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O preço do lado negro

“My experience with high performing individuals – that very last percentage of high performers – is that they either suffered trauma or humiliation or both. Because what would justify to develop that above average drive and ambition.”

Toto Wolf

Quanto é que pagamos todos para explorar os lados negros dos prodígios?

Porque razão somos tão críticos com este ou aquele atleta famoso, aquele actor vencedor de óscares, no momento em que descobrimos que cometeram um crime, que foram apanhados a beber uns copos, ou aquele empreendedor ambicioso que não prestava atenção aos filhos?

Tenho pensado muito na relação entre alta performance e desequilíbrios, emocionais, mentais, e acima de tudo a responsabilidade que todos temos no alimentar destas coisas.

Adoramos bater palmas, emocionamo-nos com feitos quase sobre humanos, valorizamos o sacrifício diário que muito atletas têm de se levantar às quatro, cinco da manhã para às seis estarem dentro da piscina, ou o caso  do empreendedor que trabalha dezasseis horas por dia.

Mas qual o custo disto para estas pessoas, para as pessoas à sua volta, e para nós enquanto sociedade?

Tenho mais perguntas do que respostas, tenho questionado muito as motivações dos “high performers”, como diz a frase do Toto Wolf por baixo dessa fome do sucesso, dessa vontade compulsiva é raro não estar um desequlíbrio, um vazio que é preciso preencher.

Porque razão aplaudimos em vez de tratar?

Será preciso tratar?

Poderá a performance elevada, a motivação, a fome de sucesso ser uma forma de minimizar os possíveis riscos associados a esses problemas emocionais que são a base que leva a que as pessoas se superem, e que superem aquilo que consideramos possível?

É fácil misturar tudo, ser tudo problemas piscológicos, patologias, ou não ser nada, que não há patologias, que são simplesmente seres humanos a tentar dar seu melhor, a explorar limites, o difícil é perceber o que é patologia, e o que é exploração, mas se ficarmos demasiado focados nos resultados das performances, preferimos não ver aquilo que são por vezes problemas graves. Pior é ainda quando alimentamos algo que percebemos ser disfuncional para servir algum propósito estilístico, artístico, ou até mesmo monetário.

Ontem vi o documentário “Jim and Andy”, sobre o filme “Man on the moon” onde o Jim Carrey interpreta o comediante americano Andy Kaufman, e tanta coisa me fez confirmar este aproveitamento que fazemos das “disfunções” artísticas.

O Jim Carrey fez o filme como se tivesse sido possuído pelo espírito do Andy Kaufman, e também de um outro personagem criado pelo Andy Kaufman e o Robert Zmuda, o Tony Clifton, são momentos intensos, por vezes perturbadores, durante as filmagens onde o Jim não desmancha o personagem, vivendo durante o tempo que o filme foi rodado como se fosse uma reencarnação do Andy.

Há um momento durante as filmagens que as coisas estão a começar a ficar descontroladas e o realizador Milos Forman fala com o “Andy” ( o Jim deixou de assumir que era ele próprio, respondia como se do Andy se tratasse ), e o “Andy” questiona o realizador se quer que seja o Jim Carrey a fazer o filme, mas que ele acha que ele fará um mau trabalho, a resposta é para deixar as coisas como estão, isto é, continuar com um modo quase disfuncional de representar onde o actor deixa de existir, sucubimdo às exigências de um espírito encarnado dentro do actor.

Seria uma performance tão impressionante e tão genuína se o Jim Carrey não tivesse levado as coisas a um tal extremo?

Não sei, sei que quando acabou a rodagem do filme ele não sabia bem quem era, sabia que todos os problemas que tinha enquanto Jim continuavam lá, sabia que tinha tudo o que normalmente as pessoas querem, fama, sucesso, dinheiro, mas estava perfeitamente infeliz, tal como  o tenista André Agassi partilhou na sua autobiografia “Open” que foi o número do mundo mais infeliz.

Se não é a fama, o reconhecimento, o dinheiro que traz a realização a estas pessoas, serão tudo doenças a tratar?

Devemos nós simplesmente tratar as pessoas para nunca desejarem ser mais, alcançar mais?

Há algum problema em ser mediano?

Somos todos escravos da pressão para sermos excepcionais?

Numa outra ocasião, o Michel Gondry, outro realizador disse ao Jim Carrey (que tinha tido um desgosto amoroso) – estás tão lindo destroçado, mantém-te assim. Esse manter era com o objectivo da performance que ele teria num próximo filme cuja rodagem só começaria daí a um ano, o que é muito tempo para alguém se manter “destroçado” pela autenticidade de um personagem.

Valerá mesmo a pena?

Num artigo que li também esta semana dizia que talvez fosse mais acertado ter compaixão por aqueles que atingem mais do que o normal, os “over-achievers”, mais do que inveja, mais do que desejarmos ser como eles, ter aquilo que eles têm, seria mais saudável darmos graças de não termos aquela necessidade avassaladora de mostar ao mundo os nossos dotes, as nossas capacidades, que nada nos pára, que somos capazes do impossível. Não fui na conversa. Desculpem, não vou nisso.

Ao partilhar este artigo num grupo que faço parte no facebook, questionei o que as pessoas achavam, se concordavam, se achavam que seria possível alta performance sem o tal lado negro, e qual o meu espanto quando o surfista de ondas grandes Tom Carroll bi-campeão mundial, me responde que segundo ele, não é possível, que o lado negro é parte, é necessário para que os tais resultados de excepção apareçam.

Ora, se é necessário, qual a dose certa, e como perceber se estamos a ser demasiado duros connosco e como consequência, com as pessoas que amamos?

Qual a maneira de saber onde está a linha entre motivação e obcessão?

Quando é que deixa de ser saudável?

E mais importante de tudo, qual o preço que estou disposto a pagar?

Não ter uma motivação elevada, não significa que não hajam questões a abordar e a resolver, não quero que fiques a achar que estás bem só porque não te apetece alcançar mais, pode ser que simplesmente te estejas a esconder com medo de dançar com o teu lado mais escuro.

Todos os que admiramos, de alguma forma dançaram com o seu lado mais escuro, as suas inseguranças, e foi lá que encontraram as forças para se superarem e tornarem a sua vida mais plena, mesmo uma mãe que se levanta às seis da manhã para preparar o almoço dos filhos e depois os levar à escola dança com o seu desejo de dormir mais, e com o desejo de querer ser uma boa mãe, ou até mesmo dançar com as expectativas de não ser vista como uma má mãe. Há um sem fim de histórias de antepassados nossos que se levantavam antes do sol nascer, trabalhavam um dia inteiro, dias, semanas, meses, anos a fio sem nunca ninguém os ouvir queixar, o que não significa que não lhes apetecesse largar tudo, reclamar, chorar, bater, espernear, todos temos essa capacidade de ser o melhor e o pior, os que encontram alguma paz são aqueles que sabem o porquê daquilo que estão a fazer, mas um porquê que é importante para eles, não para cumprir expectativas, não para suprimir uma falta que tiveram na sua infância, uma humilhação que sofreram.

Já pensaste porque razões fazes o que fazes?

Ou as razões para não fazeres o que não fazes?

Este lado negro que estive aqui a falar é saudável, pode ser, acho que é o nosso medo de o aceitar, de o conhecer, que faz com que não queiramos falar abertamente dele, escolhemos não ver, por essa razão sugerimos logo medicação para a depressão, afastamo-nos daquele amigo ou familiar que está mais em baixo, não queremos apanhar aquilo de que ele sofre, mas no dia em que aquele amigo escreve um livro fantástico porque encarou e dançou com o seu lado negro, aplaudimos, referi mos em conversas que o conhecemos, tentamos então nessa altura ser contaminados pelo seu lado luminoso, o seu sucesso, o mesmo portador que anteriormente fugimos, e nos afastámos.

Se há alguma aprendizagem que retiro disto, alguma conclusão a que cheguei, é que tratamos demasiado cedo e aplaudimos demasiado tarde.

Parece que necessitamos de ver uma medalha, que só o vencedor merece ser reconhecido pelo esforço, a dedicação, quando até um quinto classificado tem de colocar tudo isso no seu treino.

Não é necessário esperar que tudo comece a rebentar pelas costuras para perceber que que há coisas que temos de alterar, ter uma perspectiva mais alargada do que estamos a fazer, e porque é que estamos a fazer e para quem é que estamos a fazer.

Somos rápidos a procurar uma cura para aquele desconforto, aquela inquietação, um penso rápido para nos sentirmos melhor, mas também somos muito lentos a reconhecer aquilo que já conseguimos atingir, que já cresecemos bastante, que somos hoje melhores que ontem, e é neste exercício de equilibrismo, nesta viagem permanente entre o que fui e o que quero ser que estamos em paz, felizes por estar tão somente no meio, aqui, no presente.

“Maybe you have to know the darkness before you can appreciate the light.”

Madeleine L’Engle

Fala comigo, pergunta, partilha. rui@falarcriativo.com

 

Rituais

“We are what we repeatedly do. Excellence, then, is not an act, but a habit.”

Will Durant

Ontem reenviei um email a convidar uma pessoa que queria muito ter no podcast.

A pessoa em questão tinha dito que sim, sugeriu uma data, no mesmo dia respondi, nunca obtive resposta.

Como estas coisas acontecem, cinco meses depois enviei novo email a perguntar se ainda havia disponibilidade. Tive uma resposta automática a dizer que a pessoa estava de férias. Tudo normal.

Passados dez minutos de reenviar o email ontem, obtive uma resposta extremamente seca, referindo que eu haveria ignorado o email por cinco meses, enviado um novo email como se nada fosse, e a informar-me que já não haveria interesse e disponibilidade para ser entrevistada. Caiu-me tudo.

O sangue veio a uma velocidade assustadora para a minha cabeça, senti a cara quase a explodir, senti-me pequenino, como se me tivessem levado com cinco anos a um mega centro comercial e me tivessem deixado lá, com todas as pessoas a apontarem-me o dedo e a dizerem-me – Foste rejeitado.

Aquilo que me assustou na minha reacção foi a sensação de fragilidade que um simples email, ainda por cima um mal entendido despoletou em mim.

A pessoa que o escreveu reagiu sabendo apenas parte da história, se não recebeu a tal resposta que ao que parece não chegou ao destino, eu fiz tudo o que poderia ter feito, em momento algum tive má intenção, no entanto reagi como se tivesse feito algo de profundamente errado.

Reagimos assim porquê?

Porque fomos condicionados pelas reacções das pessoas à nossa volta a fazê-los sentir-se bem, a ter a resposta certa na ponta da língua, a nunca falhar, e a nunca considerar imprevistos e mal entendidos. Todos assumimos que se estou mal, alguém me fez sentir assim, e/ou é obrigação dos outros fazerem-me sentir melhor. Nada disso.

A escola espera que saibamos as respostas certas, os nossos pais e amigos assumem que é parte do contracto de partilha de espaço transformar o dia dessas pessoas em algo melhor, porém ninguém nos vai conseguir fazer felizes se nós não formos capazes de aceitar a responsabilidade de cada um pela sua própria felicidade, é um trabalho interno, e nunca poderá ser de outra forma. Desengane-se quem acha que quando encontrar as pessoas certas, seja no trabalho ou em qualquer outro sítio onde haja relações pessoais, tudo vai ficar perfeito, agora e para sempre.

Já referi a importância de nos rodearmos de pessoas que nos apoiam, mas que também nos questionam e desafiam, mas a base, o centro somos nós, as nossas escolhas de todos os dias.

É aqui que entram os rituais, foram esses rituais que ontem me salvaram.

Todos os dias, logo a seguir a acordar e ir à casa de banho, uso um diário com perguntas que me fazem reflectir sobre algo, é um diário ligado ao estoicismo, acompanhado por um livro que tem reflexões de filósofos, e que me permitem confrontar as minhas ideias com ideias que têm milhares de anos, e que por essa razão resistiram ao teste do tempo.

Ainda meio a dormir confronto-me com crenças que tenho, e ao mesmo tempo melhores maneiras de olhar para as coisas.

Por essa razão ontem, após a avalanche de emoção que um simples email provocou, lembrei-me da minha frase preferida do imperador Marco Aurélio:

“Escolhe não te sentires atingido, e não te sentirás atingido. Se não te sentes atingido, é  porque não o foste.”

Ao entrar em acção uma racionalização, e sobretudo uma nova perspectiva, um novo olhar sobre o assunto, foi possível travar a avalanche, talvez não travar, mas ter a capacidade de olhar em redor e encontrar um abrigo temporário onde pude recuperar forças, e olhar para a situação apenas como um mal entendido, em que ninguém poderia ter feito nada de diferente, e aceitar o lado caótico da vida, não controlamos quase nada, apesar de acharmos que sim.

Os rituais são uma forma eficaz de ir arranjando umas bóias, uns abrigos temporários, que reforçam as nossas capacidades para lidar com o que inevitavelmente irá acontecer, nunca é “se”, é sempre “quando”.

Se não tens rituais, fica sabendo que tens o ritual de ser levado por tudo o que acontece à tua volta, mas sem qualquer tipo de influência da tua parte, és uma bola de pinball a bater de situação em situação, vais-te perdendo nos acontecimentos, absorvendo todo o caos que te rodeia constantemente, afastas-te do teu centro, o local da tua força. Todos os grandes líderes, e todos os grandes criativos têm rituais, nem que seja o ritual de todos os dias se sentarem a escrever, o ritual de todos os dias ir para o atelier pintar, o ritual de todos os dias pensar no fim do dia o que funcionou e o que não funcionou na sua performance, o ritual de, todos os dias ou todas as semanas reunir com o tal grupo de pessoas que os apoiam e os desafiam.

Não sei se já ouviste muitas das entrevistas do podcast, deste podcast, mas de cento e muitas entrevistas, talvez consigas encontrar um ou dois em que os rituais serão menos claros, mas todos têm. É impossível  construir algo a não ser peça por peça, não há nada, mesmo nada, que apareça sem causas e condições para que surja.

A pergunta de um milhão é: Queres criar ou ser criado?

Queres olhar para a tua vida e aperceberes-te que “tu” nunca falaste, que foi sempre a voz de outros que saiu da tua boca?

Os rituais são os pilares, a estrutura base, o porto seguro onde remendas o casco do barco depois de navegares em águas revoltas, são o farol que te ajuda a não perderes a noção de quem és, onde estás e para onde queres ir.

Não tenhas problemas numa fase inicial copiar rituais de outros, experimenta, testa, mas considera sempre rituais que te criam uma estrutura sobre a qual operas, seja chegar sempre à mesma hora ao teu local de criação, seja ler todos os dias em momentos escolhidos por ti, seja um momento em que questionas as tuas percepções, um ritual em que aprecias o que de bom te acontece, reconhecer a ajuda de alguém na tua vida, seja o ritual de praticares desporto, o ritual de meditar, o que quer que seja que sintas que te aproxima de ti e daquilo que queres ser e fazer.

Fico à espera dos teus rituais, e quando pensares sobre eles, pensa naqueles que melhor te servem, aposta nesses, e partilha-os com os que sabes também precisar desse porto de abrigo.

Se algum dia vou entrevistar a tal pessoa? Não sei, se acontecer, sei que não vou levar a carga do que aconteceu, porque nunca cheguei a ser atingido.

Fala comigo, pergunta, partilha. rui@falarcriativo.com

(In)tolerância e (Im)permanência

 “O vencedor é apenas um derrotado que tentou mais uma vez.”

George M. Moore, Jr

“A nossa capacidade para tentar, tentar, tentar, é indissociável da nossa capacidade para falhar, falhar, falhar.”

Ryan Holiday

Sabes qual é a capacidade mais importante para teres sucesso?

“Será a confiança?” perguntas tu.

Muitas pessoas dirão que sim, que sem confiança para enfrentares todos os obsctáculos que um caminho para algo maior tem, não vais longe.

Pois deixa-me dizer-te que é meia verdade, a confiança é sem dúvida importante, a confiança pode facilmente tornar-se em arrogância, convenceres-te que és invencível, e pelo caminho destruir tudo à tua volta.

A capacidade mais importante que a confiança, é a capacidade de te perdoares, a autocompaixão, a tolerância que tens contigo, com as tuas falhas, os teus erros.

Se eu for capaz de aceitar que falho, se aceitar que posso cometer erros, mais facilmente me atreverei a tentar, e tentar, até que eventualmente algo vai correr bem, só não acontecerá se em cada erro eu não aprender nada, e mesmo isso pode ser uma aprendizagem. Como diz a frase que referi no início o vencedor é alguém que foi um perdedor, mas que voltou a tentar, porém temos, eu pelo menos tinha bastante, a tendência para olhar só para o que correu bem, valorizar apenas os sucessos, esquecendo-me que esses sucessos, essas vitórias são sempre construídas sobre derrotas, mesmo que essas derrotas não sejam públicas, tenho a certeza que em treino, na preparação de qualquer coisa que valha a pena há erros de trajectória, que se forem aceites e corrigidos, fazem parecer o processo perfeito, e como seres que buscamos a perfeição, recusamo-nos a ver, a acreditar que o sujo, o mal feito, o feio, existem, que fazem parte.

Significa isto que devo ser um baldas, que pouco se importa se é bem ou mal feito?

Não. Devo sim ser tolerante comigo, com a minha aprendizagem, com o meu caminho, e nesse caminho ser tolerante com os outros, com os seus erros, aprender com os erros deles, ajudando naquilo que posso, sendo aquela voz que diz – vá lá, tenta outra vez, falhar faz parte. Todos precisamos de ouvir essa voz, quer seja vinda de dentro, quer seja vinda de fora, e mais facilmente conseguiremos ser essa voz para os outros, se também o formos para nós.

Como podes perceber, a minha capacidade para lidar com as minhas falhas, ou com as falhas dos outros está misturada com o conceito de impermanência que os budistas tanto referem, é a minha incapacidade para entender o papel deste conceito que faz com que não seja tão fácil aceitar que possa falhar, que os outros possam falhar, e que nem tudo corra como esperado.

Se eu interiorizar que nada é definitivo, que eu não estou na posse de toda a informação em  nenhum momento, pois nada é estático, serei capaz de relativizar tudo o que acontece, o bom e o mau. Serei muito mais tolerante, e também serei muito mais humilde nos momentos em que as coisas correm bem, terei maior presença para entender que nem tudo me pertence, nem as vitórias nem as derrotas.

Ao perceber que uma hora má não tem de significar um dia mau, posso colocar o contador a zero, aceitar o que aconteceu, limpar o palato, reunir forças e continuar sem ter a alma tingida por algo que não correu como esperava. É a energia negativa que carregamos de tarefa para tarefa que muitas vezes transforma uma semana má, num mês mau, num ano mau, numa vida má. A má energia tem tanta capacidade para gerar momento como a boa, cabe a nós decidir qual a energia que queremos alimentar, qual a que queremos que cresça. Por vezes custa parar um comboio de má energia que vem embalado por anos e anos de autocrítica, de nos tratar-mos mal, de sermos os nossos piores inimigos, mas chega um momento em que temos de decidir cortar com essa energia, deixar de fazer de um lugar de raiva, de reacção, de um lugar que nos consome mais energia do que aquela que nos dá.

Quando fazemos porque queremos oferecer o melhor de nós ao mundo, fazemos, sem porquês, sem esperar nada em troca, fazemos, mas para oferecer o melhor de nós temos de aceitar o pior de nós, limpar o palato, e voltar a tentar.

 

Motivação e Paciência

“Most people overestimate what they can do in one year and underestimate what they can do in ten years.”

Bill Gates

Neste buffet de informação sem fim que é o mundo em que vivemos, achamos – eu sou culpado disso – que é o próximo video que vou ver, o próximo artigo que vou ler, o próximo livro que vou estudar, a próxima conversa que vou ter, são todas estas coisas vão resolver tudo, que ao ter o poder de escolher todos os artigos, e todos os videos possíveis, vou encontrar a peça de informação que falta para avançar, para ser feliz, para… o que for. Mas nunca é, ou muito raramente é.

Tenho andado a pensar sobre esta questão das longas distâncias, da persistência, e como isto se relaciona com a motivação para fazer alguma coisa, o que quer que seja que escolhi e quero fazer.

Primeiro, escolher, a grande dificuldade para mim, e para muitas pessoas com quem vou falando, porque há muitas escolhas, mais difícil se torna decidir, o famoso paradoxo da escolha. Se a única comida disponível para almoçar for batatas com massa e eu estiver com fome, a escolha torna-se óbvia e não um momento de  confusão ou resistência, e se não gostar mesmo nada de massa ou batatas também é fácil, não como, e busco alternativa.

A decisão é muito simples como me disse o anterior convidado Miguel Oliveira, quando teve de decidir entre a fotografia e a arquitectura, assumindo que as duas iriam ter obstáculos, perguntou-se qual lhe seria mais fácil suportar as longas horas, os dias menos bons.

Por isso pergunto-te, o que estás disposto a aguentar, ou qual é aquela coisa que vale a pena sofrer por?

Não há progresso sem falhas, a receita para ter boas ideias é ter muitas más ideias e, estatísticamente as boas ideias, as grandes ideias acabam por ver a luz do dia, temos é de retirar todas as péssimas que as estão a tapar.

Sim, tudo na vida é sofrimento, intervalado por aqueles breves momentos de descoberta da tal ideia suterrada mesmo lá em baixo, no fundo do baú, mas se não escavares, não te sujares, arranhares, suares, ela nunca virá ao de cima. Por tudo ser sofrimento, o truque é aprender a gostar de nos arranharmos, aprender a enfrentar o papel em branco com um sorrizinho na cara de quem está desejoso de entrar na luta, tipo – não tens hipótese papel em branco, vou escrever quer queiras quer não.

Cada pequena, micro batalha, que ganhamos dá-nos a motivação para continuar, pois sabemos que somos capazes, temos provado a nós mesmos que temos o que é preciso para avançar, sem dramas, sem bloqueios artísticos, sem autoflagelação, sem procrastinação, como diz o Coach Sommers “Show up. Do the work. Go home”. Isto para mim tem maiores implicações do que pode parecer à primeira vista, tudo se torna exponencialmente mais fácil, a única obrigação é aparecer, não é obrigatório ser fantástico, retira pressão, fazer o trabalho, e uma vez que já comecei, que já apareci, mais vale fazê-lo o melhor que sei e consigo, e no fim ir para casa, desligar, sem estar a pensar no que devia ter feito, se é uma obra prima, se todos vão gostar, e por aí adiante, é simplesmente aparecer, fazer, e desligar.

Para estabelecer hábitos, uma das técnicas usadas é transformar o hábito novo numa coisa simples, o mais básica possível. Por exemplo, para lavar os dentes, o mínimo “obrigatório” é um dente, apenas um, pegar na escova e lavar um dente, ninguém acha complicado lavar só um dente, por isso aparece. Porém, é parvo só lavar um dente, e uma vez que já tenho a escova na mão, a pasta, porque não lavar os dentes todos?

Se há algo que desejas fazer, não estabeleças um prazo curto, porque isso implica haver grande evolução em pouco tempo, e tudo o que vale a pena demora, e ao não veres a tal evolução rápida vais ficar frustrado e desistir, convences-te que aquilo não é para ti.

Falo por mim, hoje há pessoas que me encontram “nas internets” que nunca me teriam encontrado se eu já tivesse saído, se tivesse fechado portas, tenho-me mantido cá, uns dias melhor outros nem por isso, acredito muito mais que sou capaz, mas se pudesse dar um conselho ao rapaz que começou isto há quatro anos, era o conselho de não colocar prazos curtos, aparecer, fazer o trabalho e ir para casa, renovar baterias, descansar e desse lugar de paz e energia, tudo o que fizesse no dia seguinte seria bem melhor do que voltar a aparecer revoltado porque os resultados não aparecem.

Por outro lado, não saberia dar valor ao conselho de alhuém que me dissesse que era tão simples como aparecer, fazer o trabalho, e ir para casa.

“Good judgment comes from experience, and a lot of that comes from bad judgment.”

Will Rogers

Dúvidas ou sugestões, para rui@falarcriativo.com

Não ser o Maior, não faz de mim mais Pequeno

“Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.”

Madre Teresa de Calcutá

Uma série de acontecimentos foram catalizadores para chegar à conclusão  que serve de título a este post.

O primeiro foi mais uma provocação da minha amiga e anterior convidada Sónia Fernandes, para de uma vez por todas fazer aquilo que digo que quero fazer, ou então parar de dizer que quero fazer #shecalledonmybullshit, ou em portugês, chega de tretas.

Outro foi ouvir o Atul Gawande falar sobre a qualidade de vida de pessoas que estão perto da morte, e a pergunta que é importante saber responder é: O faz que de um dia, um bom dia?  Pode ser muita coisa, mas por vezes é bem mais básico do que eu pensava antes de me fazer essa pergunta. Qual seria o mínimo para um dia ser bom, pois com doentes terminais, há pequenos prazeres que se tornam uma fonte de felicidade e significado.

A juntar a isto um ouvinte do podcast fez-me uma sugestão de tema, que encaixa naquilo que me traz aqui hoje, não é bem directo, mas espero que responda. As questões foram:

– Fazes o teu melhor, és elogiado e sentes que não é suficiente. Que queres mais, para te satisfazer, para atingires mais patarames nas marcas que trabalhas.

– Estares neste registo e com a sensação que estar a dar mais do que os teus pares, teus colegas de equipa e de que este empenho não te leva a nada.

Para terminar a receita, adicionar uma entrevista que ouvi da Sheryl Sandberg, directora de operações do Facebook sobre a resiliência que teve de encontrar, de desenvolver para lidar com a perda repentina do marido.

Já deves estar a pensar – receita bonita, mas tenho fome e ainda não me deste nada para mastigar.

Certo, agora vou atacar o assunto.

As provocações certissímas da Sónia, confrontaram-me com uma série de mentiras que me tenho contado, e que acabo por passar para fora, de como quero ser um grande comunicador, organizar um evento do Falar Criativo ao vivo, ser uma referência em termos de podcasts em Portugal, como diziam os Ena Pá 2000 “andar nos copos com os artistas(….)quero subir à primeira divisão, da vida social”, ser o Maior, ser tão grande como aqueles que entrevisto, maior ainda, ser tão famoso que as pessoas pedem para tirar selfies comigo. O problema é que, na verdade isso tudo não sou eu, não que não me possa tornar, mas a que custo, e será isso mesmo que quero?

O fazer o Falar Criativo ao vivo é algo que gostava, mas apenas para conhecer as pessoas que me ouvem, saber quem são, e sentir que aquilo que faço liga outras pessoas, que dessas partilhas, algo poderia surgir que melhorasse a vida de outros, tudo o resto na verdade não é algo que busque.

A minha resposta ao ” O faz que de um dia, um bom dia?”, é bastante simples, passear na natureza, praia no inverno, e campo na primavera, ou fim do dia no verão, ler, e passar tempo com aqueles que me são próximos, logo, porque razão acho que preciso de tudo o resto que enunciei como objectivos?

Por achar que se tiver tudo o resto vou ter tempo para fazer aquilo que me deixa realmente feliz, e no processo para atingir esses objectivos tornar os meus dias uma luta constante para ser algo que não sou, acabar os dias cansado e não me ver mais próximo do sucesso que hipoteticamente trará tudo o resto.

Para ajudar à festa, ao ver outros a atingir os tais objectivos que digo querer, mas que no fundo não quero, fico amargo, invejoso, pergunto como é que “aquela besta consegue e eu não”, “como é que ando nisto há mais de quatro anos e não passo da cepa torta”, e todo um sem fim de fel dirigido aos outros, mas que acima de tudo me mata a mim.

Já referi que objectivo é sermos todos a melhor versão de nós próprio, mas a questão crucial é saber que versão é essa, pois por vezes acabamos a embarcar num barco que vai para um sítio muito interessante, mas que a nós não nos interessa nada. Há pessoas que nasceram para andar na ribalta, ganham vida nas festas a que vão, adoram sair à noite, conhecer pessoas novas todos os dias, mas eu não sou assim, nem quero ser, doloroso é só ter chegado a essa conclusão agora. Sou de voltar ao meu casulo, de sair, conhecer pessoas, mas sobretudo aprofundar relações com aquelas pessoas que já conheço, ler, ler é o meu paraíso, o meu refúgio, talvez por temer não saber, de achar que nos livros encontrarei as respostas que preciso, que encontrarei a vida que quero ter.

Mas sem acção, nada, nadinha, acontece ou muda.

Vejo agora mais claramente que se os tais objectivos não são os meus, na hora de agir páro, encolho-me, e isso sim me torna mais pequeno, a tal falta de acção que me queixo, me culpo, está enraizada  na sabedoria que o meu corpo tem de reconhecer as acções necessárias para concretizar os projectos que não são para mim, que no fundo, no fundo não são aquilo que me vai fazer chegar ao fim dos meus dias tranquilo, gozando a praia, as leituras, e os momentos com aqueles que amo.

A sociedade quer-nos fazer sentir que só sonhando em grande, em gigante, é que seremos aceites, e por isso, felizes, que todos podemos ser os maiores, mas poder não significa querer.

A possibilidade que todos temos de ser “os maiores”, tornou-se numa obrigação, deixou de ser só uma possibilidade.

Não estou a dizer que nos devemos resignar, borrifarmo-nos no nosso crescimento, mas não devemos fazer nada por sentirmos a obrigação de TER de ser o que não queremos ser. Queres ser famoso, força nisso, queres ser rico, força nisso, mas tenta perceber porque razão queres, e poderás chegar à conclusão que talvez não seja preciso muito, que não tens de levar a vida cansado e amargo para então, um dia, quem sabe ser feliz.

Quando não achamos que estamos a ser reconhecidos pelo nosso trabalho, é porque o estamos a fazer à espera de aprovação, não simplesmente por gostar do que fazemos, e mesmo quando achamos que os outros não se esforçam tanto como nós, é porque não temos a certeza se nos deveríamos esforçar tanto. O Michael Jordan, o Salvador Dali, o Frank Loyd Wright, nunca fizeram mais ou menos por acharem que os outros esperavam isso deles, fizeram-no pelo amor que tinham ao que faziam, e pelo amor de se superarem, de evoluirem. Se a motivação fosse externa, cedo tinham parado, desistido, esse motor “emprestado” que é “o que os outros esperam de nós”, a qualquer momento nos pode ser retirado, não é nosso.

O Pierre Weil, educador e psicólogo francês, tinham um conceito muito interessante, o dos mutantes, pessoas que pensam globalmente e agem localmente, eu ao querer ser o maior para poder atingir os objectivos que não eram meus, tornei-me a antítese, pensava localmente – o meu umbigo, o usar o podcast como forma de me sustentar – e agia globalmente – difundindo os exemplos de outros para o mundo através desse megafone que se tornou a internet. Se penso localmente, torno-me limitado na precepção que tenho do mundo, e dificilmente acrescento valor à vida de alguém. Se ajo globalmente, olho para as pequenas acções que estão à minha frente e considero-as pouco dignas do meu tempo, do meu esforço. Não poderia estar mais errado. Agir será sempre mais eficaz sobre o que controlamos, aquilo que está mesmo ali à minha frente, não sobre a possível opinião que este ou aquele ouvinte possa ter sobre a minha performance.

Acima de tudo, encontrei paz ao aceitar que não tenho de ser o maior, mas que isso em nada me torna mais pequeno.

Dúvidas ou sugestões, para rui@falarcriativo.com