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Brinca, brinca…

“All play is associated with intense thought activity and rapid intellectual growth. The highest form of research is essentially play. ” Neville V. Scarfe

Na semana passada chamaram-me “puto”, e o que associo a essa palavra é brincadeira, o “puto reguila”, um nome carinhoso que serve para nos levar de volta ao tempo em que nos era permitido brincar.

Já fiz, juntamente com a Anita Silva no Falar mais Criativo, um episódio sobre o “play” o jogar, brincar, mas desta vez vou falar de uma maneira mais pessoal, do meu ponto de vista.

Falar mais Criativo – episódio 14, Play (jogar/brincar)

A capacidade de brincar, de fazer de conta é essencial para que possamos crescer, evoluir, e esta coisa de “levar a vida a sério” impede-nos de atingirmos o nosso melhor.

Porquê?

Porque, como se costuma dizer, a maneira de pensar que nos levou a chegar ao problema que enfrentamos, não nos vai levar a outro lado, logo a capacidade de pensar de outra forma, de imaginar como outra pessoa enfrentaria esse mesmo problema, é essencial, e nada melhor para treinar essa capacidade do que brincar.

O brincar, ao contrário do que muita gente se convenceu, quando lhe disseram que tinham de crescer, que tinham de parar com a brincadeira agora que já eram crescidos, não é o caos, não é um espaço sem regras onde tudo é permitido. O jogo, a brincadeira para ser motivante e para nos prender tem de ter regras, tem de nos desafiar a superar obstáculos, a criar novas maneiras de fazer aquilo que as regras ditam, mas de uma maneira nova, inovadora que nos permite atingir o nosso objectivo de ganhar, e entenda-se aqui o ganhar como a superação, que pode ser simplesmente a auto superação.

Há um ponto na vida de todas as pessoas em que começamos a julgar-nos e aos outros quando brincamos, “vê lá se cresces” costumam dizer. Se neste caso, crescer, significasse mesmo aquilo que deveria, então seríamos melhores brincalhões, não menos brincalhões.

Adoramos rir com as manifestações de brincadeira que os humoristas nos presenteiam, adoramos voltar a rir da palavra “pum”, “cócó”, e todas essas referências escatológicas, adoramos entrar nesse mundo proibido, nesse mundo onde não temos de ser nada e podemos ser tudo.

Esta semana os Gato Fedorento, Ricardo Araújo Pereira, Zé Diogo Quintela, Miguel Góis, e o único que ainda não entrevistei, o Tiago Dores, foram à Prova Oral do Fernando Alvim e é fantástico ver que muito daquilo que os fez ter o sucesso e o impacto que tiveram em Portugal, tem a ver com a imaturidade que conseguiram manter nas relações que mantêm entre si. Desde as bocas, os calduços, as alcunhas, tudo demonstra que entre eles é permitido brincar, podem gozar à vontade sem que ninguém sinta que lhe estão a faltar ao respeito, entre eles, as regras estão claras, e existem, tal como já referi.

Nestes ambientes podemos ser mais patetas, desligar de alguma forma aquelas partes do cérebro que estão sempre a julgar a situação, e acima de tudo a manter-nos conscientes de nós próprios, e este foco demasiado grande em mim, e naquilo que que penso que projecto para os outros, não me permite ver algo de novo, algo de criativo, fico preso nos meus padrões, nas maneiras de pensar que não vão para além daquilo que já existe.

Faço parte de um grupo de Teatro de Pais, no colégio da minha filha mais velha, e todos os anos, uma pessoa do grupo escreve uma peça original, controem-se cenários e adereços, e fazemos apresentações para os alunos do colégio, e uma apresentação aberta à comunidade, qualquer pessoa pode assistir. Faz hoje uma semana, fizemos três apresentações, no mesmo dia, segundo ciclo, pré-escolar, e primeiro ciclo.

Nesse grupo é fantástico ver que estes “crescidos” estes pais responsáveis que os miúdos conhecem, se permitem ser tontos, patetas, gozões, rir, fazer rir, e como acontece a maior parte das vezes, chorar ao vermos a alegria que proporcionamos àquelas crianças. Ali é permitido, as regras são claras, é para fazer bem feito, mas é obrigatório divertirmo-nos, e este ano foi o que tornou a peça especial, tivemos menos tempo para ensaiar, o texto não estava tão bem sabido, mas a brincadeira fez-nos ser criativos no momento em que alguém falhava e se esquecia da fala, houve até uma cena em que duas pessoas se esqueceram de entrar, e ninguém deu por isso, houve atrasos na entrada de personagens que foram superados por invenção de texto no momento.

A vida também nos surpreende, há personagens que saem, há adereços que não temos, mas temos de continuar a peça, “the show must go on”, e se encararmos a vida com um olhar de brincadeira, de fazer de conta, nada nos mete medo, podemos e devemos ser tudo aquilo que quisermos.

É fantástico ver os miúdos espantados, e alegremente surpreendidos por ver adultos a fazer aquelas figuras, é maravilhoso ver nos olhos deles que é possível brincar quando forem mais velhos, e é até engraçado ver os filhos dos actores e actrizes por vezes confrontarem-se com um lado dos pais que talvez nem conhecessem. Permitam-se, os miúdos agradecem.

Se os teus amigos não querem brincar contigo, cria as tuas próprias brincadeiras, busca novos companheiros de brincadeira, mostra o divertido que é brincar, mostra acima de tudo que o brincar é uma forma de investigação, e essa forma de investigação é o que te faz encontrar as coisas que procuras, que mais até do que isso, é não encontrar o que procuras, e fazer ainda melhor com o que encontras.

Aquilo que chamamos de realidade é em si mesmo uma construção, não é real, por essa razão quantos mais versados formos nos mundos imaginários, o tal faz de conta, mais facilmente conseguiremos moldar os acontecimentos para encaixarem numa construção da dita realidade que é mais agradável, divertida, tolerante e com potencial de crescimento e expansão.

“A originalidade só acontece nos limites da realidade.”

Darren Aronofsky

A originalidade é feita de experiência, de desafio, e não há melhor espaço para isso que o jogo e a brincadeira.

Brinca e deixa brincar deveria ser o lema do nosso sistema educativo.

Qualquer dúvida ou sugestão, rui@falarcriativo.com

 

Burro Velho

“Aquilo que precisamos não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir.”

William Wordsworth

Esta semana fiz quarenta e dois anos, e é engraçado ouvir as pessoas sempre a diminuir a nossa idade, na esperança que também o façamos para elas.

Qual a razão para acharmos que envelhecer é um processo que deverá ser parado?

Que coisas são essas que o passar dos anos nos retiram para pensarmos que o bom mesmo será não ficar mais velho?

Haverá mesmo algo tão vincadamente jovem que seja insubstituível?

Aquilo que queremos para nossa vida, aquilo que nos move, só pode ser encontrado enquanto somos novos?

Tantas perguntas, tantas inquietações.

Se formos pensar bem sobre o assunto, e questionarmos as nossas ideias pré concebidas, iremos com certeza perceber que o medo de envelhecer está todo dentro da nossa cabeça.

Há coisas que perdemos, sem dúvida, mas perdemos mais porque assumimos que assim deve ser, que é natural. Por exemplo se uma criança ou jovem se esquece de alguma coisa, é simplesmente esquecido, cabeça no ar, mas se alguém nos seus quarenta, cinquenta, sessenta anos se esquece de algo é automaticamente rotulado como “coisas da idade”. Se um jovem sente dificuldade a sair do carro, é apenas alguém que precisa de fazer ginástica, de se mexer mais e melhor, se for uma pessoa mais velha, é assumido que se trata da “velhice a chegar”.

Já falei sobre a importância daquilo que nos dizemos, da importância daquilo que dizemos aos outros, e da importância daquilo que retemos sobre o que nos é dito, e neste caso, da percepção do nosso estado de juventude é fundamental perceber que estas mensagens limitadoras são uma sentença de morte.

Eu faço aquilo que acho que sou capaz, e se ainda não sou capaz é porque ainda não desenvolvi todas as capacidades para o fazer, também aqui se um jovem está a aprender a dar cambalhotas e ainda não consegue aceitamos que ainda tem algo para aprender, que ainda não tem as valências necessárias, mas se uma pessoa com cinquenta ou sessenta anos decide aprender pela primeira vez a dar uma cambalhota é lhe dito “és velho demais para essas coisas”.

Mas porque carga d’água estás tu a falar destas coisas aqui?

A razão é simples, nas áreas criativas, no mudar de carreira, na criatividade que é necessária para a vida também nos rotulamos de demasiados velhos para isto ou aquilo, que a altura para perseguir os nossos sonhos é quando somos jovens, sem filhos, sem obrigações, livres.

Se há alguma altura que é demasiado tarde para fazer seja o que for, é quando estamos mortos, só aí, até esse último segundo, há sempre algo que podemos fazer para vivermos uma vida da qual nos orgulhamos.

O projecto Lata 65 da anterior convidada Lara Seixo Rodrigues é um excelente exemplo de alguém que tem a certeza que a idade não é uma barreira, e que quando é, é porque foi criada por nós. Quem diria que colocar pessoas com setenta, oitenta e até noventa anos a grafitar paredes era possível, e uma boa ideia?

A Lara achou e todas estas pessoas mais velhas acreditaram que era possível expressarem-se de uma forma que não era “para a idades delas”, e o resultado está à vista, a alegria que sentem ao sentirem-se mais vivos por aprenderem algo novo, e acredito eu também de estarem a fazer algo que provavelmente toda a vida encararam como ilegal, no fundo uns velhinhos rebeldes.

A Luísa Cortesão, que infelizmente já faleceu, foi um belo exemplo de alguém que encontrou esta expressão artística e decidiu torná-la sua, passou a partilhar paredes com outros artistas, muito mais novos, e gozou em pleno anos em que supostamente a sociedade esperaria que ela estivesse num lar a fazer crochet e a ver o Goucha e a Cristina.

No livro “Counterclockwise” a Ellen J. Langer fala da experiência que fizeram em 1979 onde durante uma semana colocaram um grupo de idosos a viver como se de 1959 se tratasse, isto é, sendo eles vinte anos mais novos. As fotos deles, as notícias, os assuntos de conversa, a decoração do local onde fizeram a experiência, tudo foi tratado como se estivessem em 1959. Resultado, a grande maioria melhorou em indicadores como pressão arterial, força para agarrar objectos, mobilidade, e até em aspecto, pois tiraram fotos antes e depois, perguntaram a pessoas que nada sabiam do estudo qual a foto onde pareciam mais novos, e a respota foi a do fim do estudo.

A quantidade de histórias que vamos sabendo de pessoas que mudaram de vida, que seguiram os seus sonhos, mesmo em idades tardias até é grande, porque razão achamos que é só para os outros?

Medo, sempre esse bicho papão que nos ameaça com o ridículo que podemos parecer, a segurança daquilo que temos, o achar que é muito difícil aprender novas coisas, que largar uma pele vai doer muito, no entanto, como podemos ver, a pele nova é muito mais bonita, mais brilho, mais luz.

“Não deixes que aquilo que ainda não consegues interfira com aquilo que já consegues fazer.” John Wooden

Quando há mudança é fácil ver aquilo que nos custa para chegar onde gostaríamos, mas não tomamos em conta os custos de ficar onde não gostamos de estar.

Onde não gostamos de estar, aí sim envelhecemos, definhamos, morremos por dentro, e isso reflecte-se por fora, os movimentos tornam-se pesados, carregamos ressentimento, tristeza, frustração do que poderíamos ser e não ousamos ser. Sim, crescer, mudar, é uma ousadia, mas é essa ousadia que nos faz ansiar por estar vivos, por lutar mais um round, saber que estamos na arena, a tentar, mesmo que para isso tenhamos de levar uns murros.

Todas dores, sofrimentos que passámos, tiveram um fim, e aquilo que mais nos lembramos são as atitudes que tomámos nessas altura, se nos encolhemos, ou se cerrámos punhos e lutámos por aquilo em que acreditamos.

Cair, caímos sempre, pode ser devagar, devagarinho e já não levantar, ou pode ser cair, cair, cair várias vezes, mas em todas elas levantar, com rugas, com dores, mas vivos, por dentro e por fora.

Os burros velhos aprendem tanto como os novos, talvez de outras maneiras, mas burros mesmo, são aqueles que acham que não têm nada para aprender.

“É impossível para um homem aprender aquilo que ele pensa que já sabe.”

Epíteto

Dúvidas ou sugestões, envia um email, rui@falarcriativo.com

 

Urgente ou Importante?

“Aquilo que é importante raramente é urgente e o que é urgente raramente é importante.”

Dwight D. Eisenhower

Este texto era para ter sido publicado na semana passada, ironia das ironias, não o foi.

Porquê?

Porque eu disse que sim a demasiadas coisas, às urgentes, não às importantes.

Também disse que sim a algumas importantes, mas a sensação que tive foi a de todos os dias chegar ao fim e de não ter feito o suficiente.

Quando é recorrente o sentimento de não ter sido o suficiente, não é porque fizemos pouco, é sim porque fizemos muita coisa que não nos preenche.

Todas as tarefas, projectos que acedemos fazer contêm em si um número grande de sub-tarefas que são necessárias para que a grande tarefa seja cumprida, e é normalmente aqui que nos perdemos, eu pelo menos, assim o tenho feito.

No início da semana passada falei com uma pessoa que me disse que ainda não tinha tido tempo para escrever uma simples mensagem para outra pessoa, estamos a falar de cinco, seis, dez linhas no máximo de conteúdo, algo que demorará uns cinco a dez minutos a fazer. Que vida é essa que não permite que excepcionalmente se incluam cinco a dez minutos extras para escrever?

Que vidas se tornaram as nossas que quando é necessário combinar algo com mais do que duas pessoas parece que estamos a lidar com a agenda de pessoas que têm de gerir os destinos de um país?

Porque razão se tornou sinónimo de sucesso, responder que andamos sem tempo?

Se o tempo é dinheiro, andamos nós mais pobres ou mais ricos?

Sim, porque se andamos a trocar tempo por algo, deveria ser dinheiro, ou não?

Sei que a maior parte das pessoas que falo se queixa do mesmo, que não tem tempo para nada, mas no entanto a agenda está cheia. Uma contradição deveras interessante, pois provavelmente está cheia de coisas que as pessoas não consideram importantes, são coisas que consideram obrigações, urgências, algo que têm de fazer, que depende delas, e que na maioria dos casos é para ser feito para ontem.

Vejo que as agendas dos que são pais se enchem com todas as festas e solicitações que as crianças passaram a trazer para as agendas dos adultos. Quando criança lembro-me de ter tempo, lembro-me de me aborrecer por não haver nada para fazer, lembro-me dos meus pais terem tempo de ver televisão comigo, lembro-me de serões a jogar às cartas, lembro-me de viagens à terra do meu pai num jipe que não passava dos cento e vinte kilómetros hora, mas nem por isso havia esta enorme falta de tempo percebida.

Havia muitas coisa por onde escolher, a grande diferença é que não tínhamos conhecimento nem de metade. Aquilo que me parece é que nos sentimos mais solicitados, e menos capazes de dizer que sim a tudo, porque o tudo antigamente era muito menos, hoje tudo são centenas de coisas, são centenas de “amigos” no facebook, a que se juntam centenas de páginas que promovem o seu evento, e nós a ver o mundo a acontecer, incapazes de estar presentes nem que seja em dez por cento das coisas. É que ficamos a saber que o Manel vai à festa X, que a Sara vai ao lançamento de Y, que o Gonçalo vai ao jantar da Joana, que aquela banda que tanto gostamos toca no mesmo dia que a nossa avó faz anos e que há o eclipse, no dia em que joga o nosso clube para decidir o campeonato, e..e..e..e… não tem fim.

Então como encontrar paz neste caos de informação e solicitações do nosso tempo?

“Estamos todos ocupados. Todos aceitámos demasiado. Dizer sim a menos coisas é o caminho.” 

Derek Sivers

Primeiro será marcar na nossa agenda tempo para estabelecer prioridades, sem elas a tensão de dizer que sim será muito maior. Se eu souber que não digo que sim a mais propostas, a dúvida não se coloca no momento em que tenho de recusar, a decisão está tomada antes de ter que ser tomada. É o mesmo que querer decidir que vou deixar de comer bolos dentro de uma pastelaria com fabrico próprio… não vai dar.

O Derek Sivers tem explorado o conceito de não dizer que “Sim”, ou dizemos “Claro que sim!!!” ou então dizemos “Não”. O objectivo é perceber rapidamente se vamos ter a energia para levar os projectos a bom porto sem nos matarmos pelo caminho, ou toda a felicidade que temos só porque fomos dizendo tímidos sim por medo ou para não falhar com expectativas alheias.

O fundamental para conseguir navegar neste mundo de muitas coisas, pouco tempo é saber à partida o que queremos para nós, estar presente em todos os eventos mesmo que isso signifique não dormir e não ver a família?

Ou será que queremos estar em controlo do nosso tempo?

Se não estivermos em controlo do nosso tempo, no momento em que todos os astros se alinham e nos presenteiam com a oportunidade da nossa vida, não vamos ter a possibilidade de lhe dizer “Claro que sim!!!”

Segundo o Seth Godin, “estar demasiado ocupado” é uma escolha, uma decisão que tomamos, precisamente por falharmos em tomarmos a decisão daquilo que queremos.

Eu por exemplo quero ter mais tempo para voltar à terra do meu pai, quero mais tempo para escrever, quero mais tempo para ir ao cinema, já decidi que vou dizer que não a todas as coisas que não preencham dois ou mais de quatro requisitos:

  • Conhecimento – Vou aprender alguma coisa?
  • Diversão – É algo que me dá gozo?
  • Dinheiro – Vale a pena financeiramente?
  • Ligação – É com  pessoas que quero passar mais tempo?

Alguns convidados que gostava de entrevistar, não tenho conseguido por que eles têm definidas outras prioridades, em que dar entrevistas não é uma delas. Custa-me sempre um bocado não conseguir certas conversas que gostaria de ter, mas tenho cada vez mais respeito pelas pessoas que defendem o seu bem mais precioso, o tempo.

No dicionário, vem a definição de urgente como algo que vem de urgir, que significa entre outras coisas “apertar, oprimir, perseguir, acossar, impelir, apressar”.

Para importante temos, “que tem importância, valor ou mérito”, e também, “o que mais interessa”.

A pergunta que me deixo e a ti também é:

Onde queres passar mais tempo, naquilo que te aperta, oprime ou naquilo que tem valor e que mais interessa?

Vamos pensar nisso.

Qualquer coisa, envia um email para rui@falarcriativo.com

 

Medo e Treino

“Denonimado o teu medo deve ser, antes de banir o conseguirás.”

Yoda, Star Wars

Esta frase dita de forma confusa pelo Mestre Yoda da saga Star Wars, quer dizer que enquanto não chamarmos o nosso medo pelo nome que tem, nunca seremos capaz de o superar.

Temos resistência em admitir que temos medo, como se ao reconhecê-lo o estivéssemos a validar, a dar-lhe permissão para tomar conta de nós, mas a minha experiência é precisamente a contrária, quando tenho a coragem de admitir para mim mesmo que estou com medo, e depois disso começar a investigar qual o verdadeiro medo que se esconde atrás de uma prima mais aceite e subtil que é a ansiedade.

Há uns meses que estou a passar por uma situação algo complicada, a qual ainda não posso partilhar, que me tem feito andar numa montanha russa de ansiedade, quer seja na subida, quer seja na descida, e a ansiedade corrói lentamente, uns dias passa a pânico, limita, mas na maior parte dos dias faz-me simplesmente funcionar a menos de metade da capacidade.

No início desta semana estava prestes a rebentar, andava a corroer-me há alguns dias, mas neste caso o rebentar era mais por dentro, a conduzir-me a um lugar de apatia, desânimo, depressão.

“Aquele que sofre antes de ser necessário, sofre mais que o necessário.”

Séneca

Aprendi que quando sinto que tudo está por fazer, que nada está no meu controlo, que estou vulnerável ao que o mundo envia na minha direcção, é altura de parar, pegar no diário, confrontar-me comigo, os meus medos, a minha ansiedade. Foi o que fiz.

Comecei a dar nome ao que sentia, deixa de ser só uma impressão, algo vago, tem nome, existe no papel, não estou mais num ciclo vicioso de vozes divergentes e confusas que se tornam apenas ruído paralisante. Quando escrevo não consigo escrever todas as vozes ao mesmo tempo, têm de se chegar à frente uma de cada vez, e assim mais facilmente as identifico e quais as suas razões, motivações.

Dos tais medos que tenho, surgiram, medo de que me gritem, medo que me agridam, medo que me ignorem, medo de ser incapaz de me defender, medo de passar fome, medo de sofrer lesões graves, de não ter qualquer capacidade para agir em meu benefício e protecção. A pouco e pouco, ao ver todos esses medos alinhados a olhar para mim, comecei a dialogar com cada um rebatendo os seus argumentos, dando exemplo de situações pelas quais já passei em que reagi, que me defendi, que gritei de volta, que bati de volta, que simplesmente ignorei e segui a minha vida, que mesmo as tais lesões graves que já sofri (não foram assim tão graves), acabaram por ter algum tipo de solução, nem que seja aprender a viver com elas. Comecei a fazer um inventário de todas as capacidades que tenho, de que forma as posso usar, de que forma posso pedir ajuda, e até cheguei ao momento em que saí do buraco fechado em que só estou eu e os meus “problemas”, e comecei a ver maneiras de ajudar outras pessoas, e aí percebi que o foco já não era o de sobrevivência, estou bem, e posso ficar melhor, relativizei, saí do pior cenário, para o cenário mais real, o que está aqui, hoje à minha frente.

“Medo é só um pensamento, e os pensamentos podem ser alterados.”

Josh Perry

Todo este processo é agora mais simples porque não é a primeira vez que faço este exercício de escrever, de enfrentar crenças, fantasmas, no fundo situações que deixam determinada impressão, mas que muitas das vezes deixa uma impressão muito mais negativa do que a realidade dos factos. A memória não é tanto um livro de registos, mas mais um comentário permanentemente actualizado.

Repetição. Treino.

Aceitamos que os atletas tenham de treinar muito para conseguir determinadas capacidades físicas, mas temos pouca tolerância connosco no momento em que temos de tomar decisões, agir desta ou daquela maneira que consideramos mais adequada.

Não deveremos nós ter a mesma mentalidade de treino para tudo o que queremos atingir, ser, fazer?

Há o exemplo mais que batido da criança que está a aprender a andar, que cada vez que cai não fica a pensar que nunca irá conseguir andar. Tenta, cai, tenta, cai, tenta, aguenta-se dois segundos, cai, na vez seguinte aguenta-se três segundos, e há toda uma progressão, uma evolução na direcção que é conseguir andar, o objectivo é claro.

Estava a ouvir um atleta de BMX a referir que treinam certos saltos e manobras onde a aterragem é num fosso de espuma, e depois passa para uma zona mais rígida mas ainda almofadada, e só depois tentam nas rampas, no pavimento, na terra.

Porque razão achamos nós que temos de conseguir realizar todas a manobras que fazem parte da nossa vida e do nosso crescimento sem aceitar que temos medo, que talvez não seja má ideia arranjar uns “colchões” para nos amparar a queda, e sobretudo que não vamos acertar à primeira?

Ouvi também numa entrevista uma jogadora de póquer falar que se eu tentar uma coisa dez vezes e acertar uma, tenho uma taxa de sucesso de dez por cento, e se ao fazer algo de diferente como por exemplo respirar fundo antes de tentar, escrever no diário, acertar duas vezes significa isso que não vale a pena? Afinal, continuo a falhar oitenta por cento das vezes…

Este é um erro grave que cometo, e vejo cometer muitas vezes outras pessoas, em vez de focarmos num aumento de cem por cento relativamente à nossa prestação anterior, preferimos focar nos oitenta por cento de falha, e desta forma vamos largar algo que nos estava a levar na direcção certa, embora, tecnicamente ainda seja um falhanço gigante.

Será que os atletas de BMX, tentam algo novo, caem, não voltam a tentar? Não me parece, caso contrário nunca os veríamos a fazer todas as manobras fantásticas que fazem.

O que será preciso acontecer para nós passarmos todos a ter esta visão relativamente às nossas atitudes e comportamentos?

Pessoas próximas de mim já me chamaram à atenção várias vezes que não entendem porque me irrito, porque deprimo, se eu medito, escrevo num diário as minhas reflexões, como é que é possível eu ser permeável a tais comportamentos?

Respondo-lhes quase sempre, que se não o fizesse seria bem pior, a minha taxa de sucesso pode ter aumentado apenas dois ou três por cento, não sei, mas sei que melhorar dois ou três por cento é bem melhor do que estar parado no mesmo sítio.

Progresso, aprendizagem, fazem-nos avançar, depressa ou devagar, é para a frente.

Link para o evento no Colégio Marista de Carcavelos dia 27 de Abril, às 21h.

Dúvidas, sugestões envia para rui@falarcriativo.com

Intenções, objectivos e expectativas

“De boas intenções está o inferno cheio”

Ditado Popular

Estará mesmo?

Não sei se estará, não sei se esse tal inferno sequer existe ou não, mas sei que aquilo que por vezes sofro se pode chamar de inferno, ter uma intenção, e não a ver concretizada, não a ver ser mais do uma simples intenção.

Penso que essas intenções e esse tal inferno que o ditado fala, tem a ver com isso, com o facto de muitas pessoas terem montes de desejos, sonhos, coisas que gostariam ter feito e nunca fizeram, e que o remorso de chegar ao momento final das suas vidas e perceber que provavelmente o melhor que tinham para oferecer ao mundo, ficou dentro de si.

Quantos de nós não dizem que “um dia vou ser cantor” ou “eu até tenho jeito para pintar”, ou “daqui a um ano vou correr uma maratona”, mas o que acontece é que não arranjamos um professor de canto para nos tornarmos cantores, o tal jeito para pintar não passa de uma mania que temos e nada fazemos para pintar regularmente, e a maratona irá ser sempre no ano que vem, nunca chega a acontecer.

A minha experiência tem sido muito essa, de ter intenções de fazer muita coisa, mas que depois não tenho sido capaz de passar a objectivos operacionais, algo que aprendi recentemente, e que penso fazer toda a diferença para nos ajudar a chegar mais perto de ver as nossas intenções concretizadas.

Um objectivo operacional tem de integrar três componentes fundamentais:

– Descrição do comportamento esperado

– Quais as condições de realização

– Critério de êxito

Vou dar um exemplo e tentar explicar como podemos usar esta ferramenta para não ir parar ao inferno cheios de boas intenções, podemos ir lá parar na mesma, mas de consciência mais tranquila de ter feito o máximo com o que tínhamos, e isso para mim será sempre o meu céu.

Se eu quiser ser escritor, pintor, surfista, descrito desta forma são objectivos gerais, não específicos, e por sua vez não operacionais, nada nesta formulação me permite saber o que tenho para fazer, nem de que forma saber se o meu objectivo foi ou não alcançado, se estou perto ou longe do alcançar. Mas se eu disser que quero escrever duas horas todos os dias, que necessito de ter um caderno e caneta ou um computador, e que tenho de escrever quinhentas palavras por dia, aí consigo dizer que o comportamento esperado é escrever, que as condições de realização são o tempo designado e a caneta ou o computador, e que o critério de êxito são atingir ou não as quinhentas palavras. Poderei escrever mais, poderei escrever menos, poderei não escrever, mas ao confrontar o que fiz ou não fiz com o meu objectivo, facilmente percebo que a minha intenção não está ter resultados práticos.

Tudo muito certo, mas que tempo foi gasto no clarificar da minha intenção?

Devo eu partir logo para o estabelecimento do tal objectivo operacional com a primeira intenção que me surja?

Se partir logo para a definição do objectivo sem clarificar a verdadeira intenção, o que provavelmente irá acontecer, é atingir ou não o objectivo, mas isso pouco importará, pois se a intenção não era clara, não me irei satisfazer com qualquer dos resultados, sucesso ou insucesso. Haverá com certeza alguma alegria por atingir o objectivo, mas será sol de pouca dura, irei rapidamente encontrar-me com a mesma insatisfação que tinha antes de ter começado.

“Então assim vais passar a vida a clarificar as tuas intenções? Não vais passar daí, de reflexão atrás de reflexão.”

Diz aquela vozinha que me acompanha enquanto escrevo estes textos.

Mas tenho aprendido algumas coisas ao longo destes quase cinco anos de Falar Criativo, de coisas que vou lendo, estudando, perguntando, e já consigo responder a essa vozinha, já tenho algumas ferramentas que me permitem avançar sem ficar preso em comentários internos pouco construtivos.

Quando surge essa tal intenção, poderemos perguntar-lhe porquê três vezes como o Ricardo Semler faz quando se depara com determinadas situações, opiniões, pensamentos.

Por exemplo:

  • “quero ser pintor”
  • “porquê?”
  • “porque gosto de pintar”
  • “porquê?”
  • “porque me faz sentir bem”
  • “porquê?”
  • “porque consigo exprimir coisas que de outra forma não consigo”

A partir daqui sabemos que queremos exprimir coisas através da pintura que de outra forma não conseguimos, precisamos de passar à fase de encontrar as condições necessárias para a realização, e definir qual o critério de êxito.

As condições poderão variar de pessoa para pessoa, mas será necessário pincéis, tintas, e telas ou algo equivalente a este conjunto, precisaremos de dedicar tempo a fazê-lo, e um espaço onde fazer.

Critério de êxito, será pintar, e exprimir coisas que de outra forma não seria possível para mim. Poderia ser ter um quadro numa galeria, vender um certo número de quadros, mas quando estabelecemos a nossa intenção, aquilo a que chegámos não tem nada a ver com coisas que não controlamos, galerias e vendas.

A parte das expectativas é aqui que entra, para ser correcto deverá estar presente na nossa mente quando reflectimos sobre a nossa intenção, deveremos ter a noção, estar conscientes que as nossas intenções poderão não encontrar as nossas expectativas da forma que esperamos.

As coisas nem sempre correm conforme o planeado, a vida é imprevisível, por mais que nós tentemos fazê-la, ou melhor, por mais que queiramos acreditar na lógica dos acontecimentos, há uma componente aleatória tão grande que escolhemos não a ver, neste caso, se eu achar que ao fim de três meses vou estar a viver da pintura, as variáveis que eu não controlo são tão grandes que as minhas expectativas difícilmente irão ser concretizadas, mas se eu não amarrar as minhas intenções a resultado muito específico, poderei continuar a pintar sem achar que nunca será possível viver da pintura, e ainda poderei encontrar coisas que até superam as minhas expectativas em alguns aspectos, embora não em todos.

Cada vez mais me vou consciencializando que intenções bem trabalhadas, objectivos específicos e bem definidos nos aproximam de um lugar de tranquilidade, de paz de saber que não estamos a deixar por fazer, ou melhor, por viver tudo aquilo que podemos, mas nenhuma paz será alcançada se não estiver aberto ao aleatório, ao indefinido, ao imprevisível. Vejo mais claramente que a resistência que tenho tido ao que tem vindo na minha direcção por não ser exactamente aquilo que queria – quando ainda por cima não consigo apontar sem sombra de dúvida o que é que realmente quero – me tem retirado energia, sem que com isso algo seja produzido, tal como estar permanentemente a encher um pneu furado.

Quando estabeleço objectivos, a minha experiência tem sido de todos serem um sucesso, porque quando passo das intenções para a parte operacional de concretização, mesmo que não atinja exactamente o resultado esperado, sinto que foi uma oportunidade para aprender, para me confrontar com o que sei, o que acho que sei, e aquilo que não sei mesmo.

As minhas revoltas contra mim vêm quase sempre do que não tentei, daquilo que nunca passou de intenção, de expectativas baseadas em nada, em sonhos vãos, caprichos da boca para fora, associados a uma culpabilização do mundo por não me oferecer aquilo que eu não estive disposto a arriscar planear, ou quando comecei a planear me derrotei por só ver o que não sei, o que não tenho e tudo o que vai correr mal, não escolhendo ver as coisas que sei, aquilo que tenho e aquilo que pode correr bem.

O que tenho para me dizer neste momento é para ser claro nas intenções, objectivo no planeamento e aberto a vários resultados, de nada adianta fugir daquilo que me compete enfrentar, superar.

“Aquilo que impede a tua tarefa, é a tua  tarefa.”

Sanford Meisner

Dúvidas, sugestões, rui@falarcriativo.com