tomar é se queremos que seja o medo e o stress a comandar as nossas decisões, ou se por outro lado queremos que seja a determinação e a tolerância a fazer as escolhas.

Sempre que me vejo na situação de hesitar em tomar decisões, a remoer, e consumir-me por dentro é rara a vez que não seja devido ao receio do que pode correr mal, e na minha falta de confiança em que se isso acontecer eu terei a capacidade de resolver a questão.

Para tomar decisões rápidas e claras, deverá haver referências que nos orientam, algo que confrontamos com a decisão as tomar e as suas possíveis consequências, e o grande problema dos indecisos – nos quais me inclúo setenta por cento das vezes – é não estarem bem definidas essas referências. Se eu souber em todo e qualquer momento o que é importante para mim, quais os meus valores e de que forma quero estar neste mundo, nenhuma decisão será lenta.

Não digo para entrarmos numa lógica de “speed dating” das decisões, devemos sempre buscar informações sobre aquilo que temos de decidir, mas há um ponto que a informação passa de combustível a peso morto, e esse ponto é evidente se o  trabalho de autoconhecimento já estiver feito.

Exemplo:

Pessoas vegetarianas – Não comer carne ou peixe está decidido em todas as escolhas alimentares.

Pessoas honestas – Mentir não é opção.

Atletas de alta-competição – Deitar tarde não levanta dúvidas, é para não fazer.

Sempre que clarificamos aquilo que é importante para nós, a pessoa que qeremos ser, aquilo que queremos alcançar, as decisões tornam-se mais fáceis, apenas o nosso receio de falhar, junto com a nossa falta de confiança de recuperar caso corra mal, levam a indecisões.

Quando tens a certeza do possível resultado da tua decisão, tomas decisões rápidas? 

Se tivermos de apostar que o sol vai nascer amanhã, ninguém perde muito tempo a pensar nisso, responde que sim, quando não temos a certeza hesitamos, mas a verdade é que nunca sabemos tudo e as coisas podem mudar a qualquer momento. 

No meu caso, decidi dar espaço às coisas, aceitei que todas as sementes eram importantes, dei tempo a que a natureza revelasse quais as que germinariam, e o que acabou por acontecer foi que ao dar espaço consegui ver claramente que havia sementes diferentes com tempos diferentes, não adiantava nada estar a forçar coisas, e no processo obriguei-me a tornar mais claro para mim o que é importante.

Se ficamos contentes por alguma coisa não se concretizar, isso talvez mostre que não é importante ou que agora não seria a melhor altura para a abraçarmos, o que não significa que não possa ser algo importante no futuro. No meu caso também percebi que há coisas que de tão importantes para mim não quero que aconteçam numa altura em que não lhe posso dedicar toda a minha atenção, percebi mais uma vez – a ver se é desta – que estar divido entre mil e uma coisas não é o ideal para mim, para aquilo que quero fazer.

No tal livro que referi de modelos de tomada de decisão, encontrei um que poderás experimentar quando várias coisas te puxam, o modelo do elástico.

Como funciona?

Imagina-te preso as dois elásticos, um que faz força para a frente, e um que faz força para trás.

O que faz força para a frente tem em si a pergunta: “O que é que te move?” ou “Para onde queres ir?”

O que faz força para trás tem em si a pergunta: “O que é que te impede de avançar?” 

Responde as essas perguntas, ao fazê-lo vais perceber que se calhar consegues resolver o que te impede de avançar, e vai ficar mais claro para ti aquilo que te faz avançar tornando-se assim uma fonte de motivação.

Para terminar, aconteça o que acontecer, as decisões trazem paz, por isso decide-te!

Herói, vítima ou aprendiz?

Queres ser sempre o herói, ou gostas de te fazer de vítima?

Tenho andado a pensar nisto, da facilidade com que vamos para um extremo ou para o outro, por um lado fazemos filmes nas nossas cabeças de como iremos ser uns heróis, que iremos salvar o dia, que somos donos da razão, e por outro lado fazemo-nos de vítimas, culpamos os outros pelas coisas que correm mal na nossa vida, que iremos falhar redondamente, que nunca conseguiremos e que precisamos que nos dêem um ombro para chorar.

Mesmo estes textos escrevo-os, das duas perspectivas, agora que penso nisso tenho escrito textos em que o mundo é complicado, mas eu sou dono de uma qualquer verdade que me permite saber mais que o comum dos mortais, ora sou vítima ora sou herói.

E se não fôr nem uma coisa nem outra?

E se estiver sempre numa posição de alguém que está a aprender?

Quem está a aprender não será nem uma coisa nem outra, é somente alguém curioso que tenta perceber o que acontece e resolver da melhor forma.

É fácil acharmos que se descobrirmos uma resposta a um problema que nos surgiu, nos torna superiores aos outros, o herói, quando na verdade somos apenas alguém que tentou algo que correu bem, que reflectimos sobre isto ou aquilo e a nossa reflexão foi bem sucedida.

Mas o reverso da medalha também é verdade, se errarmos na resposta às dificuldades da vida, não faz de nós vítimas das circunstâncias, impotentes e incapazes de tentar outra vez, e outra, e outra, até conseguirmos.

Não sei de vítimas que tenham chegado longe, nem sei de heróis que nunca tenham falhado, logo heróis e vítimas não são, ou não deverão ser o nosso alvo, mas sim ser o eterno estudante que aconteça o que acontecer vai retirar aprendizagem e com isso avançar.

Na nossa cabeça, pelo menos na minha, a conversa da vítima consegue ser bem sedutora, ajuda-nos a esconder, não temos de ser corajosos, para todos os efeitos precisamos é que tratem de nós, é um caminho aparentemente fácil para sermos protegidos e amados devido à nossa fragilidade. O lado negativo é que nos deixa prisioneiros das circunstâncias, dependentes de outros que a qualquer momento podem ter assuntos bem mais interessantes do que tomar conta de alguém que escolhe dar ouvidos a uma conversa que não faz ninguém avançar e nos destrói pelo lado de dentro. Não temos qualquer hipótese de alterar a situação, afinal de contas nós somos a vítima!

Do lado do herói há mais pessoas que conseguem chegar mais longe, a confiança é importante para que o nosso objectivo se torna realidade, temos de acreditar que somos capazes, temos de nos ver vitoriosos. Porém, esta visão de sucesso heróico coloca me muitos de nós muita pressão, cria ansiedade uma vez que não se espera outra coisa dos heróis que não seja a vitória. No entanto os heróis facilmente se tornam arrogantes, pretenciosos, acham que tudo gira à sua volta, desvalorizam aquilo que os outros podem trazer para a equação acabando por criar uma série de armadilhas que mais tarde ou mais cedo eles próprios caem.

Se em todas a situações eu acreditar na minha capacidade de aprender, na minha capacidade de pedir ajuda, não como vítima mas como alguém que quer partilhar a viagem, é impossível haver fracasso.

Sim, leste bem, I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L!

Como assim?

Pensa bem, se eu partir para as coisas com a atitude de aprendiz, nada do que acontecer se pode chamar de fracasso, aconteça o que acontecer eu aprendo, corra bem ou terrívelmente mal, eu fico a saber mais do que sabia antes de ter passado por aquela situação.

Estes textos são isso para mim, formas de confrontar o que acho que sei, com aquilo que depois vejo escrito, que ouço, com o retorno dos ouvintes, das pessoas que lêem, seria mais fácil para mim fazer-me de vítima, dizer que ninguém liga ao que penso e escrevo, que o mundo não me compreende e dessa forma arranjar uma desculpa para parar. Do outro lado está a questão do herói, se eu achasse que era o maior, escrevia qualquer coisa, a primeira coisa que me viesse à cabeça sem um mínimo de preocupação com a qualidade do que escrevo e completamente imune às críticas que vou recebendo, não tendo dessa forma maneira de evoluir, se eu já sei tudo nada mais posso aprender.

Resumindo, não te escondas atrás de um diálogo interno de vítima que pode parecer confortável mas não te deixa sair do mesmo sítio, nem te coloques num pedestal que te afasta dos outros e sobretudo da melhor versão de ti.

Escolhe a conversa interna que promove o teu crescimento, com pessoas ao teu lado, seguro que nunca falharás, pois armado da vontade de aprender nada te pode parar, não crias expectativas irrealistas que te criam ansiedade nem te tratas como um ser indefeso incapaz de se erguer pelos seus próprios meios.

Seja o que for que enfrentes, confia, repete a ti mesmo que tens a capacidade de aprender e superar.

Qualquer dúvida ou sugestão, rui@falarcriativo.com.


episódio 149, Nebula Studios, DFTA

Os convidados desta vez são três, um deles, é um regresso, o José Alves da Silva, os outros dois são o Guilherme Afonso e o Miguel Madaíl Freitas, da Nebula Studios.

E porque é que eu fui falar com eles?

O José, ou Zé, desenhou um personagem, um coelho lobotomizado, o Lobo, e ofereceu o desenho aos seus amigos da Nebula, que adoraram o personagem e decidiram fazer uma curta metragem de animação.

Essa curta chama-se “Don’t feed these animals” ou DFTA.

Eu ao ver um trailer/teaser da curta, perguntei ao Zé se me punha em contacto com a malta envolvida no filme, e assim foi, combinou-se o dia e lá fui eu falar com eles para perceber o como e o porquê de uma curta de animação.

Qualquer dúvida ou sugestão, rui@falarcriativo.com.

Morrer todos os dias

“Tens o que mereces. Em vez de seres uma boa pessoa hoje, escolhes em vez disso tornares-te uma amanhã.”

Marcus Aurelius, Meditations, 8.22

“É p’ra amanhã
Bem podias viver hoje
Porque amanhã quem sabe se vais cá estar”

Estas sábias palavras da música do António Variações andaram esta semana a percorrer os corredores do meu cérebro, corredores cheios de sonhos, lixo de projectos falhados, e o eterno medo que temos de o nosso tempo acabar e tudo estar por fazer.

A pressa que nos dá quando sabemos que podemos não ter tempo para terminar algo, ou mesmo para nos despedirmos de alguém que amamos, é uma coisa extraordinária.

Há uns anos, pouco tempo antes da minha filha mais velha nascer, ao fazer um electrocardiograma descobriram algo no meu coração, o relatório era alarmista, e eu comecei logo a imaginar o pior dos cenários, que não iria ver a minha filha crescer.

Se pensar bem, mesmo sabendo agora que não é nada de grave – não tenho qualquer limitação – nada me garante que vá ver as minha filhas crescerem, mas vou-me iludindo, achando que tenho tempo, tempo para tudo, e que o melhor é aquilo que vai acontecer quando X e Y se tornarem realidade.

As condições perfeitas para embarcarmos numa jornada nunca existirão, mas o nosso medo, aquilo a que o autor Steven Pressfield chama  de Resistência, ilude-nos, leva-nos a acreditar que a altura certa irá existir e que como ele descreve no seu livro The War of Art, “Nós não nos dizemos, ‘Eu nunca irei escrever a minha sinfonia.’ Em vez disso dizemos, ‘Eu vou escrever a minha sinfonia; Só que vou começar amanhã.’”

E se todos os dias tivéssemos de saldar as contas? 

Se todos os dias tivéssemos de deixar tudo tratado, sem saber se o dia seguinte iria contar com a nossa presença ou não?

Não falo da versão irresponsável de viver como se quiséssemos morrer, falo na versão de todos os dias estar consciente da possibilidade de poder não ter uma outra oportunidade, falo da versão de todos os dias deixar tudo no ponto de continuar onde deixámos na noite anterior.

Projectamos demasiado no futuro, num futuro ideal, idílico, mas pouco fazemos para o tornar uma realidade. Esse futuro que queremos, é construído por um conjunto de dias em que deixamos as contas saldadas, que dissemos o que deveríamos ter dito, que fizemos o que deveríamos ter feito, que amámos como deveríamos ter amado, que criámos como deveríamos ter criado, as sementes de um dia seguinte melhor que hoje.

Como diz o Marco Aurélio na frase, nós temos o que merecemos, em vez de sermos bons, melhores, hoje, adiamos para amanhã, porque achamos que vamos ter essa oportunidade.

Ao acharmos que temos tempo, pregamos uma partida a nós próprios de duas formas, adiamos – pois vamos ter tempo para fazer – e como colocamos muito para a frente a concretização não temos a motivação para dar o passo que precisamos hoje.

Se eu achar que construir uma catedral leva cem anos, dificilmente começo, nunca terei tempo de a acabar, mas se eu fizer os planos de todos os dias deixar uma parte dessa catedral construída, o meu objectivo começa a parecer-me real, mais me motiva, e mais acredito que um dia a totalidade da catedral vai existir .

Se o meu plano for ter a minha própria empresa, ou escrever um livro, deverei perguntar-me: “Para daqui a cinco anos esse objectivo ser realidade, onde tenho de estar ou que é que tenho de ter feito no próximo ano? E para estar onde tenho de estar daqui a um ano, o que tenho eu de fazer no próximo mês? E para estar onde tenho de estar daqui a um mês o que tenho eu de fazer esta semana?”

Desta forma todos os dias estaremos alinhados com o que queremos e devemos fazer, todos os dias vamos acabar com as contas saldadas, pois todos os dias serão marcos no caminho, e no dia seguinte já vamos começar mais à frente do que começámos hoje, mas se todos os dias acabarmos o dia a dizer que amanhã é que é, que temos tempo, que se não fizer hoje faço amanhã, amanhã pode ser tarde demais, podemos não ter esse tempo.

De manhã pergunta-te:

Posso eu hoje acabar melhor do que fui ontem?

Todos os dias morremos quando o dia termina, morre mais uma chance de avançar, de nos aproximarmos daquilo que dizemos querer, de viver mais dias os nossos sonhos que teimosamente adiamos para um futuro que poderemos nunca ter.