By Rui Branco

Intenções, objectivos e expectativas

“De boas intenções está o inferno cheio”

Ditado Popular

Estará mesmo?

Não sei se estará, não sei se esse tal inferno sequer existe ou não, mas sei que aquilo que por vezes sofro se pode chamar de inferno, ter uma intenção, e não a ver concretizada, não a ver ser mais do uma simples intenção.

Penso que essas intenções e esse tal inferno que o ditado fala, tem a ver com isso, com o facto de muitas pessoas terem montes de desejos, sonhos, coisas que gostariam ter feito e nunca fizeram, e que o remorso de chegar ao momento final das suas vidas e perceber que provavelmente o melhor que tinham para oferecer ao mundo, ficou dentro de si.

Quantos de nós não dizem que “um dia vou ser cantor” ou “eu até tenho jeito para pintar”, ou “daqui a um ano vou correr uma maratona”, mas o que acontece é que não arranjamos um professor de canto para nos tornarmos cantores, o tal jeito para pintar não passa de uma mania que temos e nada fazemos para pintar regularmente, e a maratona irá ser sempre no ano que vem, nunca chega a acontecer.

A minha experiência tem sido muito essa, de ter intenções de fazer muita coisa, mas que depois não tenho sido capaz de passar a objectivos operacionais, algo que aprendi recentemente, e que penso fazer toda a diferença para nos ajudar a chegar mais perto de ver as nossas intenções concretizadas.

Um objectivo operacional tem de integrar três componentes fundamentais:

– Descrição do comportamento esperado

– Quais as condições de realização

– Critério de êxito

Vou dar um exemplo e tentar explicar como podemos usar esta ferramenta para não ir parar ao inferno cheios de boas intenções, podemos ir lá parar na mesma, mas de consciência mais tranquila de ter feito o máximo com o que tínhamos, e isso para mim será sempre o meu céu.

Se eu quiser ser escritor, pintor, surfista, descrito desta forma são objectivos gerais, não específicos, e por sua vez não operacionais, nada nesta formulação me permite saber o que tenho para fazer, nem de que forma saber se o meu objectivo foi ou não alcançado, se estou perto ou longe do alcançar. Mas se eu disser que quero escrever duas horas todos os dias, que necessito de ter um caderno e caneta ou um computador, e que tenho de escrever quinhentas palavras por dia, aí consigo dizer que o comportamento esperado é escrever, que as condições de realização são o tempo designado e a caneta ou o computador, e que o critério de êxito são atingir ou não as quinhentas palavras. Poderei escrever mais, poderei escrever menos, poderei não escrever, mas ao confrontar o que fiz ou não fiz com o meu objectivo, facilmente percebo que a minha intenção não está ter resultados práticos.

Tudo muito certo, mas que tempo foi gasto no clarificar da minha intenção?

Devo eu partir logo para o estabelecimento do tal objectivo operacional com a primeira intenção que me surja?

Se partir logo para a definição do objectivo sem clarificar a verdadeira intenção, o que provavelmente irá acontecer, é atingir ou não o objectivo, mas isso pouco importará, pois se a intenção não era clara, não me irei satisfazer com qualquer dos resultados, sucesso ou insucesso. Haverá com certeza alguma alegria por atingir o objectivo, mas será sol de pouca dura, irei rapidamente encontrar-me com a mesma insatisfação que tinha antes de ter começado.

“Então assim vais passar a vida a clarificar as tuas intenções? Não vais passar daí, de reflexão atrás de reflexão.”

Diz aquela vozinha que me acompanha enquanto escrevo estes textos.

Mas tenho aprendido algumas coisas ao longo destes quase cinco anos de Falar Criativo, de coisas que vou lendo, estudando, perguntando, e já consigo responder a essa vozinha, já tenho algumas ferramentas que me permitem avançar sem ficar preso em comentários internos pouco construtivos.

Quando surge essa tal intenção, poderemos perguntar-lhe porquê três vezes como o Ricardo Semler faz quando se depara com determinadas situações, opiniões, pensamentos.

Por exemplo:

  • “quero ser pintor”
  • “porquê?”
  • “porque gosto de pintar”
  • “porquê?”
  • “porque me faz sentir bem”
  • “porquê?”
  • “porque consigo exprimir coisas que de outra forma não consigo”

A partir daqui sabemos que queremos exprimir coisas através da pintura que de outra forma não conseguimos, precisamos de passar à fase de encontrar as condições necessárias para a realização, e definir qual o critério de êxito.

As condições poderão variar de pessoa para pessoa, mas será necessário pincéis, tintas, e telas ou algo equivalente a este conjunto, precisaremos de dedicar tempo a fazê-lo, e um espaço onde fazer.

Critério de êxito, será pintar, e exprimir coisas que de outra forma não seria possível para mim. Poderia ser ter um quadro numa galeria, vender um certo número de quadros, mas quando estabelecemos a nossa intenção, aquilo a que chegámos não tem nada a ver com coisas que não controlamos, galerias e vendas.

A parte das expectativas é aqui que entra, para ser correcto deverá estar presente na nossa mente quando reflectimos sobre a nossa intenção, deveremos ter a noção, estar conscientes que as nossas intenções poderão não encontrar as nossas expectativas da forma que esperamos.

As coisas nem sempre correm conforme o planeado, a vida é imprevisível, por mais que nós tentemos fazê-la, ou melhor, por mais que queiramos acreditar na lógica dos acontecimentos, há uma componente aleatória tão grande que escolhemos não a ver, neste caso, se eu achar que ao fim de três meses vou estar a viver da pintura, as variáveis que eu não controlo são tão grandes que as minhas expectativas difícilmente irão ser concretizadas, mas se eu não amarrar as minhas intenções a resultado muito específico, poderei continuar a pintar sem achar que nunca será possível viver da pintura, e ainda poderei encontrar coisas que até superam as minhas expectativas em alguns aspectos, embora não em todos.

Cada vez mais me vou consciencializando que intenções bem trabalhadas, objectivos específicos e bem definidos nos aproximam de um lugar de tranquilidade, de paz de saber que não estamos a deixar por fazer, ou melhor, por viver tudo aquilo que podemos, mas nenhuma paz será alcançada se não estiver aberto ao aleatório, ao indefinido, ao imprevisível. Vejo mais claramente que a resistência que tenho tido ao que tem vindo na minha direcção por não ser exactamente aquilo que queria – quando ainda por cima não consigo apontar sem sombra de dúvida o que é que realmente quero – me tem retirado energia, sem que com isso algo seja produzido, tal como estar permanentemente a encher um pneu furado.

Quando estabeleço objectivos, a minha experiência tem sido de todos serem um sucesso, porque quando passo das intenções para a parte operacional de concretização, mesmo que não atinja exactamente o resultado esperado, sinto que foi uma oportunidade para aprender, para me confrontar com o que sei, o que acho que sei, e aquilo que não sei mesmo.

As minhas revoltas contra mim vêm quase sempre do que não tentei, daquilo que nunca passou de intenção, de expectativas baseadas em nada, em sonhos vãos, caprichos da boca para fora, associados a uma culpabilização do mundo por não me oferecer aquilo que eu não estive disposto a arriscar planear, ou quando comecei a planear me derrotei por só ver o que não sei, o que não tenho e tudo o que vai correr mal, não escolhendo ver as coisas que sei, aquilo que tenho e aquilo que pode correr bem.

O que tenho para me dizer neste momento é para ser claro nas intenções, objectivo no planeamento e aberto a vários resultados, de nada adianta fugir daquilo que me compete enfrentar, superar.

“Aquilo que impede a tua tarefa, é a tua  tarefa.”

Sanford Meisner

Dúvidas, sugestões, rui@falarcriativo.com

 

 

Ser e parecer

“Entra nas suas mentes, e encontrarás os juízes que tanto temes – e como criteriosamente se julgam a eles próprios.”

Marcus Aurelius

As questões relacionadas com as redes sociais são algo que me colocou a pensar, temos de estar presentes?

Temos de ser visíveis?

Somos menos se não soubermos o último escândalo ou resultado futebolístico?

Teremos de ser todos muito objectivos no que colocamos nestas plataformas?

Vejo pessoas a terem grandes oportunidades, ou pelo menos a mostrarem-nas como tal, pelo facto de terem uma exposição grande das suas vidas no facebook, instagram, e outras redes sociais, mas será que tudo aquilo que nos parece, é? Será que se não parecer não posso ser?

Esta é para mim a grande questão, se temos de parecer, e se não parecermos não somos.

Tenho receio que o futuro só traga oportunidades a quem quer expôr-se. Percebo que se não fôr visível será mais difícil algo crescer, mas por outro lado vou sabendo de casos de empresas e pessoas que não retiram benefícios de uma presença massiva em tudo o que é rede social, os seus negócios crescem com a influência de um bom produto, a qualidade do produto ou serviço fala mais alto que os posts que essas empresas possam fazer.

Há casos em que o investimento na comunicação é tão grande que rapidamente se percebe que o tempo gasto no desenvolvimento de estratégias deveria ter sido investido no produto, naquilo que tão bem vendem, mas na prática aquilo que as pessoas se convenceram que iam comprar não corresponde ao que levaram para casa.

Sei que posso ter um produto fantástico mas se não o mostrar, será muito complicado chegar ao seu público alvo, e se isso não acontecer, a sustentabilidade fica comprometida e esse produto por muito bom que seja não tem futuro.

Mas o nosso tempo deve ser gasto mais a fazer, ou mais a vender?

Encontro-me neste dilema, encontro outras pessoas neste dilema, neste equilíbrio precário de andar aos puxões de um lado para o outro, acharmos que temos de comunicar, de ser apelativos, de fazer “biquinho” no instagram, ou partilhar o que andamos a comer, o que andamos a fazer, com quem passamos os nossos dias. Sinto que por vezes a maior parte das pessoas vive numa mentira por achar que deve ser assim ou assado, que se não me mostrar como feliz, é porque não sou, se não me mostrar como competente é porque não sou, se não me mostrar produtivo é porque não sou, se não me mostrar criativo é porque não sou.

Pareço, ou sou?

Se não parecer, não sou?

Assusta-me imaginar um mundo onde nos tornamos aquilo que parecemos, que investimos tanto na fachada que o interior se torna ôco.

A fragilidade de marcas e pessoas por vezes vem daí, de toda a energia ser gasta na aparência, de todo tempo ser gasto a construir uma persona que não existe, que apenas é real por instantes, até a casca frágil se encontrar com uma adversidade, um crítica negativa do produto, da pessoa, e tudo se quebra.

Será mesmo necessária tanta exposição?

Li um artigo de um dos meus mentores ( ainda é só através daquilo que escreve ) o Ryan Holiday, ele falava que as pessoas mais bem sucedidas são aquelas que nunca ouvimos falar, e nesse artigo ele descreve os malefícios de demasiada exposição, e as razões pelas quais essas pessoas se defendem, não se mostrando.

“A maior parte das pessoas com uma persona pública te dirá que os pontos negativos ultrapassam os pontos positivos. Passam a ter um alvo nas costas para os críticos. Têm menos liberdade criativa.”

Ryan Holiday

Todas as suas decisões que passam a ser públicas são possíveis alvos de opinião, tudo passa a ser medido pelo que o público acha que eles deveriam fazer, todas as pessoas passam a ter um ponto de vista de como aquela pessoa se deveria comportar, que próximo passo deveria dar para encaixar na imagem que criaram dessa figura pública. Não me parece algo a desejar.

E que necessidade é essa de mostrar aos outros o que faço?

Se não mostrar não aconteceu?

Preciso que aprovem a minha felicidade?

Condiciono as minhas escolhas artísticas e criativas pelo número de “gostos” e partilhas?

Falando de mim, e talvez seja essa a verdadeira razão para estar a escrever isto, tenho dificuldade em perceber se o podcast não tem mais seguidores, mais “sucesso”, porque eu não sei comunicar, não me exponho, não estou sempre a entrar pelos olhos das pessoas, ou se é pelo facto de o produto não ser bom. É um desafio grande, perceber se necessito de marketing, ou de melhorar como entrevistador, estudar mais e melhor estas questões, que ainda não estou a um nível que permita ao produto espalhar-se sem essa exposição nas redes sociais.

Estes textos têm sido de alguma uma forma de me dar mais a conhecer, aquilo que penso, e muito daquilo que sou, dizia-me a Sónia Fernandes outro dia que “as pessoas sabem-te, mas não te conhecem”, e fiquei sem saber o que ela queria dizer com isso. Explicou-me que os seguidores do Falar Criativo sabem que existo, que o podcast existe, mas não me conheciam, não conhecem essa voz que para muitos se tornou familiar.

Quero ser próximo daqueles que me são próximos, os meus ouvintes, aqueles que fazem parte daquilo que eu espero ser a comunidade Falar Criativo, sim, esses quero que me conheçam, com eles quero ser, não quero parecer, mas é fácil esconder-me atrás destes textos, atrás de um microfone que não mostra a cara, acabo por parecer, mas talvez pareça pouco.

De que forma é que eu e tu nos podemos conhecer?

Como não tornar a intimidade uma banalidade?

É isso que muitas vezes acontece, mesmo com amigos de longa data, passamos a ver as fotos do que andam a fazer e deixamos de ligar, de estar com eles presencialmente, é tudo um tocar de dedo num ecrã.

Conheci uma pessoa outro dia, dono de uma grande empresa, pouca gente sabe quem ele é, mas é para mim uma pessoa de sucesso, vive uma vida tranquila no Alentejo, cozinha para a família e amigos, vê televisão, lê, continua a trabalhar porque quer, não porque necessite. Não tem facebook, não tem instagram, não fotografa a tal comida que faz para amigos e família.

Não parecendo feliz segundo as regras modernas, é feliz, provavelmente mais feliz do  que aquela jovem que faz ioga de calças justas de costas para a câmara para ganhar mais uns seguidores.

Cada um deve fazer o que lhe apetecer, mas o importante será fazer porque é o que queremos, e não entender a exposição como um único meio de conseguir uma base de apoio para fazermos o que gostamos e sentimos ser importante.

Acima de tudo devemos conseguir criar uma comunidade de pessoas que podemos contar e que contam connosco, e se as comunidades são compostas por pessoas que facilmente trocam de comunidade para algo mais brilhante e aparentemente famoso, não são pessoas com quem se possa contar. A exposição pode ser enorme em comunidades pequenas, e sei que a comunidade não será grande se a exposição for pequena, mas questiono se uma relação de aparências poderá algum dia ser entendido como comunidade, pelo menos no sentido que lhe dou, de grupo que partilha interesses, se apoia, que está lá para os bons e os maus momentos, não apenas a fazer “gosto” porque aparecemos na televisão ou fomos ao ginásio.

E tu, de que comunidades fazes parte?

Envia-me um email para rui@falarcriativo.com

“Sei que pareço um ladrão…
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.”

António Aleixo

 

Sei, mas não faço

“Se mais informação fosse a resposta, seríamos todos milionários com abdominais perfeitos.”Derek Sivers

Se sei o que tenho de fazer, porque não faço o que sei?

Acontece-me muita vez esta situação, saber o que tenho de fazer, o que devo fazer, mas depois não o faço. Felizmente não é sempre.

E tu? Passas logo para a acção?

Há pessoas que pensam pouco e passam logo para o fazer, e do que tenho percebido, avançam mais do que aquelas que pensam muito, que estão sempre a estudar, a investigar mais sobre aquele assunto sobre o qual pretendem agir, mas não agem.

Mais informação não é mesmo a resposta, sem acção a informação não se transforma em conhecimento, somente quando experimentamos utilizar o que estudámos vamos conseguir perceber como aquilo melhor se aplica, e como não se aplica, e aí passamos a ter conhecimento sobre aquela matéria porque sabemos na prática como utilizar a informação que recebemos.

Se não é para ser aplicada na prática, de que serve a informação?

Para responder a perguntas nos testes?

Para fazer brilharete nas festas?

Talvez venha daí a minha necessidade de tanta informação buscar, sempre fui bom a responder às perguntas nos testes, sempre tive boas notas, mas a vida não é a escola, a vida é mais complexa e necessita que os saberes, as diversas informações sejam relacionadas, que não vivam entre o livro de teoria e o livro de exercícios.

O modelo do mestre e do aprendiz era mais prático, aí havia menos informação, fazia-se porque o mestre dizia, não havia espaço para grandes explicações, iamos testando, falhando voltando a fazer, mas ficávamos a conhecer por exemplo como a força que aplicava com o serrote ia afectar a madeira que estava a cortar, e de pouco me serviria saber calcular num papel a força necessária para um corte perfeito, se o meu braço não souber ler o resultado dos cálculos, e mesmo que o meu cérebro comunique o valor, a aplicação vem de uma aprendizagem para a qual nada me serve ler todos os livros sobre o assunto se eu nunca pegar num serrote e começar a cortar.

Segundo o que a minha experiência me diz, existem três níveis de saber, a informação, o conhecimento e por fim a sabedoria, que costumam ser descritos também como o saber-saber, o saber-fazer e o saber-ser/estar.

O conhecimento é aquilo que referi sobre experimentar a usar a informação que adquiri, aplicando numa situação que pede aquele tipo de conhecimento, conheço ou reconheço a situação, e sei como torná-la em algo de vantajoso para mim, seja isso pintar um quadro, ou arranjar o meu esquentador. As primeiras pinturas não estarão tão em sintonia com aquilo que imaginei, aquilo que a informação que tenho me levou a acreditar ser capaz pelos exemplos que estudei, mas se continuar a tentar a comunicação entre a informação e o nível de conhecimento da minha mão, do meu corpo será mais eficaz e melhores resultados irão surgir, é o ponto em que começamos a achar que talvez até tenhamos algum jeito para aquilo. Resumindo, sei fazer.

O nível da sabedoria, é aquele nível onde a informação está perfeitamente integrada na minha experiência de fazer, já faz parte de mim, e aí poderei relacionar a experiência com outras situações, mais do que o que sei, a sabedoria é aquilo que sou.

Nesse nível posso aventurar-me a contra a informação que tive no início, questionar, fazer diferente, aquilo que já sei não me satisfaz, é aqui também que surgem as inovações, um ver de relações onde a um nível mais baixo seria impossível, a nossa relação com o mundo muda, não é tanto um ver mais, mas um ver melhor, mais claro.

A tal necessidade de informação, quando exagerada é como se agitássemos a superfície de um lago quando o nosso objectivo é ver o fundo, só quando os sedimentos assentam nos será possível vê-lo.

Aquilo que sabemos pouco vale se não usarmos, aquilo que fazemos diz mais sobre nós do milhões de palavras que saiam da nossa boca, mesmo este texto que aqui estou a escrever vale mais do que simplesmente pensar sobre o assunto, ou então ir à procura de mais um livro que me fale sobre o valor da informação.

É a situação ideal, escrever sobre o assunto?

Não, sei que não é, pegar naquilo que aprendi ao escrevê-lo, isso sim é que tem valor, partilhar contigo, isso tem valor, mas mais valor terá se te questionares quais as áreas em que buscas mais informação como estratégia de fuga à acção, e aqui também estou a falar para mim.

Pergunta às pessoas à tua volta se te consideram uma pessoa de acção, quais são as coisas que estás sempre a querer saber mas depois não viram conhecimento porque são só simplesmente mais um post que leste ou um livro na tua estante?

A maioria dos autores que escreve um livro não o escreve simplesmente a pensar que está a produzir informação, mais do que isso quer produzir emoção, conhecimento, sabedoria, e tanto a emoção, como o conhecimento e a sabedoria implicam acção, aquilo que fazemos.

Não digo que faças só por fazer, faz porque queres, mas quando souberes porque, e o que queres fazer, faz, por pouco que te possa parecer, por muito longe que esteja da tua visão, faz, só assim te arriscarás a tocar naquilo que sonhas.

Como sempre podes enviar-me um email para rui@falarcriativo.com

Atrás do dinheiro

“Quando os banqueiros se juntam para jantar, discutem Arte. Quando os artistas se juntam para jantar, discutem Dinheiro.”

Oscar Wilde

Também andas atrás do dinheiro?

Eu tenho andado, e não tem sido nada produtivo, nem interessante, nem agradável.

Quando comecei o podcast era um hobby, um side project, algo que fazia para além do meu trabalho das nove às seis, era algo que queria explorar, uma área que me interessava, um assunto que queria aprender mais – a criatividade – e pessoas que queria conhecer. Tudo isso consegui, explorar o meio podcast, aprender mais sobre a criatividade, e conheci pessoas que admirava e admiro, mas os problemas rapidamente surgiram.

Cerca de um mês depois de lançar os primeiros três episódios, fui parar ao desemprego, e estava cheio de esperança, achava que essa coisa do empreendedorismo e que estava na moda, que também eu iria conseguir transformar o meu novo projecto numa forma de subsistência, porque não, os noticiários estavam cheios de exemplos de pessoas que pegavam nas dificuldades e as transformavam, nessa altura de crise, numa coisa melhor, cresciam e geravam o dinheiro que precisavam para sustentar as suas famílias. A ideia era que todos somos empreendedores em potência, que todos conseguimos se trabalharmos afincadamente, que só não conseguem aqueles que não tentam ou que não se esforçam.

Ora, se eu tenho aqui um produto inovador e fantástico, o “mega incrível podcast Falar Criativo” , de certeza vou conseguir transformá-lo numa fonte de rendimento. Tentei, arranjei uns patrocinadores durante uma fase, que pagavam muito pouco, mas eu acreditava que era só o início, que viriam mais e melhores patrocinadores, que a minha veia empreendedora estava prestes a manifestar-se, que a tal liberdade e independência financeira estava ao meu alcance, que nunca mais teria de trabalhar por conta de outrem, que o mundo se iria maravilhar com a minha eloquência como entrevistador, que seria convidado para a televisão para falar sobre mim e o meu projecto.

Tudo tiros ao lado.

Nunca tive veia de vendedor, sempre fui envergonhado ao ponto de me custar perguntar o preço de algum produto numa qualquer loja, e até ligar para sítios para saber informações era algo que me deixava nervoso, medo que “vissem” através do telefone o chóninhas que eu sou, uma tal falta de assertividade e confiança que é incompatível com a mente e atitude empreendedoras.

Se não tenho veia de vendedor como achei eu que iria conseguir vender a minha ideia e produto?

Pois, não consegui. Foi uma altura complicada, a gastar tempo a andar atrás do dinheiro, a não me focar naquilo que era importante, o podcast, gastando energia numa coisa que me era estranha, o “vender-me”, e se ninguém comprava era porque “eu” não valia o dinheiro. Erro gigantesco, misturar o que sou com aquilo que faço. Não sou aquilo que faço, da mesma forma que um berbequim não é os furos que faz. Claro que há algo de nós naquilo que fazemos, e melhor será quando mais de nós tiver, e não for fazer por fazer, mecânico, sem alma. Teve consequências, e houve alguns episódios que se reflectiu na minha voz a falta de motivação de andar cansado de tentar ser algo que não sou, passando a busca de dinheiro a ser a principal preocupação. Não digo que o dinheiro não seja importante, todos precisamos dele para nos alimentarmos, para ter um tecto para dormir, para ter água, electricidade.

Mas se o motor for a busca de dinheiro para sobreviver, estaremos a dar o melhor de nós?

O modo de sobrevivência torna-nos mais agressivos, mais egoístas, se eu comer significar tu não comeres, lutas haverão, e um de nós acabará por não comer.

Segundo o psicólogo Abraham Maslow e a sua pirâmide das necessidades, o patamar da criatividade está no topo, depois de estarem asseguradas outras necessidades, comida, segurança, ligação.

Claro que todos conhecemos exemplos em que a necessidade aguçou o engenho, que alguém se viu numa situação limite, e ao confrontar-se com isso teve de ser inventivo e encontrar uma solução, mas acho muito sinceramente que são as excepções que confirmam a regra.

As situações limite também servem para nos confrontarmos com as nossas crenças relativas ao nosso valor, ao dinheiro, e qual a nossa verdadeira capacidade para o gerar.

Há artistas, criativos que já entrevistei que preferem manter o seu lado criativo como hobby, não o tornando o seu meio de subsistência, sendo as suas decisões criativas mais independentes, pois os riscos que correm não põem em causa se vão ter comida e tecto, e essa liberdade é extremamente confortante, é como fazermos bungee jumping, só saltamos porque sabemos que temos uma corda atada ao nosso corpo, caso contrário ninguém saltaria. Os miúdos são muito mais corajosos na presença dos pais, até os próprios cães são mais altivos e até agressivos quando estão à trela por saberem que os donos estão lá para os defender.

Sei de alguns casos de pessoas que fazem muitos mais projectos porque têm uma base financeira mensal garantida, e por isso arriscam, não andam a correr atrás do dinheiro, correm sim atrás de gerar valor, de se sentirem vivos a fazer aquilo em que acreditam, de experimentarem só porque sim, nunca se esquecendo dessa forma porque razão gostam tanto de criar, de fazer aquilo que amam fazer.

Num documentário que vi recentemente, “Winning” cinco atletas lendários nas suas áreas falam que nos momentos em que tudo estava em causa, que a pressão para ganhar era enorme, aquilo que os fez manter a concentração e a calma foi lembrarem-se da razão porque amavam tanto o seu desporto, o gozo que tinham em estar a “brincar” à sua brincadeira favorita.

Significa que só devemos fazer o que gostamos?

De preferência, sim, mas aquilo que é importante é o dinheiro não ser o motor, porque aí vamos estar sempre a correr atrás, nunca a liderar, nunca na vanguarda, nunca de peito aberto, de sorriso na cara, vamos estar sim, de punhos fechados, de dentes cerrados, corpo tenso, a ser arrastados pela promessa de uma recompensa que pode nunca chegar.

No livro “Real Artists Don’t Starve” (Os verdadeiros artistas não passam fome) o Jeff Goins fala que a mentalidade não deverá ser fazer arte para ganhar dinheiro, mas sim fazer dinheiro com a arte, para podermos fazer mais arte, que é isso no fundo que a maior parte dos artistas querem.

Achas que o Cristiano Ronaldo continua a jogar à bola porque ainda não tem dinheiro suficiente?

Achas que o Roger Federer continua a jogar ténis porque tem medo de passar fome?

Achas que os Rolling Stones precisam de andar a fazer tournées aos setenta anos, para pagar as compras de supermercado?

Pois, eu acho que não.

Se queres fazer aquilo que gostas por muito tempo, é necessário que faças porque queres, não porque tens de.

Ainda não estou em situação de deixar de andar atrás do dinheiro, ainda não arranjei a estabilidade necessária que preciso, mas já não corro, vou a passo, olhando para o que está à minha volta, respeitando-me, respeitando os outros, e tendo a perfeita consciência que o dinheiro nunca poderá ser um fim, mas sim um meio que me permite fazer mais e melhor.

“A felicidade não está na mera posse do dinheiro; está sim na alegria de conseguir atingir o nosso objectivo, na emoção do esforço criativo.”

Franklin D. Roosevelt

Fala comigo, pergunta, partilha. rui@falarcriativo.com

O preço do lado negro

“My experience with high performing individuals – that very last percentage of high performers – is that they either suffered trauma or humiliation or both. Because what would justify to develop that above average drive and ambition.”

Toto Wolf

Quanto é que pagamos todos para explorar os lados negros dos prodígios?

Porque razão somos tão críticos com este ou aquele atleta famoso, aquele actor vencedor de óscares, no momento em que descobrimos que cometeram um crime, que foram apanhados a beber uns copos, ou aquele empreendedor ambicioso que não prestava atenção aos filhos?

Tenho pensado muito na relação entre alta performance e desequilíbrios, emocionais, mentais, e acima de tudo a responsabilidade que todos temos no alimentar destas coisas.

Adoramos bater palmas, emocionamo-nos com feitos quase sobre humanos, valorizamos o sacrifício diário que muito atletas têm de se levantar às quatro, cinco da manhã para às seis estarem dentro da piscina, ou o caso  do empreendedor que trabalha dezasseis horas por dia.

Mas qual o custo disto para estas pessoas, para as pessoas à sua volta, e para nós enquanto sociedade?

Tenho mais perguntas do que respostas, tenho questionado muito as motivações dos “high performers”, como diz a frase do Toto Wolf por baixo dessa fome do sucesso, dessa vontade compulsiva é raro não estar um desequlíbrio, um vazio que é preciso preencher.

Porque razão aplaudimos em vez de tratar?

Será preciso tratar?

Poderá a performance elevada, a motivação, a fome de sucesso ser uma forma de minimizar os possíveis riscos associados a esses problemas emocionais que são a base que leva a que as pessoas se superem, e que superem aquilo que consideramos possível?

É fácil misturar tudo, ser tudo problemas piscológicos, patologias, ou não ser nada, que não há patologias, que são simplesmente seres humanos a tentar dar seu melhor, a explorar limites, o difícil é perceber o que é patologia, e o que é exploração, mas se ficarmos demasiado focados nos resultados das performances, preferimos não ver aquilo que são por vezes problemas graves. Pior é ainda quando alimentamos algo que percebemos ser disfuncional para servir algum propósito estilístico, artístico, ou até mesmo monetário.

Ontem vi o documentário “Jim and Andy”, sobre o filme “Man on the moon” onde o Jim Carrey interpreta o comediante americano Andy Kaufman, e tanta coisa me fez confirmar este aproveitamento que fazemos das “disfunções” artísticas.

O Jim Carrey fez o filme como se tivesse sido possuído pelo espírito do Andy Kaufman, e também de um outro personagem criado pelo Andy Kaufman e o Robert Zmuda, o Tony Clifton, são momentos intensos, por vezes perturbadores, durante as filmagens onde o Jim não desmancha o personagem, vivendo durante o tempo que o filme foi rodado como se fosse uma reencarnação do Andy.

Há um momento durante as filmagens que as coisas estão a começar a ficar descontroladas e o realizador Milos Forman fala com o “Andy” ( o Jim deixou de assumir que era ele próprio, respondia como se do Andy se tratasse ), e o “Andy” questiona o realizador se quer que seja o Jim Carrey a fazer o filme, mas que ele acha que ele fará um mau trabalho, a resposta é para deixar as coisas como estão, isto é, continuar com um modo quase disfuncional de representar onde o actor deixa de existir, sucubimdo às exigências de um espírito encarnado dentro do actor.

Seria uma performance tão impressionante e tão genuína se o Jim Carrey não tivesse levado as coisas a um tal extremo?

Não sei, sei que quando acabou a rodagem do filme ele não sabia bem quem era, sabia que todos os problemas que tinha enquanto Jim continuavam lá, sabia que tinha tudo o que normalmente as pessoas querem, fama, sucesso, dinheiro, mas estava perfeitamente infeliz, tal como  o tenista André Agassi partilhou na sua autobiografia “Open” que foi o número do mundo mais infeliz.

Se não é a fama, o reconhecimento, o dinheiro que traz a realização a estas pessoas, serão tudo doenças a tratar?

Devemos nós simplesmente tratar as pessoas para nunca desejarem ser mais, alcançar mais?

Há algum problema em ser mediano?

Somos todos escravos da pressão para sermos excepcionais?

Numa outra ocasião, o Michel Gondry, outro realizador disse ao Jim Carrey (que tinha tido um desgosto amoroso) – estás tão lindo destroçado, mantém-te assim. Esse manter era com o objectivo da performance que ele teria num próximo filme cuja rodagem só começaria daí a um ano, o que é muito tempo para alguém se manter “destroçado” pela autenticidade de um personagem.

Valerá mesmo a pena?

Num artigo que li também esta semana dizia que talvez fosse mais acertado ter compaixão por aqueles que atingem mais do que o normal, os “over-achievers”, mais do que inveja, mais do que desejarmos ser como eles, ter aquilo que eles têm, seria mais saudável darmos graças de não termos aquela necessidade avassaladora de mostar ao mundo os nossos dotes, as nossas capacidades, que nada nos pára, que somos capazes do impossível. Não fui na conversa. Desculpem, não vou nisso.

Ao partilhar este artigo num grupo que faço parte no facebook, questionei o que as pessoas achavam, se concordavam, se achavam que seria possível alta performance sem o tal lado negro, e qual o meu espanto quando o surfista de ondas grandes Tom Carroll bi-campeão mundial, me responde que segundo ele, não é possível, que o lado negro é parte, é necessário para que os tais resultados de excepção apareçam.

Ora, se é necessário, qual a dose certa, e como perceber se estamos a ser demasiado duros connosco e como consequência, com as pessoas que amamos?

Qual a maneira de saber onde está a linha entre motivação e obcessão?

Quando é que deixa de ser saudável?

E mais importante de tudo, qual o preço que estou disposto a pagar?

Não ter uma motivação elevada, não significa que não hajam questões a abordar e a resolver, não quero que fiques a achar que estás bem só porque não te apetece alcançar mais, pode ser que simplesmente te estejas a esconder com medo de dançar com o teu lado mais escuro.

Todos os que admiramos, de alguma forma dançaram com o seu lado mais escuro, as suas inseguranças, e foi lá que encontraram as forças para se superarem e tornarem a sua vida mais plena, mesmo uma mãe que se levanta às seis da manhã para preparar o almoço dos filhos e depois os levar à escola dança com o seu desejo de dormir mais, e com o desejo de querer ser uma boa mãe, ou até mesmo dançar com as expectativas de não ser vista como uma má mãe. Há um sem fim de histórias de antepassados nossos que se levantavam antes do sol nascer, trabalhavam um dia inteiro, dias, semanas, meses, anos a fio sem nunca ninguém os ouvir queixar, o que não significa que não lhes apetecesse largar tudo, reclamar, chorar, bater, espernear, todos temos essa capacidade de ser o melhor e o pior, os que encontram alguma paz são aqueles que sabem o porquê daquilo que estão a fazer, mas um porquê que é importante para eles, não para cumprir expectativas, não para suprimir uma falta que tiveram na sua infância, uma humilhação que sofreram.

Já pensaste porque razões fazes o que fazes?

Ou as razões para não fazeres o que não fazes?

Este lado negro que estive aqui a falar é saudável, pode ser, acho que é o nosso medo de o aceitar, de o conhecer, que faz com que não queiramos falar abertamente dele, escolhemos não ver, por essa razão sugerimos logo medicação para a depressão, afastamo-nos daquele amigo ou familiar que está mais em baixo, não queremos apanhar aquilo de que ele sofre, mas no dia em que aquele amigo escreve um livro fantástico porque encarou e dançou com o seu lado negro, aplaudimos, referi mos em conversas que o conhecemos, tentamos então nessa altura ser contaminados pelo seu lado luminoso, o seu sucesso, o mesmo portador que anteriormente fugimos, e nos afastámos.

Se há alguma aprendizagem que retiro disto, alguma conclusão a que cheguei, é que tratamos demasiado cedo e aplaudimos demasiado tarde.

Parece que necessitamos de ver uma medalha, que só o vencedor merece ser reconhecido pelo esforço, a dedicação, quando até um quinto classificado tem de colocar tudo isso no seu treino.

Não é necessário esperar que tudo comece a rebentar pelas costuras para perceber que que há coisas que temos de alterar, ter uma perspectiva mais alargada do que estamos a fazer, e porque é que estamos a fazer e para quem é que estamos a fazer.

Somos rápidos a procurar uma cura para aquele desconforto, aquela inquietação, um penso rápido para nos sentirmos melhor, mas também somos muito lentos a reconhecer aquilo que já conseguimos atingir, que já cresecemos bastante, que somos hoje melhores que ontem, e é neste exercício de equilibrismo, nesta viagem permanente entre o que fui e o que quero ser que estamos em paz, felizes por estar tão somente no meio, aqui, no presente.

“Maybe you have to know the darkness before you can appreciate the light.”

Madeleine L’Engle

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