Não ser o Maior, não faz de mim mais Pequeno

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”

Madre Teresa de Calcutá

Uma série de acontecimentos foram catalizadores para chegar à conclusão  que serve de título a este post.

O primeiro foi mais uma provocação da minha amiga e anterior convidada Sónia Fernandes, para de uma vez por todas fazer aquilo que digo que quero fazer, ou então parar de dizer que quero fazer #shecalledonmybullshit, ou em portugês, chega de tretas.

Outro foi ouvir o Atul Gawande falar sobre a qualidade de vida de pessoas que estão perto da morte, e a pergunta que é importante saber responder é: O faz que de um dia, um bom dia?  Pode ser muita coisa, mas por vezes é bem mais básico do que eu pensava antes de me fazer essa pergunta. Qual seria o mínimo para um dia ser bom, pois com doentes terminais, há pequenos prazeres que se tornam uma fonte de felicidade e significado.

A juntar a isto um ouvinte do podcast fez-me uma sugestão de tema, que encaixa naquilo que me traz aqui hoje, não é bem directo, mas espero que responda. As questões foram:

– Fazes o teu melhor, és elogiado e sentes que não é suficiente. Que queres mais, para te satisfazer, para atingires mais patarames nas marcas que trabalhas.

– Estares neste registo e com a sensação que estar a dar mais do que os teus pares, teus colegas de equipa e de que este empenho não te leva a nada.

Para terminar a receita, adicionar uma entrevista que ouvi da Sheryl Sandberg, directora de operações do Facebook sobre a resiliência que teve de encontrar, de desenvolver para lidar com a perda repentina do marido.

Já deves estar a pensar – receita bonita, mas tenho fome e ainda não me deste nada para mastigar.

Certo, agora vou atacar o assunto.

As provocações certissímas da Sónia, confrontaram-me com uma série de mentiras que me tenho contado, e que acabo por passar para fora, de como quero ser um grande comunicador, organizar um evento do Falar Criativo ao vivo, ser uma referência em termos de podcasts em Portugal, como diziam os Ena Pá 2000 “andar nos copos com os artistas(….)quero subir à primeira divisão, da vida social”, ser o Maior, ser tão grande como aqueles que entrevisto, maior ainda, ser tão famoso que as pessoas pedem para tirar selfies comigo. O problema é que, na verdade isso tudo não sou eu, não que não me possa tornar, mas a que custo, e será isso mesmo que quero?

O fazer o Falar Criativo ao vivo é algo que gostava, mas apenas para conhecer as pessoas que me ouvem, saber quem são, e sentir que aquilo que faço liga outras pessoas, que dessas partilhas, algo poderia surgir que melhorasse a vida de outros, tudo o resto na verdade não é algo que busque.

A minha resposta ao ” O faz que de um dia, um bom dia?”, é bastante simples, passear na natureza, praia no inverno, e campo na primavera, ou fim do dia no verão, ler, e passar tempo com aqueles que me são próximos, logo, porque razão acho que preciso de tudo o resto que enunciei como objectivos?

Por achar que se tiver tudo o resto vou ter tempo para fazer aquilo que me deixa realmente feliz, e no processo para atingir esses objectivos tornar os meus dias uma luta constante para ser algo que não sou, acabar os dias cansado e não me ver mais próximo do sucesso que hipoteticamente trará tudo o resto.

Para ajudar à festa, ao ver outros a atingir os tais objectivos que digo querer, mas que no fundo não quero, fico amargo, invejoso, pergunto como é que “aquela besta consegue e eu não”, “como é que ando nisto há mais de quatro anos e não passo da cepa torta”, e todo um sem fim de fel dirigido aos outros, mas que acima de tudo me mata a mim.

Já referi que objectivo é sermos todos a melhor versão de nós próprio, mas a questão crucial é saber que versão é essa, pois por vezes acabamos a embarcar num barco que vai para um sítio muito interessante, mas que a nós não nos interessa nada. Há pessoas que nasceram para andar na ribalta, ganham vida nas festas a que vão, adoram sair à noite, conhecer pessoas novas todos os dias, mas eu não sou assim, nem quero ser, doloroso é só ter chegado a essa conclusão agora. Sou de voltar ao meu casulo, de sair, conhecer pessoas, mas sobretudo aprofundar relações com aquelas pessoas que já conheço, ler, ler é o meu paraíso, o meu refúgio, talvez por temer não saber, de achar que nos livros encontrarei as respostas que preciso, que encontrarei a vida que quero ter.

Mas sem acção, nada, nadinha, acontece ou muda.

Vejo agora mais claramente que se os tais objectivos não são os meus, na hora de agir páro, encolho-me, e isso sim me torna mais pequeno, a tal falta de acção que me queixo, me culpo, está enraizada  na sabedoria que o meu corpo tem de reconhecer as acções necessárias para concretizar os projectos que não são para mim, que no fundo, no fundo não são aquilo que me vai fazer chegar ao fim dos meus dias tranquilo, gozando a praia, as leituras, e os momentos com aqueles que amo.

A sociedade quer-nos fazer sentir que só sonhando em grande, em gigante, é que seremos aceites, e por isso, felizes, que todos podemos ser os maiores, mas poder não significa querer.

A possibilidade que todos temos de ser “os maiores”, tornou-se numa obrigação, deixou de ser só uma possibilidade.

Não estou a dizer que nos devemos resignar, borrifarmo-nos no nosso crescimento, mas não devemos fazer nada por sentirmos a obrigação de TER de ser o que não queremos ser. Queres ser famoso, força nisso, queres ser rico, força nisso, mas tenta perceber porque razão queres, e poderás chegar à conclusão que talvez não seja preciso muito, que não tens de levar a vida cansado e amargo para então, um dia, quem sabe ser feliz.

Quando não achamos que estamos a ser reconhecidos pelo nosso trabalho, é porque o estamos a fazer à espera de aprovação, não simplesmente por gostar do que fazemos, e mesmo quando achamos que os outros não se esforçam tanto como nós, é porque não temos a certeza se nos deveríamos esforçar tanto. O Michael Jordan, o Salvador Dali, o Frank Loyd Wright, nunca fizeram mais ou menos por acharem que os outros esperavam isso deles, fizeram-no pelo amor que tinham ao que faziam, e pelo amor de se superarem, de evoluirem. Se a motivação fosse externa, cedo tinham parado, desistido, esse motor “emprestado” que é “o que os outros esperam de nós”, a qualquer momento nos pode ser retirado, não é nosso.

O Pierre Weil, educador e psicólogo francês, tinham um conceito muito interessante, o dos mutantes, pessoas que pensam globalmente e agem localmente, eu ao querer ser o maior para poder atingir os objectivos que não eram meus, tornei-me a antítese, pensava localmente – o meu umbigo, o usar o podcast como forma de me sustentar – e agia globalmente – difundindo os exemplos de outros para o mundo através desse megafone que se tornou a internet. Se penso localmente, torno-me limitado na precepção que tenho do mundo, e dificilmente acrescento valor à vida de alguém. Se ajo globalmente, olho para as pequenas acções que estão à minha frente e considero-as pouco dignas do meu tempo, do meu esforço. Não poderia estar mais errado. Agir será sempre mais eficaz sobre o que controlamos, aquilo que está mesmo ali à minha frente, não sobre a possível opinião que este ou aquele ouvinte possa ter sobre a minha performance.

Acima de tudo, encontrei paz ao aceitar que não tenho de ser o maior, mas que isso em nada me torna mais pequeno.

Dúvidas ou sugestões, para rui@falarcriativo.com